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EPISTEMOLOGIA · MÉTODO

A proibição que não foi

5 MIN DE LEITURA

«A capoeira foi proibida de 1890 a 1937.» A frase está por toda a parte. Assenta num mal-entendido, e um século de erudição construiu a sua cronologia sobre o vocabulário da polícia

POR QUE ESTE ARTIGO

Como pôde um século de investigação enganar-se de boa-fé? Confundindo o ponto de vista da polícia com a totalidade da realidade. Este artigo desmonta o viés de fonte que produziu o consenso dominante, e estabelece a distinção que rege a leitura de todo o corpus: os capoeiras não são a capoeiragem.

Uma frase que todos repetem

Abra quase qualquer obra sobre a história da capoeira. Lerá alguma variante disto: «Os poderes públicos tomaram uma posição clara e precoce contra a capoeira ao proscrevê-la em 1890. Esta proibição, que durou até 1937, foi acompanhada de uma verdadeira caça aos capoeiristas» (2009). Ou ainda: «A prática da capoeira foi proibida de 1890 a 1937» (2018). De estudo em estudo, a fórmula é transmitida, citada, consolidada. Tornou-se o alicerce cronológico da disciplina.

E, no entanto: um campeonato público de capoeiragem realiza-se em 1905. Um combate legal e triunfante em 1909. Imprimem-se manuais. Aparecem anúncios. Onde está o erro?

Não está nos factos. Está nas fontes.

O que a polícia vê, e o que não pode ver

Durante décadas, os estudos sobre a capoeiragem assentaram sobretudo em arquivos policiais e judiciais: motivos de detenção, condenações, a idade, o ofício e a origem dos detidos. Este material é precioso. Restituiu à história populações inteiras que o registo oficial ignorava. Mas tem um limite estrutural: a polícia só arquiva aquilo que persegue.

Nestas coleções, só aparece a face criminal da prática, agressões à faca, à navalha, ao revólver; mortes e ferimentos. Tudo o que se desenrola legalmente, publicamente, por vezes sob a própria supervisão das autoridades, não deixa aí qualquer rasto. Tais arquivos desenham necessariamente uma prática violenta e clandestina, qualquer que tenha sido a sua realidade global.

Desse facto documental à conclusão de que toda a forma lúdica do jogo desaparecera durante mais de quarenta anos, havia apenas um passo. A erudição deu-o, poupando-se a uma pergunta elementar: o que veríamos se mudássemos de arquivos?

O que dizem os jornais

Outro corpus existia. Imenso, e em larga medida inexplorado. A imprensa de massa que se desenvolve e democratiza no fim do século XIX oferece um observatório sem igual da cultura popular no Brasil republicano: O Paiz (fundado em 1884), Jornal do Brasil (1891), Revista da Semana (1900), Correio da Manhã (1901), A Noite (1911), Diário Carioca (1928). Coleções inteiras dormem na Biblioteca Nacional do Brasil.

O que contêm? Um campeonato de capoeiragem em 1905, coberto na primeira página do próprio órgão do partido republicano. Um combate público em 1909, vencido por um capoeira carregado em triunfo. Manuais técnicos publicados e reeditados, o de O.D.C. já em 1885, reeditado em 1907; o de Burlamaqui em 1928. Anúncios comerciais: «Combate do jogo nacional (Capoeira)». Capoeiras «inspecionados pela polícia» no circo Spinelli em 1913, e nunca detidos.

Cada peça, isoladamente, poderia passar por exceção. A sua acumulação desenha um facto social maciço: durante a «proibição», a capoeiragem era exibida, vendida, ensinada e impressa.

A palavra que tudo baralhou

Resta manter os dois corpora juntos: a repressão, bem real, registada pelos arquivos policiais, e a vida pública, tão real quanto ela, registada pelos jornais. A solução reside num deslize de sentido.

Na viragem do século, a palavra capoeira deixa de designar especificamente o praticante de capoeiragem. Passa a nomear o vagabundo, o delinquente, o criminoso, por vezes indivíduos sem a mínima ligação a qualquer atividade ilegal. Torna-se um insulto. O.D.C. notara-o já em 1885: «o melhor insulto para irritar um jovem é chamar-lhe, Capoeira!» O historiador Marcos Luiz Bretas descreveu o que a categoria policial arrastava nas suas redes: «Desfilavam os cegos, os coxos, os escrofulosos, todos reunidos sob o manto igualitário e discriminante dos capoeiras.»

A conclusão impõe-se então: capoeiras e capoeiragem não são sinónimos. A repressão de 1890 visava os capoeiras, uma categoria policial de indesejáveis urbanos que podia incluir homens que nunca tinham executado um único movimento do jogo. Não impediu a capoeiragem, a prática corporal, de ter lugar em teatros, campeonatos e colunas de jornal. Ao confundir a palavra da polícia com o nome da prática, a historiografia transformou uma política de controlo social numa extinção cultural.

Mude de fontes, mude de história

Karl Popper alertava contra um historicismo que «confunde interpretações com teorias». Foi exatamente o que aqui aconteceu: a interpretação policial da palavra capoeira foi tomada por uma teoria da história da capoeiragem.

A correção não consiste em reler os mesmos documentos de outra maneira. Consiste em mudar a base documental, e deixar que os novos documentos estilhacem o velho quadro.

O mesmo trabalho está por fazer noutros lugares. Do mayolè guadalupense ao danmyé martinicano, as outras artes de combate negras esperam ainda que alguém abra os seus arquivos.

FONTES

Arquivos de imprensa, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): coleções de O Paiz, Jornal do Brasil, Revista da Semana, Correio da Manhã, A Noite, Diário Carioca; «Circo Spinelli», Correio da Manhã, 20–23 jan. 1913. O.D.C., O Guia do Capoeira ou Gymnastica Brazileira, Rio de Janeiro, Livraria Nacional, 1907. Bretas, M. L., Estudos Afro-Asiáticos, 20, 1991. Popper, K., A Miséria do Historicismo. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento em História, Université des Antilles, 2020, Introdução geral.

NO CORPUS

→ 1905: o campeonato de capoeira que a história apagou

→ A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. A proibição que não foi. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 03. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-proibicao-que-nao-foi [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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