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HISTÓRIA · FIGURAS

O cavaleiro-andante da capoeiragem era branco

5 MIN DE LEITURA

Raphael Lothus, delinquente das ruas, professor dos bairros ricos, teórico das origens africanas do jogo, morre em 1917 após matar um homem e virar a arma contra si. Toda a sua vida refuta as duas narrativas que disputam a história da capoeira

POR QUE ESTE ARTIGO

Lothus é um caso-limite que testa todas as grelhas: um branco pobre das maltas, perito na faca e no rabo de arraia, defensor apaixonado da cultura negra escravizada, morto criminoso. Nem os arquivos policiais nem a narrativa racial o conseguem conter. É exatamente por isso que deve ser contado.

Um retrato escrito no dia seguinte a um drama

«Raphael Lothus era um tipo original. Alto, nervoso, forte, vigorosamente forte e mais ainda: de uma agilidade felina e conhecedor de um jogo ainda mais terrível do que o ‹jiu-jitsu›, o jogo do capoeira, do qual era professor.» Esta descrição, uma das únicas que sobrevivem do mestre, aparece em A Noite de 3 de setembro de 1917, sob o título «Cavalleiro andante da capoeiragem»: o cavaleiro-andante da capoeiragem. É escrita por ocasião da sua morte. Na véspera, após uma discussão, Raphael Pereira da Silva, chamado Raphael Lothus, matou a tiro um condutor de elétrico, e depois virou a arma contra si mesmo.

O outro lado das maltas

A sua trajetória perturba a narrativa recebida desde o início: Lothus não era nem militar nem burguês, nem negro. «Era um homem do povo, antigo agente industrial, reconvertido em professor de educação física nos meios favorecidos da cidade.» Jovem, foi «regularmente detido por vagabundagem e atos de delinquência». «Representava o outro lado desses bandos armados, o composto por brancos pobres, de origem brasileira ou estrangeira», que partilhavam com os seus pares crioulos e africanos «a mesma miséria e os mesmos espaços» (Soares).

Foi nas ruas, em contacto com os mais velhos, que aprendeu as subtilezas da luta nacional, «perito tanto no manejo da faca como na execução do rabo de arraia». Depois a ascensão: o delinquente tornou-se Raphael Lothus, professor de ginástica no Colégio de Nitcheroy, fino conhecedor das correntes gímnicas europeias e da filosofia grega, respeitado por todos. Sem nunca despir a sua violência: continuou a frequentar as esquadras por atos de brutalidade. Por fim, matou, e matou-se. «A vida e a morte de Raphael Lothus ilustram o caminho tortuoso dos capoeiras da Primeira República, impossível de reconstituir na sua complexidade só a partir das fontes policiais e judiciais.»

O branco que defendeu as danças dos negros

Pois o seu principal legado é teórico, e espantoso na sua modernidade. No seu artigo de 1916, «O que é a capoeiragem. Rehabilite-se esse jogo nacional», Lothus sustenta um discurso «inédito no meio dos mestres, e próximo das conceções contemporâneas»: a capoeiragem é «o jogo das florestas de África transportado para o Brasil», enraizado em duas danças africanas praticadas em solo brasileiro, o batuque e a mandinga. E ergue-se em defesa: o descrédito lançado sobre estas danças, acusadas de magia negra e feitiçaria, é uma calúnia, «eram apenas danças executadas em honra dos deuses». Lothus «reabilitou a cultura africana, refutou as acusações falaciosas e devolveu valor cultural a estas danças».

Detenhamo-nos na imagem: em 1916, um antigo rufia branco das maltas advoga na imprensa pela dignidade dos cultos africanos, enquanto os académicos Murat e Netto, defensores da mesma capoeiragem, separam entre bons e maus negros. A narrativa negro-contra-branco não sabe onde arquivar Lothus. Nem a narrativa de uma capoeiragem envergonhada das suas origens africanas: o seu mais ardente genealogista africano foi este branco pobre.

Um homem que nenhum arquivo isolado contém

O caso Lothus não é uma curiosidade: é um argumento. Um só e mesmo homem foi delinquente notório, trabalhador honesto, teórico das origens, professor das elites, não sucessivamente, mas simultaneamente em camadas. Os «homens plurais» do campeonato de 1913 encontram nele a sua encarnação mais completa, até ao seu fim trágico que traz de volta de um golpe toda a violência que o seu sucesso parecia ter deixado para trás.

Nenhuma fonte isolada o poderia apreender: a polícia arquivou as suas brutalidades, a imprensa desportiva a sua perícia, a imprensa cultural a sua teoria, a crónica judicial a sua morte. Foi preciso cruzá-las todas para encontrar o homem. É a demonstração, por uma vida, do que a tese estabelece por método: a história da capoeiragem não se lê em nenhum arquivo isolado. O cavaleiro-andante bem mereceu esse serviço.

FONTES

«O tragico caso de hontem em Nitcheroy. Cavalleiro andante da capoeiragem», A Noite, 3 de setembro de 1917; Lothus, R., «O que é a capoeiragem. Rehabilite-se esse jogo nacional», A Noite, 9 de janeiro de 1916, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro). Soares, C. E. L., «‹A negregada instituição›: os capoeiras na Corte Imperial, 1850–1890». Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.4.

NO CORPUS

→ A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial

→ «Quem tinha medo da capoeira?»

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O cavaleiro-andante da capoeiragem era branco. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 35. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-cavaleiro-andante-da-capoeiragem-era-branco [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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