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HISTÓRIA · MEMÓRIA

A capoeira do Rio existiu. Depois foi apagada.

5 MIN DE LEITURA

Diga «capoeira»: pensará na Bahia, no berimbau, na roda. E, no entanto, existiu uma capoeiragem carioca, a dos primeiros manuais, dos primeiros campeonatos, de Cyriaco. Eis como a sua memória foi encoberta

POR QUE ESTE ARTIGO

A evidência que liga a capoeira à Bahia é o produto de uma história. Reconstituí-la é expor um mecanismo, o apagamento de uma versão de uma prática negra por outra, que hoje ameaça, noutros pontos das Caraíbas, o mayolè e o danmyé.

A capital que esquecemos

Diga a palavra «capoeira» perante qualquer plateia, no Brasil ou em qualquer outro lugar. As imagens que surgirem virão da Bahia: o berimbau, a roda, Salvador, Mestre Bimba. A evidência parece indiscutível. Tem, porém, uma história, e essa história começa por uma lembrança que acabámos por perder de vista.

O Rio de Janeiro foi a capital do Brasil durante quase dois séculos (1763–1960). Centro político, intelectual e cultural do Império e depois da Primeira República, a cidade albergava uma população africana muito numerosa, cuja riqueza cultural nada tinha a invejar às outras regiões do país. No fim do século XIX, tornara-se um cruzamento mundial das artes de combate, onde se cruzavam lutadores europeus, instrutores japoneses, campeões das colónias francesas e capoeiras locais.

E os factos alinham-se com uma clareza desconcertante. É no Rio que aparecem as duas primeiras obras técnicas sobre a capoeiragem: a de O.D.C. em 1885, a de Burlamaqui em 1928. É no Rio que se realizam os dois primeiros campeonatos da história, em 1905 e 1913. É no Rio que Cyriaco derruba o instrutor de jiu-jitsu da Marinha, em 1909, perante um teatro em delírio. E é no Rio que dormem ainda as coleções onde esta história espera os seus leitores, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional, o Centro Nacional de Folclore.

O Rio não foi um foco entre outros. Foi o lugar onde a capoeiragem foi pela primeira vez posta por escrito, codificada e publicamente consagrada.

Uma capoeira sem o berimbau

Esta tradição carioca tinha uma fisionomia própria. Um traço basta para medir a sua distância em relação à imagem atual da disciplina. Desconhecia o berimbau.

Ainda nos anos 1950, a capoeiragem carioca, representada então pela escola de Sinhôzinho, praticava-se sem o arco musical, que simplesmente não existia no universo do jogo local. Foi introduzido na capital por dois professores, Manoel e Coronel, na Academia de Capoeiragem de Jayme Martins Ferreira. «Eram os únicos que sabiam tocá-lo.» Na cidade dos primeiros manuais e dos primeiros campeonatos, o instrumento hoje percebido como a alma eterna da capoeira era uma importação tardia, dominada por dois homens.

Como se apaga uma tradição

Como pôde uma história tão densa desaparecer da memória coletiva? A cronologia dá a primeira chave: o apagamento foi uma substituição. No próprio momento em que a capoeiragem carioca se extinguia e os seus últimos mestres desapareciam, a capoeira folclórica elaborada nos anos 1930 pelos intelectuais baianos difundia-se rapidamente pelo Sudeste. Impôs-se no imaginário coletivo como a única e verdadeira capoeira, relegando as outras versões ao estatuto de «variantes infelizes da prática autêntica».

Os canais desta difusão podem ser identificados um a um: os livros, os documentários, os filmes, os espetáculos folclóricos; uma política determinada do Serviço de Turismo da Bahia, que fez da capoeira um emblema do destino; e sobretudo os numerosos professores baianos que tinham migrado para o Sudeste, transmitindo como um todo indivisível educação física, autodefesa, desporto e folclore.

Um documento mede o acabamento do processo. Nos escritos dos folcloristas, «o Sudeste do país estava a tornar-se uma periferia de Salvador». Edison Carneiro escreve assim em 1975: «Os grandes capoeiras da Bahia […] emigrados para o Rio de Janeiro tentam perpetuar a vadiação em solo carioca.» Releia-se essa frase. O Rio, a cidade dos primeiros manuais, dos primeiros campeonatos, de Cyriaco, é aí descrito como um mero território de missão para a capoeira descida do Nordeste. A inversão da memória está consumada.

Um encobrimento, não uma destruição

A natureza exata do fenómeno importa, pois muda tudo. Não se trata de uma destruição. As fontes existem, intactas, nas coleções da Biblioteca Nacional do Brasil. Trata-se de um encobrimento: a historiografia dominante, construída a partir da Bahia e com categorias baianas, não as lê. A história carioca não foi queimada, foi tornada ilegível pelo triunfo de outra narrativa.

A distinção tem uma consequência prática: uma história encoberta pode ser restituída. Basta mudar a base documental.

E o mecanismo alcança muito para lá do Brasil. Uma versão de uma prática negra eleita, normalizada, difundida pelas instituições culturais e turísticas; as outras versões relegadas, depois esquecidas: tal é a forma geral que a patrimonialização pode tomar para uma prática da diáspora. Para o mayolè guadalupense e o danmyé martinicano, que entram hoje na idade da sua própria patrimonialização, esta lição é tudo menos académica. É um aviso.

FONTES

Coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): imprensa carioca, 1905–1955. Carneiro, E., Capoeira, Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1975. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte III, cap. A.1–A.2.

NO CORPUS

→ O berimbau: uma «tradição imemorial» mais recente do que pensamos

→ Mercado Modelo: será a capoeira «turística» uma traição?

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. A capoeira do Rio existiu. Depois foi apagada.. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 06. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-capoeira-do-rio-existiu-depois-foi-apagada [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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