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HISTÓRIA · BAHIA

Modernizaram a capoeira, perderam, e depois abraçaram a tradição que tinham escarnecido

5 MIN DE LEITURA

A divisão Regional/Angola estrutura todas as academias de capoeira do mundo. Julga-se nascida na Bahia, da Bahia. As fontes contam uma importação carioca, e uma inversão final que a narrativa recebida nunca menciona

POR QUE ESTE ARTIGO

Duas correções à narrativa recebida: o cisma baiano procede de uma importação do modelo desportivo carioca, e o seu desfecho não foi a vitória de nenhum dos campos. Compreender esta génese é compreender por que a querela, nunca encerrada, se tornou mundial.

Uma fratura com quase um século

Empurre a porta de uma academia de capoeira em Salvador, Paris ou Tóquio. Herdará uma divisão prestes a fazer um século: Regional de um lado, Angola do outro. A fratura parece tão constitutiva da disciplina que se julgaria nascida com ela, brotada da Bahia, entre baianos, por razões baianas.

As fontes contam outra coisa. Obrigam-nos, primeiro, a quebrar um hábito: o de contar as histórias regionais da capoeira como trajetórias paralelas, o Rio aqui, a Bahia ali, cada uma na sua estrada. Estas histórias estão «entrelaçadas, interligadas umas às outras». Em São Paulo, o primeiro capoeira a combater em competição vinha da capital federal. E é o modelo desportivo carioca, campeonatos, combates, regulamentos, que é exportado para a Bahia nos anos 1930. A fórmula cabe em cinco palavras: «Capoeiragem carioca e Mestre Bimba, interligados.» A Regional, tantas vezes apresentada como um jorro puramente baiano, é também o fruto de uma importação.

Como nasce um cisma

Sobre este modelo importado, Manuel dos Reis Machado, conhecido por Bimba, constrói o seu domínio. Organiza combates entre a sua escola e outros capoeiras. Ao início, estes aderem ao projeto competitivo. Depois «o domínio incontestado de Mestre Bimba obrigou-os a abandonar esses campeonatos e a construir as suas próprias competições sobre critérios diferentes».

Note-se o mecanismo: não é, ao início, um desacordo doutrinal que cria a cisão. É uma assimetria de resultados. Os perdedores permanentes desertam o terreno do vencedor, e fundam o seu. O desacordo doutrinal vem depois, e incide sobre a própria definição da atividade. Fazem parte do jogo os golpes e as projeções? «Não seria preferível suprimir, em nome da eficácia absoluta, os passos cadenciados e os entrelaçamentos de corpos cooperantes, como Mestre Bimba desejava?»

Esta linha de fratura cruza-se com outra, observada no mesmo momento no Rio, onde a técnica corporal serve de instrumento de distinção «entre pobres e ricos, negros e brancos», certos jornalistas distinguindo uma forma de corpo «mais antiga» (a dos negros das favelas) de «outra, mais moderna e digna de interesse» (a dos alunos de Sinhôzinho), ao ponto de quererem proibir passos julgados «símios». Sob a querela técnica, por toda a parte, a mesma pergunta: que corpo deve ter a capoeira legítima?

A reviravolta

Fim dos anos 1940. Bimba e os seus alunos dão o passo que a sua lógica desportiva reclamava: enfrentar os cariocas no próprio coração da capital. O resultado: «Os baianos, após sofrer derrotas pungentes, abandonaram a competição desportiva e preferiram-lhe a capoeira mais ‹tradicional› que até então tinham depreciado.»

Releia-se essa reviravolta. Os campeões da modernização, vencidos no terreno desportivo que eles próprios tinham promovido contra os «antigos», adotam a posição do campo oposto. O recuo pertence ao movimento geral: derrotas contra o jiu-jitsu, os reveses dos alunos de Bimba, a ascensão da capoeira folclórica nordestina na capital, até ao desaparecimento da capoeiragem de ringue em meados dos anos 1950.

Quem venceu? Nem os «modernos» nem os «antigos». A capoeira que então conquista o Brasil e o mundo não é nem a Regional puramente desportiva nem a velha capoeiragem de combate: é a capoeira folclórica baiana, berimbau, roda, cantos, elaborada nos anos 1930 pelos intelectuais e difundida pelo Serviço de Turismo da Bahia e pelos professores migrantes. Um pormenor material mede esta vitória por encobrimento: no Rio, o berimbau não existia no universo do jogo; introduzido por Manoel e Coronel na Academia de Jayme Martins Ferreira, era dominado só por eles. O elemento hoje tido como a essência da capoeira era, na capital, uma novidade dos anos 1950.

Quanto à querela, nunca se apagou, mudou de escala. Nos simpósios de 1968–1969, os partidários da capoeira-folclore e da capoeira-combate «concordavam na necessidade de desportivizar a atividade mas dilaceravam-se sobre os aspetos regulamentares». Em filigrana, sempre a mesma pergunta, intocada: tecnicamente, o que é a capoeira? O cisma baiano não foi resolvido. Foi globalizado.

FONTES

Coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): imprensa carioca e baiana dos anos 1930–1950; Diario de Noticias (distinção das «formas de corpo», anos 1930). Carneiro, E., Capoeira, Ministério da Educação e Cultura, 1975. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. C.1–C.2 e D; Parte III, cap. A e B.

NO CORPUS

→ Sem os Gracie, não há roda moderna

→ A capoeira do Rio existiu. Depois foi apagada.

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Modernizaram a capoeira, perderam, e depois abraçaram a tradição que tinham escarnecido. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 14. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/modernizaram-a-capoeira-perderam-e-depois-abracaram-a-tradicao-que-tinham-escarnecido [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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