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NOTA CRÍTICA · N.º 16

A capoeira para além do gênero

Sobre um jogo que dissolve as categorias pelas quais o mundo está brigando

No nosso mundo, a evolução dos costumes é dialética. A fluidez das identidades, pessoas que se definem fora das categorias preexistentes, colide de frente com uma reafirmação da permanência dos gêneros e de seu suposto substrato genético. Natureza contra cultura: o debate segue vivo, cada lado entrincheirado, hermético a qualquer troca real de ideias, resistente até a uma crioulização do pensamento.

A capoeira ocupa aí um lugar estranho. Suas qualidades decisivas, o timing, a malícia, a leitura do outro, a fluidez, o senso de ritmo, a coragem da queda, não têm sexo. Não são monopólio da massa nem da força bruta, as qualidades que as categorias costumam policiar. Um jogador pequeno, flexível e inteligente pode dominar um maior; o jogo não distribui a superioridade pelas linhas que a guerra cultural pressupõe.

Não é uma afirmação de que os corpos sejam idênticos, nem um slogan para qualquer dos campos. É uma constatação: a roda é um espaço onde as qualidades que importam atravessam as categorias pelas quais o mundo está brigando. Num universo social segregado, a capoeira propõe, silenciosamente, uma crioulização, uma mistura que as posições entrincheiradas recusam. O jogo não resolve o debate. Simplesmente joga num registro que o debate esqueceu que existe.

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PALAVRAS-CHAVE

Gender · Creolisation · Identity · Body

COMO CITAR ESTA NOTA

MALO, Olivier. A capoeira para além do gênero. In: Black Combat Arts Institute, Notas Críticas [online]. N.º 16. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/notas-pt/a-capoeira-para-alem-do-genero [acesso em data].

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