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A roda antes da roda: uma descrição de 1916
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Rodas «ombro a ombro», palmas, cânticos em coro, um chefe ao meio que desafia «num gesto elegante e cavalheiresco»: a descrição do batuque por Raphael Lothus é o mais antigo retrato detalhado da estrutura da roda, sem um único instrumento musical
POR QUE ESTE ARTIGO
Um documento, uma história: o artigo de A Noite de 9 de janeiro de 1916 contém, sob a pena de um mestre, a descrição minuciosa de uma roda de combate africana no Rio, regras, papéis, hierarquia, a formação dos novatos. É um arquivo da maior importância para a genealogia da roda e para toda a família das artes de combate negras.
A cena
Deixemos o documento falar: «Entre nós, outrora, mal começava uma festa religiosa ou civil, logo se formavam as rodas fortes, no batuque duro ou mole, consoante fossem compostas de valentes ou de carrapetas. Era num canto da igreja ou da praça; rodas ombro a ombro formavam-se, todas firmes e impacientes […] batiam palmas e entoavam cânticos, em coro, numa onomatopeia. O chefe ia ao meio da roda e, após dar algumas voltas, dirigia-se a um dos que estavam na roda, num gesto elegante e cavalheiresco de desafio.»
A constatação da tese cai: «A roda, associada aos cantos e às palmas, é semelhante à roda atual da capoeira; só faltam os instrumentos musicais.» Está tudo aí, a roda fechada ombro a ombro, a música dos corpos, o líder no centro, o desafio ritualizado, meio século antes de a roda baiana com o berimbau se tornar a imagem mundial do jogo. A estrutura precede a orquestra.
As regras do jogo
O resto do documento descreve a mecânica do duelo: «O desafiado […] juntava bem os pés, depois inclinava o busto para trás, erguia um pouco o rosto, e nesta atitude aguardava em defesa o golpe que, com a violência de um relâmpago, lhe era aplicado, dos joelhos para baixo. Suportada a provação, o herói substituía-se ao chefe; e por sua vez ia aplicar o mesmo golpe a outro. E assim se iam sucedendo até haver um vencido.»
Estas linhas registam: um ataque à vez, nunca simultâneo; um alvo regulado, dos joelhos para baixo; um objetivo, o desequilíbrio; uma rotação de papéis, o desafiado vitorioso torna-se o desafiante; um desfecho, até ao vencido. A estrita alternância atacante/defensor, o ataque suportado nos apoios, a vitória pela queda: os princípios estruturantes que atravessam a família das artes de combate negras, até ao mayolè guadalupense e aos seus combates de desafio, estão aí registados, num jornal do Rio, em 1916.
Uma escola de capoeiras
O documento tem um alcance sociológico que o próprio Lothus explicita: valentes e carrapetas. O primeiro termo designava os homens feitos, foras-da-lei, corajosos e combativos; o segundo, os aprendizes, os jovens novatos das maltas urbanas. «É pois na roda do batuque que se formavam os novos adeptos da capoeiragem. A observação atenta e a imersão no coração da complexidade do jogo serviam de ferramentas para transformar os jovens iniciados.» O batuque era a escola; a roda, a sala de aula; o desafio do chefe, a lição.
Um testemunho submetido à crítica
Todas as precauções de método se impõem: Lothus descreve «outrora», uma memória, talvez embelezada, de um homem que advoga uma causa. Mas três elementos pesam a favor do documento: o autor é um praticante formado nas ruas, não um folclorista; a sua descrição transborda de pormenores técnicos e lexicais (valentes, carrapetas, duro/mole) que se cruzam com fontes independentes; e não tinha interesse em inventar uma genealogia africana que, em 1916, mais prejudicava a sua causa perante a opinião.
A roda, cantada e batida a palmas, com o seu chefe, os seus novatos e o seu duelo regulado, existia no Rio ao alcance da memória viva. Quando a roda com o berimbau chegar da Bahia nos anos 1950, não criará a forma. Voltará a mobiliá-la.
FONTES
Lothus, R., «O que é a capoeiragem. Rehabilite-se esse jogo nacional», A Noite, Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1916 (citações integrais); Correio Mercantil, 11 de janeiro de 1856, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro). Soares, C. E. L., «‹A negregada instituição›» (sobre valentes e carrapetas). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.4.
NO CORPUS
→ O cavaleiro-andante da capoeiragem era branco
→ O berimbau: uma «tradição imemorial» mais recente do que pensamos
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. A roda antes da roda: uma descrição de 1916. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 36. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-roda-antes-da-roda-uma-descricao-de-1916 [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.