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HISTÓRIA · TOURISM

Mercado Modelo: será a capoeira «turística» uma traição?

4 MIN DE LEITURA

Em Salvador, a capoeira mais espetacular do Brasil é também a mais criticada: acrobacias para fotógrafos, folclore à venda. As fontes invertem a acusação, e fornecem, de passagem, o critério para julgar toda a patrimonialização por vir

POR QUE ESTE ARTIGO

O processo de traição será rejulgado para cada prática da família, já o é para o danmyé, sê-lo-á para o mayolè. Este artigo substitui o falso dilema autenticidade/espetáculo por um critério verificável: a sobrevivência da estrutura profunda do jogo dentro da forma espetacular.

A acusação

Em toda a cultura patrimonializada há um lugar que os puristas designam como o cúmulo da traição. Para a capoeira, esse lugar tem uma morada: o Mercado Modelo de Salvador, onde a forma mais espetacular do jogo é executada diariamente para os turistas.

O processo tem a sua história. Já nos anos 1960, os jornalistas denunciavam «o domínio do turismo e os seus corolários financeiros sobre a capoeira, transformando a capoeira num espetáculo para turistas». As inversões aéreas, julgadas «estranhas à luta nacional», concentravam já as censuras. Meio século mais tarde, a acusação não mudou: «a capoeira do Mercado Modelo em Salvador, a forma mais espetacular do jogo no Brasil, é a mais criticada». Os visitantes assistem às demonstrações, participam, fotografam-se «ao lado destes dançarinos baianos cuja destreza na capoeira não tem igual no mundo».

Releia-se esta última frase. Vem das próprias fontes, e contém já todo o paradoxo: os praticantes acusados de trair o jogo são simultaneamente descritos como os seus virtuosos de nível mundial. Três motivos de acusação: comercialização, folclorização, traição da essência guerreira. E uma premissa nunca questionada: a capoeira autêntica está noutro lugar, nas academias sérias, nas rodas de rua, num passado preservado.

O veredito dos arquivos

O veredito histórico cai, e é definitivo para o processo: «Esta capoeira, por vezes depreciada, não é outra senão a expressão paroxística da capoeira promovida a partir dos anos 1940 pelos mestres baianos e pelo Serviço de Turismo. Assim, entre os capoeiristas acrobatas do Mercado Modelo e os velhos mestres da capoeira, desenha-se uma continuidade e não uma rutura.»

Os factos recordados: a capoeira folclórica baiana foi elaborada nos anos 1930–40 pelos mestres e intelectuais, e difundida nomeadamente pelo Serviço de Turismo da Bahia, livros, filmes, espetáculos, digressões. Por outras palavras: o espetáculo não corrompeu de fora uma capoeira baiana anteriormente pura. Foi um dos seus motores de difusão desde o início. Os «dançarinos» do Mercado Modelo não desviaram a herança dos mestres. Executam-na, elevada ao seu ponto de incandescência. Acusar o Mercado Modelo de trair a capoeira baiana é reprová-lo por ser exatamente aquilo que a capoeira baiana se propôs tornar-se.

O espetacular estava na estrutura

O argumento técnico vai ainda mais longe. O espetacular, na capoeira, não é um verniz. O desequilíbrio positivo, virar-se do avesso, alçar voo, roçar a queda para atingir «a impossível e perigosa ascensão ao céu», é «um dos fundamentos estruturais da capoeira, uma das razões do seu brilho internacional, um modo privilegiado de entrada na atividade e uma porta de acesso aos outros aspetos do jogo». O duelo de acrobacias é uma modalidade prevista pela lógica interna do jogo. Não a sua degenerescência. Reprovar aos jogadores do Mercado Modelo as suas inversões aéreas é, em termos estritos, reprovar à capoeira uma das suas cinco componentes.

Um critério para o futuro

A lição excede Salvador. Para cada prática da família das artes de combate negras, a questão do espetáculo será rejulgada, já o é para o danmyé reabilitado, sê-lo-á para o mayolè se for salvo. E a armadilha será a cada vez a mesma: a oposição autenticidade/espetáculo, que ordena uma escolha entre um passado puro e um presente vendido. Essa oposição é indecidível. Reconduz as querelas de essência.

O critério operatório está noutro lugar: sobrevive a estrutura ludomotora profunda, os cinco polos, os princípios paradoxais, dentro da forma espetacular? Onde sobrevive, o espetáculo é uma modalidade da tradição. Onde morre, o espetáculo é apenas o seu cenário. No Mercado Modelo, sobrevive. É por isso que estes «dançarinos» permanecem, tecnicamente, sem igual no mundo.

FONTES

Farias, R. da C. & Goellner, S. V., «A capoeira do Mercado Modelo de Salvador», Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 21, 2, 2007. Coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): imprensa dos anos 1960 sobre o turismo e a capoeira. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Abertura, secção A.2.

NO CORPUS

→ Vencer caindo, tocar sem tocar

→ A capoeira do Rio existiu. Depois foi apagada.

→ O jogo livre e a sequência codificada

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Mercado Modelo: será a capoeira «turística» uma traição?. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 20. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/mercado-modelo-sera-a-capoeira-turistica-uma-traicao [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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