Black Combat Arts Institute.
NOTA CRÍTICA · N.º 15
A flexibilidade é uma virtude proibida
Sobre a crise da masculinidade, e a qualidade que só a capoeira ainda treina nos homens
Fala-se de uma crise da masculinidade, homens, ou alguns deles, inseguros de seu lugar, de sua função social, de como se relacionar com “o segundo sexo”. A referência a Simone de Beauvoir é apropriada: ela mostrou até que ponto as diferenças de gênero são construções sociais, e portanto arbitrárias. A flexibilidade, codificada como feminina, é silenciosamente abandonada pelos homens e mal treinada na maioria dos esportes de combate, que valorizam a rigidez, a massa, a força explosiva.
A capoeira é um dos poucos lugares onde se pede a um homem, sem constrangimento, que seja flexível, que dobre, que se inverta, que flua, que mova os quadris. O jogo não opõe força e flexibilidade; exige sua união. Jogar bem é ser, ao mesmo tempo, potente e fluido, uma combinação que o culto do corpo masculino rígido trata como contradição.
Há aqui um argumento silencioso sobre o que um corpo, e um homem, podem ser. A rigidez valorizada como masculina é também uma limitação, mecânica, quebradiça, fácil de ler. O corpo flexível é mais adaptável, mais surpreendente, mais vivo. Talvez parte da “crise” seja precisamente o empobrecimento daquilo que os homens têm permissão de ser com seus corpos. A capoeira recusa silenciosamente esse empobrecimento.
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NO CORPUS
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PALAVRAS-CHAVE
Masculinity · Suppleness · Gender · Body
COMO CITAR ESTA NOTA
MALO, Olivier. A flexibilidade é uma virtude proibida. In: Black Combat Arts Institute, Notas Críticas [online]. N.º 15. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/notas-pt/a-flexibilidade-e-uma-virtude-proibida [acesso em data].