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HISTÓRIA · BRASIL

Revistados pela polícia, aplaudidos pela cidade

6 MIN DE LEITURA

Janeiro de 1913, Circo Spinelli: seis capoeiras negros, «mestres famosos» com cadastro completo, atuam todas as noites numa das grandes salas do Rio, antes de uma digressão norte-americana. A polícia inspeciona-os. Ninguém os prende

POR QUE ESTE ARTIGO

O segundo campeonato de capoeiragem da história ficou na sombra do primeiro. E, no entanto, diz mais: em 1905 um campeonato de capoeiragem era uma extravagância; em 1913 é um cartaz entre outros. Este artigo restitui o evento, os seis homens que o fizeram, e o que a sua trajetória revela do Brasil republicano.

Seis nomes no cartaz

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 1913. O Correio da Manhã dá conta do espetáculo da noite anterior: «Estreou ontem, no circo popular da rua Figueira de Mello, os combates de capoeiragem da companhia recentemente reunida para uma digressão pela América do Norte, da qual fazem parte Bexiga, Marinheiro, Moleque Olavo, Cannela Fina, Pequeno e Patricio, famosos mestres de capoeiragem.»

Leia-se devagar. Uma companhia de capoeiras. Reunida para uma digressão norte-americana. Apresentada como um conjunto de «famosos mestres». No seio do Circo Spinelli, um dos grandes recintos da capital. O artigo traz uma fotografia, os seis competidores posam. São negros. Correspondem exatamente à imagem que a palavra capoeira então carrega: homens de origem africana, de condição modesta, e, para vários deles, criminosos notórios. Tudo o que a narrativa clássica de uma capoeiragem perseguida até aos anos 1930 torna impensável está reunido neste cartaz.

Moleque Olavo, duas vidas num homem

O mais famoso dos seis era Olavo José Coutinho, chamado Moleque Olavo. O seu percurso merece que nos detenhamos, pois é a chave de tudo. A 16 de julho de 1911, dezoito meses antes do campeonato, armado com um revólver roubado a um empregado de loja, tentou assassinar um dos seus inimigos, João de Estiva, disparando duas vezes. Uma das balas alojou-se na cabeça de Nicolas Miselli, um menor de dezasseis anos que era testemunha involuntária do acerto de contas. O rapaz morreu no hospital da Misericórdia. Olavo foi detido, levado à Casa de Detenção, condenado. Não era um ato isolado: já em 1907, aos dezoito anos, ele e o seu bando agrediram dois indivíduos com cabeçadas e navalhas, os modos característicos das maltas.

E em janeiro de 1913, o mesmo homem está no cartaz do Circo Spinelli, rumo à América do Norte. Como manter as duas coisas juntas? A tese responde: estes capoeiras eram «homens plurais». Conforme as circunstâncias, as oportunidades oferecidas ou criadas, assumiam ora o papel de criminosos movidos pelo acerto de contas e pelo lucro, ora o de trabalhadores honestos respeitadores dos valores republicanos. Nem anjos do folclore nem feras das páginas de crime: homens que, dentro de um sistema económico, político e social relutante em integrá-los, encontravam maneiras de transcender a sua realidade quotidiana. Uma dessas maneiras chamava-se espetáculo desportivo.

Revistados, nunca detidos

Um pormenor do Correio da Manhã de 20 de janeiro concentra toda a situação legal do evento: os capoeiras do campeonato são «inspecionados pela polícia», revistados pela polícia. A polícia está lá. Sabe quem são estes homens; revista-os, verifica-os. E não detém ninguém. A competição anuncia-se sem disfarce: «Luta do jogo nacional (capoeira)», reza a publicidade, a palavra proscrita, impressa num jornal, para vender bilhetes. Vinte e três anos após o decreto de 1890, a «proibição» tomara esta forma: uma vigilância que enquadrava o espetáculo em vez de o impedir. A Epoca podia lançar, a 28 de janeiro, o título do «sensacional combate de capoeira», a sensação está na sala, já não no escândalo.

O que estes homens queriam

Um silêncio das fontes fala tanto como as suas palavras: nos recortes dedicados ao campeonato, a cor da pele dos competidores quase nunca é mencionada. Este silêncio não é uma omissão distraída. Os capoeiras de 1913 não aspiravam a ser percebidos como diferentes; não pediam espaços separados onde se exprimir livremente, mas acesso aos recintos que lhes tinham sido recusados. «Se um projeto político os animava, consistia em ser tratados em pé de igualdade», igualdade entendida, neste início do século XX, como a ausência de tratamento específico, pois o tratamento específico remetia então para uma diferença ‹natural› sempre mobilizada para excluir.

O paralelo com as Antilhas francesas ilumina a estratégia. Depois de 1848, «ao tempo da conquista da liberdade sucede o da busca da igualdade» (Dumont); o desporto era aí uma «busca de assimilação», a esperança, para os homens de cor, «de cruzar os limites da atribuição, homens a serem julgados pelas suas qualidades e não pela sua pigmentação». Julgar esta estratégia como uma renúncia à afirmação de uma identidade negra é cometer um anacronismo: na época, o discurso diferencialista era a arma de uma elite branca ansiosa por preservar os seus privilégios, e os que se recusavam a partilhar os espaços de jogo eram os desportistas brancos.

Da curiosidade à banalidade

Resta a mais fina medida que a comparação dos dois campeonatos permite. Em 1905–1906, a competição suscitara curiosidade, depois um entusiasmo sincero; era «a nota sensacional da semana», discutida em todos os círculos esclarecidos. Em 1913, o sucesso está lá, mas a atenção esmorece, os elogios rareiam. Não que o evento tenha falhado: tornara-se quase banal. Em sete anos, a capoeiragem-luta-nacional entrara na paisagem cultural do Rio, ao nível dos campeonatos de luta greco-romana.

Esta normalização fulminante não se explica só pelos campeonatos. Entre os dois, um sábado de maio de 1909, um carregador de café derrubou o instrutor de jiu-jitsu da Marinha no Pavilhão Internacional, o acontecimento mais importante da história da capoeiragem do século XX, que tornou a luta nacional uma evidência. Em 1913, só restava revistá-la à porta. E aplaudi-la.

FONTES

Arquivos de imprensa da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): «Circo Spinelli», Correio da Manhã, 20 jan. 1913 («Revistados pela policia»; «Luta do jogo nacional (capoeira)»); «No Spinelli. O campeonato de capoeiragem», Correio da Manhã, 23 jan. 1913; «Circo Spinelli. Sensacional luta de Capoeira», A Epoca, 28 jan. 1913; fotografia dos seis competidores. Dumont, J., L'amère patrie, Fayard, 2010. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.1.

NO CORPUS

→ 1905: o campeonato de capoeira que a história apagou

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Revistados pela polícia, aplaudidos pela cidade. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 23. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/revistados-pela-policia-aplaudidos-pela-cidade [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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