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HISTÓRIA · IDEAS

O candidato ao Nobel que reescreveu os bandos do Rio

6 MIN DE LEITURA

Coelho Netto, mais de cem obras, presidência da Academia Brasileira de Letras, candidatura ao Nobel de 1932, consagrou a sua pena a transformar as maltas em sociedades de cavalheiros. Ao ponto de propor, já em 1910, uma lei tornando a capoeiragem obrigatória nos quartéis

POR QUE ESTE ARTIGO

Depois de Murat, o segundo autor do mito. O seu procedimento não é a invenção mas o retoque: marginalizar a violência, enobrecer as origens, moralizar os motivos. E a tese identifica a sua provável fonte de inspiração, o campeonato de 1905, de que a sua descrição das maltas é o decalque.

Um projeto de lei esquecido

Comece-se pela revelação mais espantosa do seu artigo de 1923, «O nosso jogo»: «Em 1910, Germano Haslocher, Luiz Murat e quem escreve estas linhas pensaram em enviar um projeto de lei à Câmara dos Deputados tornando obrigatório o ensino da capoeiragem nos institutos oficiais e nos nossos quartéis.»

Releia-se a data: 1910. Vinte anos após o decreto de criminalização, três figuras da elite, dois deles académicos, projetam tornar a prática obrigatória nas instituições do Estado. O projeto de lei não deu em nada, mas a sua própria existência arruína o relato de uma capoeiragem unanimemente vilipendiada até aos anos 1930. O homem que escreve estas linhas não é qualquer um: Coelho Netto, mais de cem obras publicadas, cofundador da Academia Brasileira de Letras, seu presidente em 1926, candidato ao Prémio Nobel de Literatura em 1932.

Leões e chacais

O coração da sua empresa: expurgar o passado das maltas, e dos capangas, da sua violência, ainda viva na memória coletiva. O seu método cabe numa imagem: «Como os leões são sempre acompanhados de chacais, nas maltas de tantos homens valentes infiltravam-se assassinos cujo prazer sanguinário consistia em experimentar a faca nas barrigas dos seus vizinhos, estripando-os.»

Netto não nega a violência: marginaliza-a. Torna-se obra de alguns desviantes, os chacais, enquanto os chefes, esses leões, combatem como cavalheiros. E as guerrilhas dos bandos tornam-se duelos de honra. O veredito da tese é limpo: «Coelho Netto transformou por um duplo processo a violência desregrada em violência dominada e a expressão coletiva da primeira num duelo singular.» Ora «nenhuma fonte atesta combates organizados com duas filas de espectadores de cada lado. Duelos entre capoeiras tiveram de facto lugar, mas muitas vezes eram a sós e as armas entravam na dança, causando ferimentos graves».

De onde vinha a sua imagem das maltas? De um espetáculo

Aqui a análise torna-se perturbadora. Essa cena de um duelo aclamado por dois campos, que as fontes históricas desconhecem, Netto vira-a. No teatro. O campeonato de 1905–1906 abria exatamente assim: duas companhias na arena, dois homens que se destacam, um duelo de mãos nuas, as aclamações. O relato de A Federação descreve o que Netto descreveria: «Dois grupos divididos em campos opostos. De cada um destacava-se um membro que se aproximava do seu competidor balançando o corpo […] Cada rabo de saia bem aplicado, era uma onda de aplausos; cada rasteira que fazia cair o competidor, era uma ovação.»

«Sem dúvida Coelho Netto assistira no passado a esta representação. Pois a descrição dos combates das maltas que deu no seu artigo assemelhava-se, ao ponto da confusão, ao espetáculo dos capoeiras populares.» A história das maltas segundo Netto não era uma memória das ruas. Era uma memória do teatro, o espetáculo de 1905 retroprojetado sobre o século XIX. O mito não se limitou a reescrever o passado: substituiu-o pela sua encenação.

Sangue azul na roda

Uma última operação: enobrecer. Netto enumera os grandes homens que praticaram, «figuras eminentes da política, do ensino, do exército, da marinha», até «Juca Paranhos, que engrandeceu o título de Rio Branco», o visconde, presidente do Conselho, arquiteto da Lei do Ventre Livre de 1871. O efeito pretendido é explícito: «O capoeira amador podia agora inscrever os seus passos nos dos grandes homens da história nacional. A vergonha esbatia-se em favor de um orgulho patriótico; as portas estavam enfim abertas aos cavalheiros.»

E para coroar, um contraste: o boxe inglês. «Nós que possuímos os segredos de um dos exercícios mais ágeis e elegantes temos vergonha de o exibir […] Vamos aprender a dar socos, é um desporto elegante, porque se pratica com luvas, com rendimentos em dólares, e chama-se boxe, um nome inglês.» Marginalizar a violência, substituir as ruas pelo palco, enobrecer as fileiras, escarnecer do estrangeiro: em quatro gestos, um candidato ao Nobel dotara a capoeiragem de um passado apresentável. Restava apenas ensiná-la, e ele até escrevera o projeto de lei.

FONTES

Coelho Netto, «O nosso jogo», Jornal do Brasil, 28 de outubro de 1923; retomado em A.Z., «Gymnastica brasileira», A Noite, 5 de fevereiro de 1926; «A capoeiragem», A Federação, 8 de janeiro de 1906, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro). Soares, C. E. L., «A guarda negra», Textos do Brasil, 14, 2008. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. B.2.

NO CORPUS

→ Salvar a capoeira condenando os capoeiras

→ 1905: o campeonato de capoeira que a história apagou

→ A guarda negra da princesa

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O candidato ao Nobel que reescreveu os bandos do Rio. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 30. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-candidato-ao-nobel-que-reescreveu-os-bandos-do-rio [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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