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HISTÓRIA · MEMÓRIA

O berimbau: uma «tradição imemorial» mais recente do que pensamos

4 MIN DE LEITURA

O arco musical tornou-se a alma sonora da capoeira mundial, ao ponto de uma roda sem berimbau parecer impensável. No Rio, capital histórica da capoeiragem, chegou apenas nos anos 1950. E só dois homens sabiam tocá-lo

POR QUE ESTE ARTIGO

Este é o caso exemplar do corpus: a prova, sobre um objeto preciso e datado, de que aquilo que percebemos como a essência de uma tradição pode ser o resultado de uma redefinição vitoriosa. Com, em jogo, a questão de método que deve guiar toda a investigação sobre as tradições.

O instrumento que não existia

Feche os olhos e evoque uma roda de capoeira. Antes mesmo dos corpos, vem um som: a vibração metálica e grave do arco musical. O berimbau tornou-se de tal modo consubstancial ao jogo que uma capoeira sem berimbau parece uma contradição nos termos.

E, no entanto, eis o que dizem as fontes. Nos anos 1950, a capoeiragem carioca, representada então pela escola de Sinhôzinho, «desconhecia o uso destes instrumentos apresentados como tradicionais». No Rio de Janeiro, «este arco musical não existia no universo do jogo brasileiro». Foi introduzido na capital por Manoel e Coronel, quando ensinavam na Academia de Capoeiragem de Jayme Martins Ferreira. «Eram os únicos que sabiam tocá-lo.»

Na cidade dos primeiros manuais, dos primeiros campeonatos e de Cyriaco, apenas dois homens conseguiam tirar um som do instrumento suposto encarnar a alma eterna do jogo.

«Música bárbara e primitiva»

Como chegou o berimbau aos ouvidos cariocas? Através das digressões da capoeira baiana. E a imprensa que as anuncia entrega, involuntariamente, um documento precioso sobre o olhar que carregava: «Teremos também outra ocasião de apreciar a música bárbara e primitiva que acompanha a luta-dança, tirada de instrumentos rústicos que se assemelham a um arco indígena e se chamam berimbaus.»

Bárbara, primitiva, rústica. O vocabulário exotizante diz tudo. A par dos passos dançados e das acrobacias, o berimbau era «a outra atração desta capoeira baiana». A sua função, na economia do espetáculo, era precisa: atestar «reminiscências africanas ainda vivas em solo brasileiro». «O urucungo era de outra idade. Vê-lo e ouvi-lo mergulhava-nos num universo exótico, exterior ao mundo conhecido. A mudança de cenário era total, pela sonoridade particular do instrumento, que apontava para a Bahia e, mais longe ainda, para tempos ancestrais, antes do advento da ‹civilização› moderna.» O instrumento operava como sinal de ancestralidade, antes de operar como música.

O que o argumento não diz

Uma precisão impõe-se, pois o argumento está exposto a uma leitura errada. Não incide sobre a antiguidade do instrumento. O urucungo está atestado no Brasil de há muito, e a sua origem africana não está em disputa. Incide sobre a associação obrigatória de instrumento e jogo, essa regra não escrita que sustenta não haver capoeira sem berimbau. É essa regra, e só ela, que pode ser datada: a capoeiragem carioca, a dos campeonatos de 1905 e 1913, de Cyriaco, de Sinhôzinho, jogava-se sem ele, e safava-se perfeitamente.

A figura de Sinhôzinho concentra toda a ambivalência do momento: «o mestre castigava o uso do berimbau, um meio de diversão para evadir a realidade do combate», dominando-o «quase como ninguém». Para a tradição carioca, o instrumento era uma questão de escolha estética. Não da essência do jogo.

O imemorial tem uma data

O mecanismo em ação tem um nome: folclorização. A capoeira baiana «representava um rasto do passado preservado no coração da modernidade. Tornava-se tanto mais bela quanto, para muitos, apontava para outra cultura, outra era, cujos contornos não sabiam verdadeiramente desenhar.» Tudo está nesta última frase: o objeto folclorizado é valorizado pelo passado que evoca, tanto mais prestigioso quanto mais vago, e não pelo presente que pratica. O berimbau era o operador sonoro desta folclorização: cada nota certificava a ancestralidade do espetáculo.

Donde a lição de método, que vale muito para lá do Brasil. A pergunta «o que é autêntico?» é indecidível, renova as querelas de essência. A pergunta operatória é: que versão se impôs, quando, através de que canais, e à custa de que outras?

O mayolè guadalupense e o danmyé martinicano esperam ainda que essa pergunta lhes seja aplicada com o mesmo rigor. Antes que os seus próprios «berimbaus» lhes sejam inventados.

FONTES

Coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): imprensa carioca dos anos 1950 sobre as digressões da capoeira baiana. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte III, cap. A.1.

NO CORPUS

→ A capoeira do Rio existiu. Depois foi apagada.

→ A capoeira não foi «inventada», foi reescrita, uma e outra vez

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O berimbau: uma «tradição imemorial» mais recente do que pensamos. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 15. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-berimbau-uma-tradicao-imemorial-mais-recente-do-que-pensamos [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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