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HISTÓRIA · FIGURAS

«A melhor capoeira do Brasil» era um professor de jiu-jitsu

6 MIN DE LEITURA

Mario Aleixo aprendeu jiu-jitsu com Sakuzo Miura, o vencido de 1.º de maio, depois com o Conde Koma, o mestre dos irmãos Gracie. Abriu a primeira academia paga de capoeiragem, inventou um golpe com o nome de uma malta, e acabou por opor a praia aos «salões suaves e magicamente iluminados»

POR QUE ESTE ARTIGO

Aleixo é o elo que toda a genealogia esquece: condiscípulo dos Gracie através do seu mestre comum, herdeiro direto de Miura, colecionador dos golpes esquecidos da capoeiragem. A sua trajetória reúne num só homem as duas linhagens, japonesa e brasileira, que a história relata como inimigas.

Uma orquestra de um só homem do corpo

O inventário das suas funções dá vertigens. Capoeira. Treinador de clubes de futebol, incluindo o Fluminense F.C. Professor de ginástica sueca. Professor de jiu-jitsu. Mestre de esgrima de baioneta e de sabre. Educador físico nos colégios. Instrutor de combate na Escola de Sargentos de Infantaria e na Escola da Guarda Civil. Mario Aleixo foi «uma figura incontornável do desporto e da capoeiragem durante as primeiras décadas do século XX no Rio de Janeiro».

No fim dos anos 1920, para muitos, era «o melhor capoeira do Brasil», o título é da imprensa, e é o próprio George Gracie quem assim o designa em 1931, prometendo vencê-lo. E foi «sem dúvida o primeiro a dar aulas pagas de capoeiragem no seio de uma academia oficial reconhecida como tal», inaugurada perante a imprensa na semana de 16 de agosto de 1920. A primeira academia paga da história da disciplina.

O paradoxo fundador: aluno de Miura

De onde vinha a sua ciência? Do inimigo hereditário, no sentido literal. O seu primeiro professor de jiu-jitsu foi Sakuzo Miura, o «Sada Miako» vencido por Cyriaco. Aleixo «dizia ter passado várias noites a combater ao seu lado e a trocar impressões sobre o tema da defesa pessoal». Continuou a sua formação com o Conde Koma, chegado ao Brasil em 1915, faixa preta sexto dan do Kodokan, o homem que ensinou jiu-jitsu a Carlos, Hélio e George Gracie, «os pais fundadores do jiu-jitsu brasileiro contemporâneo».

Meça-se o que isto significa: o melhor capoeira do Brasil e os irmãos Gracie tiveram o mesmo mestre. As duas linhagens que os anos 1930 opoririam numa «guerra fratricida» saem da mesma sala. E foi a vitória de Cyriaco que fez bascular Aleixo. Professor de jiu-jitsu primeiro, tomou consciência nessa noite da eficácia real do jogo brasileiro, e pôs-se a «colecionar os golpes esquecidos da capoeiragem, em silêncio, sem que ninguém o soubesse».

O «jiu-jitsu brasileirizado»

Já em 1914, a imprensa apresenta o seu «novo sistema», fundado na «aliança entre o Japão e o Brasil»: «Ficou provado com esta experiência [1.º de maio de 1909] que o jogo dos nossos ‹capoeiras› era incontestavelmente superior ao ‹jiu-jitsu› […] Mario Aleixo, retirando de cada um dos jogos o que tinha de mais proveitoso e fazendo o ‹jiu-jitsu brasileirizado›, que já conhece o sucesso.»

O seu diagnóstico técnico, dado em 1921, é de uma lucidez que a querela dos puristas nunca atingiria: «Os golpes do velho jogo nacional desdobravam-se no combate em terreno aberto. Como era um ataque fechado, combate próximo, era-se forçado a adotar outros meios de defesa.» A capoeiragem reina à distância; o jiu-jitsu, ao contacto. Da coleção dos golpes esquecidos acrescentou ao seu sistema a cabeçada, as rasteiras (rasteira, banda), a tesoura, a baiana, o pontapé médio. E inventou um, que batizou «guayamú», em homenagem a uma das mais famosas maltas do Rio. Um codificador a prestar homenagem aos bandos de rua na sua nomenclatura: toda a ambivalência da transmissão cabe nessa palavra.

A praia contra os salões

No início dos anos 1930, perante os Gracie, Aleixo opera um regresso às fontes que é também uma declaração de guerra cultural. Contra os palácios: «É por isso que discordo das competições em salões, ringues, etc. A capoeira exige terreno livre e… combater a sério. A capoeiragem não se presta a fantasias, como o jiu-jitsu (jogo japonês) que prepara o homem para percorrer o mundo ganhando somas em demonstrações, em palácios, em salões suaves e magicamente iluminados […] A capoeiragem não permite nem exibicionismo nem ‹mise-en-scène›.»

Pela saúde: «O capoeira não é um vagabundo nem um alcoólico (como erroneamente se poderia supor), mas um indivíduo que cuida do seu corpo e da sua saúde.» Ao ar livre, de tronco nu «como os pescadores», amadorismo, o esforço pelo esforço: a tese lê nisso o eco das teorias higienistas e do método natural de Georges Hébert. O aluno de Miura acabou como defensor da natureza contra o dinheiro, enquanto os alunos do seu condiscípulo Koma construíam, nos salões iluminados, o império que levaria o nome que Cadaval forjara: jiu-jitsu brasileiro.

FONTES

Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): «O ‹jiu-jitsu› combinado com o ‹jogo da capoeira›», A Noticia, 14–15 set. 1914; J. A., «A Arte da defesa pessoal», Revista da Semana, 18 jun. 1921; «Jiu-jitsu versus capoeiragem. Vencerei a maior capoeira do Brasil, disse-nos George Gracie», A Noite, 30 nov. 1931; e imprensa 1909–1921. Hébert, G., Le sport contre l'éducation physique, 1925. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.3.

NO CORPUS

→ A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial

→ O primeiro «jiu-jitsu brasileiro» data de 1912, e nada tem a ver com os Gracie

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. «A melhor capoeira do Brasil» era um professor de jiu-jitsu. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 34. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-melhor-capoeira-do-brasil-era-um-professor-de-jiu-jitsu [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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