Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · FIGURAS
O homem que recusou o ringue, o quimono e o dinheiro
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Para enfrentar Géo Omori, o mestre Argemiro Feitósa colocou três condições: combater ao ar livre, sem traje japonês, sem cachê. Obteve quase tudo, o campo de São Bento, savates nos pés, um júri de jornalistas. E perdeu na mesma, a 13 de janeiro de 1929. As razões da sua derrota valem uma lição de sociologia do desporto
POR QUE ESTE ARTIGO
Feitósa é o anti-Vasques: o mestre respeitado que negoceia a igualdade de condições em nome da ética amadora. A sua derrota, apesar de condições quase justas, obriga a procurar as causas noutro lugar que não nas desculpas, e uma carta de leitor de 1929 já as encontrara.
O mestre de São Paulo
Nascido no Ceará, emigrado para São Paulo por volta de 1920, tendo passado pela Marinha antes de se tornar condutor de autocarro no serviço público, Argemiro Feitósa não era um lutador profissional. Mas era um mestre reconhecido: «ensinava capoeira a muitos alunos na capital paulista», e a imprensa desportiva consultava-o como perito, antes do combate de Vasques, cujo homem conhecia bem (tinham servido juntos na Marinha), depois dele, para analisar «os erros técnico-táticos» do vencido. No dia seguinte à derrota, desafiou Omori «para lavar a afronta feita à capoeiragem nacional». «Quer apenas demonstrar a superioridade da arma nacional tão desacreditada por Caetano Vasques.» E acalentava projetos de construtor: uma academia, e um livro sobre a capoeiragem, como Burlamaqui, no mesmo ano.
Três condições
Mas não a qualquer preço. Feitósa colocou três exigências, que são um documento sobre a lucidez tática e moral dos capoeiras. Uma: combater fora do Circo Queirolo, «num campo de futebol ou num espaço ao ar livre», para excluir «qualquer acordo prévio sobre o desfecho do combate com os organizadores», e porque «a plena eficácia da capoeiragem se exprimia num espaço sem qualquer entrave», longe das quatro cordas. O campo de futebol ecoava as propostas de Burlamaqui publicadas em 1928.
Duas: sem quimono. O Circo respondeu com um argumento de autoridade: «Sendo Géo Omori um jogador de jiu-jitsu, para se defender, será necessário que o seu adversário vista o quimono, para poder aplicar os golpes desta luta japonesa.» A resposta de Feitósa, irrespondível: «Cada um combate à sua maneira e não teria graça um bom capoeira brasileiro envergar um quimono, uma veste toda nipónica, pelo simples prazer de oferecer ao adversário um meio fácil de o agarrar.» Ganhou a sua causa: cada um no seu trajo. Três: sem cachê para os lutadores, a ética do desporto amador, em resposta direta ao processo de venalidade feito a Vasques.
Enquanto a organização se acertava, uma demonstração na Guarda Civica, início de dezembro de 1928, perante o chefe e instrutor da instituição, selou a sua reputação: «Todas as pessoas presentes ficaram impressionadas com a destreza do capoeira patriota.» A imprensa já via nele «o novo Cyriaco», vinte anos depois, a proeza do Moleque Cyriaco contra o «gigantesco lutador japonês» servia ainda de bitola nacional.
13 de janeiro de 1929, campo de São Bento
O combate teve lugar dois meses após o desafio, nas condições negociadas: fora do Circo, no campo de São Bento; Feitósa sem quimono, «calçado de savates»; cinco assaltos de cinco minutos; quatro combates preliminares; e um júri de cinco jornalistas nomeados para a ocasião. Tudo o que Vasques não tivera, Feitósa obtivera. Perdeu na mesma, uma «derrota pungente».
A carta de Jacarehy
Porquê? Seis dias depois, um leitor, Arthur José Moraes, enviou ao Diario Nacional a análise que a tese valida: «Argemiro Feitósa pode ser um bom capoeira, mas enfraquecido pela falta de exercício, pois, tanto quanto sei, é condutor, não tem companheiros para a prática de exercícios, perdendo, por conseguinte, agilidade, e ainda mais, o sangue-frio próprio de quem se dedica a este desporto.»
O treino. «Afastando-se de uma conceção inatista da performance física, atribuía as sucessivas derrotas dos capoeiras a uma cruel falta de exercício devida à evidente ausência de parceiros de jogo.» Com efeito, em todas as suas entrevistas, Feitósa nunca evocou a mínima preparação. Perante ele: trezentos combates profissionais, toda uma vida de treino no Kodokan, e um regulamento ainda «restritivo em matéria de técnicas de percussão».
A derrota de 13 de janeiro de 1929 não provou a inferioridade da capoeiragem. Provou que uma arte, por mais superior que seja, não substitui parceiros, horas e uma estrutura. Era, em oco, todo o programa de Burlamaqui, e o mestre do livro nunca escrito acabara de administrar a sua demonstração à sua própria custa.
FONTES
Biblioteca Nacional do Brasil: Diario Nacional, 21 out. 1928; «As lutas de capoeira. O japonez Géo Omori acceita o desafio», 23 out. 1928; «Uma exhibição de capoeiragem na Guarda Civica», 6 dez. 1928; «A proposito da decadencia da capoeira. Uma carta de um leitor de Jacarehy», 19 jan. 1929. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.1.
NO CORPUS
→ 19 de outubro de 1928: saído do reformatório cinco dias antes do combate
→ A roda ou o ringue: a escolha oculta de um regulamento de 1928
→ «Dirija-se diretamente ao japonês»
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. O homem que recusou o ringue, o quimono e o dinheiro. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 44. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-homem-que-recusou-o-ringue-o-quimono-e-o-dinheiro [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.