top of page

EPISTEMOLOGIA · RACE

«Quem tinha medo da capoeira?»

5 MIN DE LEITURA

Ler a história da capoeira como uma luta perpétua de negros contra brancos parece fazer justiça aos dominados. É o contrário: essa narrativa torna os factos ininteligíveis, e reproduz a estrutura do próprio discurso que diz combater

POR QUE ESTE ARTIGO

Este artigo fixa a exigência epistemológica de todo o campo: pensar as relações de poder raciais sem as transformar numa chave universal. Fazer justiça sem simplificar. Honrar sem essencializar. E fornece o teste que um dualismo simples nem sequer consegue formular.

Uma pergunta incómoda

A pergunta dá a este artigo o seu título, e foi um historiador brasileiro quem a colocou. Luiz Sergio Dias: «Quem tinha medo da capoeira? Ao fim e ao cabo, quem é que ela aterrorizava? Só os brancos, os grandes proprietários e os ricos burgueses? Pensamos que não. Basta recordar que muitos escravos negros sofreram agressões às mãos dos capoeiras, tal como homens livres pobres, libertos negros e outros. Então, quem tinha medo da capoeira?»

A pergunta é terrível para a narrativa dominante. Se as primeiras vítimas da violência dos capoeiras eram muitas vezes negros, escravizados, libertos, pobres, então a imagem de uma prática inteiramente erguida contra o opressor branco desmorona-se.

E outros factos resistem à mesma narrativa. Desde o Brasil imperial, os brancos, europeus e brasileiros, faziam parte integrante da capoeiragem e das maltas, esses bandos que se combatiam «pelo controlo dos espaços urbanos»: a linha da frente corria entre grupos rivais, não entre cores. E muitos capoeiras alugavam os seus serviços aos partidos políticos como capangas, homens de mão inseridos no jogo eleitoral dos poderosos, não erguidos contra ele. A verdadeira linha de fratura era social e política tanto quanto racial.

A ferramenta e a doutrina

Uma distinção protege o argumento de uma leitura errada. Escolher como quadro de análise as relações de poder entre as componentes de uma sociedade racializada durante séculos é perfeitamente legítimo. Indispensável, mesmo. «Transformá-la, porém, numa doutrina explicativa totalizante, não o é.» A fronteira corre entre a ferramenta de análise e a chave universal. A primeira ilumina; a segunda cega. Karl Popper nomeara o deslize: um historicismo que «confunde interpretações com teorias». Uma grelha de leitura, por mais fértil que seja, não se torna a lei da história.

Inverter não é superar

Vem então o argumento mais profundo, o que incide sobre o que o dualismo faz ao pensamento. «Pensar o espaço das Américas hoje em termos de uma oposição estrita entre negros e brancos é reproduzir o discurso colonial, fundado na diferenciação e inferiorização dos primeiros para justificar a sua escravização pelos segundos.» Pois a criação de um «Outro» diferente por natureza estava no coração da empresa esclavagista, «uma colonização do corpo pelo discurso do poder», escreve Michel de Certeau. O dualismo contemporâneo preserva a estrutura desse discurso, duas essências, dois campos, uma fronteira intransponível, e contenta-se com inverter os seus valores.

Ora: «o que há que recusar, mais do que a essencialização de um grupo ou de outro, é a própria existência de uma hierarquização das culturas, das ‹raças› ou dos grupos sociais. A inversão da escala de valores por vezes observada nas Antilhas ou no Brasil não é cientificamente admissível. Pois inverter não é superar.» Virar a hierarquia de cabeça para baixo é ainda mantê-la. A única vitória sobre o discurso colonial é sair da sua gramática.

Esta posição não é um parti pris teórico: pertence aos estudos pós-coloniais «não por ideologia, mas como resultado da nossa investigação», em recusa dos esquemas que «tendem a clivar os dois mundos, colonizadores/colonizados, numa relação de simples dominação/submissão» (Coquery-Vidrovitch). O próprio objeto o exige: a capoeira procede de uma tripla hibridação, entre áreas africanas em solo americano, com métodos europeus e asiáticos, entre os focos da Bahia e do Rio. «Todas as culturas se interpenetram; nenhuma é solitária e pura» (Said). Compreende-se a partir de uma «identidade-rizoma» (Glissant), não a partir de duas caixas.

O teste que o dualismo não consegue passar

Existe um facto que a narrativa negros-contra-brancos não consegue sequer enunciar sem se contradizer. No início dos anos 1980, a Senzala e o Olodum, fervorosos promotores da cultura negra, eram compostos maioritariamente por membros brancos das classes abastadas, ao passo que «os negros, conscientemente ou não, eram excluídos da capoeira, definida, no entanto, como uma das expressões mais autênticas da cultura brasileira originária de África».

Brancos a promover uma cultura negra da qual os negros são excluídos: tente-se formular esse paradoxo com dois campos. O dualismo falha. Uma análise das relações de poder entrelaçadas, raciais, sociais, culturais, consegue-o. O critério para escolher entre os dois quadros não é, portanto, moral. É descritivo: um dá conta dos factos, o outro não.

Tal é a exigência que o campo das artes de combate negras assume como sua: fazer justiça sem simplificar, honrar sem essencializar.

FONTES

Dias, L. S., Quem tem medo da capoeira? Rio de Janeiro, 1890–1904, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2001. Soares, C. E. L., Afro-Ásia, 21–22, 1998–1999. Popper, K., A Miséria do Historicismo. de Certeau, M., L'écriture de l'histoire, Gallimard, 2008. Coquery-Vidrovitch, C., Enjeux politiques de l'histoire coloniale, Agone, 2009. Said, E., Culture and Imperialism. Glissant, É., Poétique de la Relation, Gallimard, 1990. Frigerio, A., «Capoeira: de arte negra a esporte branco». Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Introdução geral e Parte III, cap. C.1.

NO CORPUS

→ «A escravidão não terá sobrevivido?»

→ Salvar a capoeira condenando os capoeiras

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. «Quem tinha medo da capoeira?». In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 16. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/quem-tinha-medo-da-capoeira [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

bottom of page