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HISTÓRIA · COMBAT

Sem os Gracie, não há roda moderna

5 MIN DE LEITURA

De 1928 a 1953, os capoeiras perdem todos os seus grandes combates contra os professores de jiu-jitsu. Esta história humilhante desapareceu das narrativas oficiais. É, no entanto, a chave da capoeira contemporânea

POR QUE ESTE ARTIGO

As disciplinas contam as suas vitórias e apagam as suas derrotas. Ora, as derrotas de 1928–1953 não se explicam nem pela fraqueza dos homens nem pelo acaso, mas pela incompatibilidade de duas lógicas de jogo. E sem elas, a capoeira folclórica, musical e circular de hoje não existiria.

Um gigante de um metro e cinquenta e cinco

São Paulo, 19 de outubro de 1928. Um campeão de jiu-jitsu de 1,55 m e 66 quilos, Géo Omori, acaba de vencer o capoeira Oswaldo Caetano Vasques. A notícia faz barulho: desde o fim dos anos 1920, capoeiras e professores de jiu-jitsu disputam, nos ringues e nos jornais, o título de método de autodefesa mais eficaz do Brasil.

Um mestre reconhecido aceita então o desafio. Argemiro Feitósa, em quem a imprensa paulista deposita toda a sua confiança, quer «lavar a afronta feita à capoeiragem nacional». As suas condições merecem atenção. Combater fora do ringue, num campo de futebol ou num espaço aberto, ecoando as propostas que Burlamaqui publica nesse mesmo ano. Sem o quimono. E sem pagamento: «Feitósa quer apenas demonstrar a superioridade da arma nacional tão desacreditada por Caetano Vasques.»

Recusar o ringue, o quimono e o dinheiro é recusar combater na gramática do adversário. Os capoeiras tinham compreendido algo que a história estava prestes a confirmar. Não lhes deram a oportunidade. Feitósa é vencido a 13 de janeiro de 1929. A sanção mediática cai de imediato: «Após as sucessivas derrotas, os jornalistas abandonaram os capoeiras. A arte de combate nacional desapareceu do espaço público.»

No Rio, o cenário repete-se, com nomes que marcarão o século. A família Gracie: Carlos, Hélio, George, formados na escola do japonês Sakuzo Miura e dos seus pares. A linhagem direta do adversário de Cyriaco. «Esmagam os capoeiras baianos e cariocas.» A imprensa anuncia «a entrada na liça do melhor capoeira do Brasil» para «salvar o jogo nacional». Nada resulta. Num quarto de século, a arte de combate nacional perde, ringue após ringue, a batalha da eficácia que ela própria começara.

Por que perderam

A tentação é grande de explicar estas derrotas pelos homens. Não sobrevive à análise. Não foram os capoeiras que eram fracos. Foram as lógicas que eram incompatíveis.

Por «lógica interna» entende-se aquilo que a estrutura de um jogo obriga e permite fazer aos seus jogadores, o conjunto de constrangimentos e possibilidades que as suas regras inscrevem nos corpos. Ora, as duas lógicas em presença quase nada tinham em comum.

O jiu-jitsu era um método global: preparação física, dieta, técnicas catalogadas e sistematizadas. Um aparelho completo para produzir o lutador. A capoeiragem acabava de sair das ruas. A sua lógica interna, o simulacro, o quase-toque, o jogo, não fora concebida para a imobilização no solo e as chaves articulares. Duas lógicas de jogo confrontavam-se. Num ringue, sob as regras do ringue, a do jiu-jitsu vencia quase sempre.

As condições postas por Feitósa, sem ringue, sem quimono, mostram que os capoeiras percebiam esta assimetria. Pediam, sem nunca o obter, que o combate se jogasse na sua gramática e não na do adversário.

O que a derrota fabricou

Eis a reviravolta que as narrativas oficiais nunca contam: as derrotas não mataram a capoeira. Transformaram-na.

O movimento lê-se primeiro na Bahia, para onde o modelo desportivo carioca fora exportado. O Mestre Bimba organiza combates entre a sua escola e outros capoeiras; o seu domínio incontestado obriga estes últimos a abandonar os campeonatos e a construir as suas próprias competições sobre outros critérios. Um cisma aparece entre «tradicionais» e «modernos».

Depois o movimento volta-se contra os seus promotores. No fim dos anos 1940, Bimba e os seus alunos enfrentam os cariocas no próprio coração da capital, e «após sofrer derrotas pungentes», abandonam a competição desportiva para recuar para a capoeira «tradicional» que até então tinham depreciado.

O último ato desenrola-se em meados do século. Derrotas contra o jiu-jitsu, os reveses dos alunos de Bimba, a ascensão da capoeira folclórica nordestina na capital: tudo converge para marginalizar a capoeiragem de ringue, até ao seu desaparecimento em meados dos anos 1950, selado pelo «primeiro vale-tudo da história», onde a capoeiragem foi «morta de novo». A versão combativa do jogo morre uma segunda vez. Já não sob os golpes da polícia, mas sob os da competição desportiva.

A herança paradoxal

É deste recuo, e não de qualquer continuidade pacífica com uma idade de ouro, que nasceu a capoeira contemporânea: folclórica, musical, circular, espetacular. As narrativas oficiais apagam as derrotas como outros tantos episódios vergonhosos. As fontes fazem delas o próprio motor da invenção.

Há pois que ousar a fórmula, por mais contrária que seja às imagens piedosas: sem os Gracie, não há roda moderna.

FONTES

Arquivos de imprensa, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro) e imprensa paulista: «Uma exhibição de capoeiragem na Guarda Civica», Diario Nacional, São Paulo, 6 dez. 1928; Diario Nacional, 21 out. 1928; «Géo Omori vae lutar no Rio», Diario Nacional, 18 jan. 1929; «As lutas no Circo Queirolo», Diario Nacional, 26 set. 1928. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A e D.

NO CORPUS

→ Modernizaram a capoeira, perderam, e depois abraçaram a tradição que tinham escarnecido

→ Vencer caindo, tocar sem tocar

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Sem os Gracie, não há roda moderna. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 05. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/sem-os-gracie-nao-ha-roda-moderna [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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