Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · BRASIL
1905: o campeonato de capoeira que a história apagou
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Como pôde realizar-se, em 1905, um campeonato público de capoeiragem, quando a prática estava oficialmente proibida havia quinze anos
POR QUE ESTE ARTIGO
A história oficial afirma que, após a proibição de 1890, a capoeira desapareceu do espaço público até ao seu renascimento nos anos 1930. Os arquivos da imprensa contam outra coisa. Em dezembro de 1905, realizou-se no Rio de Janeiro um campeonato público de capoeiragem, anunciado nos jornais, assistido por grandes plateias e nunca interrompido pela polícia. Este facto, ignorado pela historiografia, obriga a reconsiderar a cronologia comummente aceite.
Um espetáculo que nunca deveria ter existido
Dezembro de 1905. Noite após noite, centenas de cariocas tomam os seus lugares sob a lona do campo de Marte. A imprensa anuncia o evento há dias. Os cronistas divertem-se com a originalidade do espetáculo. Famílias burguesas cruzam-se com um público popular atraído por bilhetes de preço módico. No programa, uma atração anunciada como novidade: um campeonato de ginástica nacional (capoeiragem).
À primeira vista, nada de excecional. E, no entanto, um pormenor transforma este espetáculo num enigma histórico. Há quinze anos que a capoeiragem está oficialmente proibida. Os artigos 402 a 404 do Decreto n.º 487 de 11 de outubro de 1890 preveem penas de prisão para os seus praticantes. É sobre esta base que se impôs progressivamente uma cronologia, tornada quase indiscutível: após a proibição, a capoeira teria desaparecido do espaço público, antes de renascer sob o impulso de Mestre Bimba nos anos 1930.
Como, nestas condições, pôde um campeonato público, anunciado nos jornais, realizado várias noites seguidas na capital federal, aberto a todos, decorrer sem provocar a mínima intervenção policial? Essa pergunta é o ponto de partida da investigação.
Os jornais contam uma história esquecida
Os arquivos da imprensa conservados na Biblioteca Nacional do Brasil permitem reconstituir o evento. A partir de dezembro de 1905, uma «grande e esplêndida companhia equestre, ginástica e acrobática» apresenta, todas as noites, um espetáculo cuja atração principal é um campeonato de capoeiragem. Os seis competidores são descritos como «valentes e intrépidos artistas do género».
O vocabulário merece precisão. Nesta época, a palavra capoeiragem designa a própria prática corporal, jogo, luta ou ginástica, ao passo que capoeira pode designar quer o praticante, quer, cada vez mais, uma categoria policial associada à desordem urbana. Esta distinção, essencial para a leitura dos arquivos, é examinada em pormenor noutro artigo deste corpus.
Os cronistas empregam também o termo valente. No Brasil republicano, designa homens célebres pela sua coragem física, muitas vezes oriundos das antigas maltas, os bandos de capoeiristas que tinham dominado as ruas do Rio no século XIX. Os célebres bandos Nagôas e Guayamús tinham no entanto sido desmantelados após as campanhas de repressão lançadas a partir de 1890. Ver estes homens tornarem-se as estrelas de um espetáculo pago surpreende, por isso, os próprios jornalistas. A capoeiragem, ontem assunto das ruas, entra agora num espaço de entretenimento.
O que este campeonato muda
O interesse do episódio não reside apenas no seu espetáculo. Coloca um problema histórico. Se a proibição tivesse de facto expulsado a prática do espaço público, um campeonato realizado várias noites seguidas na capital deveria ter desencadeado detenções. Nenhuma fonte policial ou de imprensa menciona qualquer uma.
Esse silêncio não é trivial. Obriga-nos a distinguir duas realidades que a historiografia muitas vezes confundiu: a existência de uma lei e a sua aplicação efetiva. A presença simultânea de uma proibição penal e de uma prática pública não significa que a lei de 1890 não existisse. Mostra apenas que a sua aplicação foi mais complexa do que a narrativa tradicional admite.
Porque é que ninguém tinha reparado?
A resposta reside provavelmente menos no evento em si do que nas fontes que os historiadores utilizaram. Durante várias décadas, a investigação sobre a capoeira assentou principalmente em arquivos policiais e judiciais. Estes documentos são excecionalmente ricos para saber quem foi detido, os seus ofícios, os seus bairros, ou as formas de violência perseguidas pelas autoridades. Mas comportam um limite estrutural. Só conservam aquilo que a polícia persegue. Uma reunião tolerada, um espetáculo autorizado, uma prática momentaneamente aceite não deixam, por definição, qualquer rasto neles.
Os arquivos da imprensa oferecem outro ponto de vista. Registam o que os jornalistas veem, o que as plateias assistem, o que faz acontecimento na cidade. Confrontando-os com os arquivos policiais, aparece uma realidade mais matizada: enquanto certos capoeiras eram detidos, a capoeiragem podia, em certas circunstâncias, ser exibida, aplaudida e comercializada.
Uma anomalia que abre a narrativa
O campeonato de dezembro de 1905 não basta, por si só, para escrever uma nova história da capoeira. Constitui, porém, aquilo a que os epistemólogos da ciência chamam uma anomalia: um facto solidamente estabelecido que o modelo dominante tem dificuldade em explicar.
A questão deixa então de ser saber se a capoeiragem estava proibida, os estatutos atestam-no, para passar a ser como uma prática oficialmente proscrita pôde continuar a existir publicamente, por vezes sob o olhar benevolente das autoridades. É essa contradição que importa agora explicar.
FONTES
Arquivos de imprensa, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): A Noticia, 8–9 dez. 1905; Gazeta de Noticias, 9 dez. 1905; A Federação, 8 jan. 1906; Revista da Semana, 17 dez. 1905; Correio da Manhã, jan. 1913. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento em História, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.1.
NO CORPUS
→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. 1905: o campeonato de capoeira que a história apagou. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 01. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/1905-o-campeonato-de-capoeira-que-a-historia-apagou [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.