Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · FIGURAS
O primeiro «jiu-jitsu brasileiro» data de 1912, e nada tem a ver com os Gracie
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Ribas Cadaval, médico do exército, forjou a expressão para designar o seu método: a fusão «científica, metódica e sistemática» de capoeiragem e jiu-jitsu, em cinquenta e nove movimentos, para fazer dos soldados brasileiros «os rivais dos japoneses, se não mais ágeis e mais fortes»
POR QUE ESTE ARTIGO
A expressão «jiu-jitsu brasileiro» designa hoje a arte dos Gracie, globalizada pelo MMA. Os arquivos dão-lhe outra certidão de nascimento: sob a pena de um higienista militar, anos antes de a família Gracie entrar em cena, e com a capoeiragem como metade constitutiva.
Um médico militar à vista de todos
Depois do oficial anónimo de 1885, o segundo pedagogo da capoeiragem avança, este à vista de todos. Ribas Cadaval, médico do exército, escreve no início do século um Tratado de Higiene Militar Brasileira adotado pelo Congresso nacional, do qual, ironia documental, não se encontrou qualquer rasto de publicação. O seu universo é o do higienismo então dominante nos debates, da Europa aos Estados Unidos: melhorar a saúde das tropas repensando os quartéis, a farda, até à impermeabilização das botas, a dieta, o alcoolismo. E a educação física, onde aloja o seu grande assunto: uma ginástica nacional fundada na «reunião científica, metódica e sistemática» dos «dois jogos, brasileiro e japonês».
Se já não precisa de se esconder, é que a época mudou, e a tese nota porquê: o manual de O.D.C. e o campeonato de 1905–1906 tinham passado. A capoeiragem «já não era uma atividade de criminosos notórios mas um desporto de pleno direito».
Cinquenta e nove movimentos
A sua fórmula, dá-a ele próprio: «No meu trabalho organizo a ginástica nacional brasileira, mistura de jiú-jitsú com capoeiragem; assim usei os golpes mais seguros, mais rápidos e mais eficazes da capoeiragem, que sistematizei associando-os ao que o jiú-jitsú tem de mais proveitoso.» O nome desta associação: «jiú-jitsú brasileiro». O objetivo: fazer dos soldados nacionais «os rivais dos japoneses, se não mais ágeis e mais fortes». O conteúdo: «cinquenta e nove movimentos distintos, fisiológicos e eficacíssimos» retirados das duas disciplinas, simples e diretos, como em O.D.C.: provocar a queda através de golpes ou rasteiras.
E para a parte brasileira, duas técnicas emblemáticas, de que recorda um título de glória esquecido: a cabeçada e a rasteira, «que, erguidas pelos nossos marinheiros, nos tornaram famosos nos portos militares de França, Inglaterra e até da Alemanha». Marinheiros brasileiros a exportar a cabeçada para os portos da Europa: uma linha, e todo um arco de circulação atlântica da capoeiragem se entreabre.
Não estava isolado
O pragmatismo de Cadaval, casar o nacional e o moderno em vez de os opor, resolvia a querela que então dilacerava os espíritos: Murat e os nacionalistas de um lado, os órgãos oficiais conquistados pelo jiu-jitsu do outro. Ora o próprio exército pendia para a união. Já em 1905, o tenente Santos Porto, tradutor do Japanese Physical Training de Hancock, escrevia no seu prefácio: «Hoje, o capoeira profissional felizmente rareia […] É pois uma excelente ocasião para vencer as reticências perante os exercícios de agilidade que não só fortificam mas multiplicam os meios de defesa.»
E em agosto de 1908, o tenente-capitão Annibal Gama, oficial do Benjamin Constant, o próprio navio que traria os professores japoneses, declarava: «O conhecimento da arte da capoeira é na verdade utilíssimo […] Concordo com o ensino escolar sistemático da capoeira, mas não devemos depreciar o valor real do jogo japonês, útil na fase do combate corpo a corpo.» Ainda antes, em 1897, o General Couto de Magalhães decretara numa frase que passou despercebida: a «luta física, a capoeira […] deveria ser dominada, regularizada, nas nossas escolas militares, porque um bom capoeira é um homem que equivale a dez homens».
Praticado por toda a parte, oficializado em lado nenhum
O jiú-jitsú brasileiro de Cadaval não se tornou o método oficial do exército. Mas o veredito de fracasso induziria em erro: a capoeiragem vivia nas fileiras. A prova por um festival: a 3 de agosto de 1911, a Escola de Aprendizes Marinheiros e o seu comandante organizam um dia de competições, corridas, jogos atléticos, e combates de «luta greco-romana», «combate de bastão» e «ginástica nacional (capoeiragem)».
O balanço da tese: o método não foi adotado, mas «no seio do comando, relaxou as mentalidades. A capoeiragem já não era apenas permitida mas podia ser tratada em pé de igualdade com os outros exercícios atléticos», e os jovens soldados «participaram na manutenção e difusão, no seio do exército, desta tradição pugilística». Quanto à expressão «jiu-jitsu brasileiro», aguardava a sua hora. Quando regressou, décadas mais tarde, levada por uma família de escoceses do Pará, ninguém se lembraria de que um médico higienista a forjara, com a capoeiragem lá dentro.
FONTES
Cadaval, R., «Qual o sport mais útil?», Gazeta de Noticias, 28 mar. 1912; «O Benjamin no Japão. O jiú-jitsu», O Paiz, 4 ago. 1908 (Annibal Gama); «Eschola de Aprendizes Marinheiros», Estado do Pará, 3 ago. 1911, Biblioteca Nacional do Brasil. Hancock, H. I., Educação Física Japoneza, trad. Santos Porto, 1905 (prefácio). Couto de Magalhães, 1897. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.2.
NO CORPUS
→ A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial
→ Sem os Gracie, não há roda moderna
→ «A melhor capoeira do Brasil» era um professor de jiu-jitsu
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. O primeiro «jiu-jitsu brasileiro» data de 1912, e nada tem a ver com os Gracie. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 33. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-primeiro-jiu-jitsu-brasileiro-data-de-1912-e-nada-tem-a-ver-com-os-gracie [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.