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HISTÓRIA · EVENTS

19 de outubro de 1928: saído do reformatório cinco dias antes do combate

5 MIN DE LEITURA

Oswaldo Caetano Vasques, chamado Baiaca, «o mais temido dos capoeiras do Morro da Favela», parte do Rio como herói para enfrentar Géo Omori em São Paulo. Desiste no terceiro assalto. A imprensa grita traição, os factos contam outra história

POR QUE ESTE ARTIGO

A primeira grande derrota da capoeiragem desportiva é também o seu processo mais injusto. Reconstituir o combate, o regulamento, e sobretudo a biografia do vencido, é compreender o que estava realmente em jogo no Circo Queirolo, e por que o quimono aí pesa mais do que a coragem.

Um homem plural, versão integral

Não se tendo apresentado ninguém em São Paulo para enfrentar Omori, o empresário Eurico Palhares apela ao Rio, «um lugar reputado por abrigar os mais dignos representantes da arte nacional». A resposta: Oswaldo Caetano Vasques, chamado Baiaca, vinte e oito anos. Partida a 12 de outubro, chegada a 13, ambas assinaladas pela imprensa das duas cidades.

A sua biografia é uma condensação de tudo o que o corpus estabeleceu sobre os capoeiras da República. Quatro anos na Marinha brasileira, onde aprende capoeiragem «em contacto com os marinheiros veteranos». Empregado comercial em seguida. E, em paralelo: perturbações da ordem pública, atos de delinquência, detenções por vagabundagem e jogos proibidos, até àquele episódio de 1.º de maio de 1928 em que, «para enganar a polícia», lacerou o próprio braço com um canivete. Um marinheiro ao serviço da nação, um empregado respeitável de dia, um vagabundo de noite, depois desafiante de um campeão mundial: o homem plural, versão integral. Um pormenor que a promoção esconde e a tese exuma: Vasques «saiu do reformatório cinco dias antes da sua partida para a capital paulista».

A máquina promocional

O Circo Queirolo vende o combate com grande alarido: «O grandioso espetáculo desportivo», «O combate mais importante e mais emocionante travado até agora nesta capital, capoeira contra jiu-jitsu». Vasques torna-se «o mais temido dos capoeiras do famoso morro da Favela do Rio de Janeiro». Um combate preliminar contra o francês Leconte, o campeão da casa, transforma-se numa demonstração do brasileiro, a imprensa inflama-se. A tese verá nisso o que os observadores da época suspeitariam a posteriori: «um embuste destinado a promover o encontro com o lutador japonês».

Três batidas no chão

A 19 de outubro, estão previstos quatro assaltos de três minutos. No terceiro assalto, Vasques desiste, bate três vezes no chão, «o emblema da derrota e da vergonha». A imprensa que o exaltara lincha-o: «Nem sequer um menino de dez anos, sem nunca ter visto capoeira ou qualquer espécie de luta, investiria tão pouco pela vitória.» É acusado de ter vendido o combate para manter a invencibilidade de Omori: «O dinheiro fê-lo esquecer que milhares de pessoas o tinham feito seu ídolo […] Que deceção e que revolta!» E a censura suprema, que conta a época: «Não teve o patriotismo necessário para se lembrar de que, naquele momento, representava uma nacionalidade.»

Note-se o que a acusação preserva: ninguém contesta o seu valor, o mesmo jornalista chama-lhe «um perfeito conhecedor da inigualável arma brasileira e perfeitamente capaz de vencer o campeão japonês». Argemiro Feitósa, que em breve o desafiará, tem-no por «o melhor representante da capoeira».

O que o quimono fez ao combate

A análise da tese põe o processo do direito. De um lado, um profissional de nível mundial com centenas de vitórias. Do outro, um homem «nem física nem mentalmente preparado», acabado de sair da detenção, cuja experiência se limitava aos «combates amigáveis clandestinos travados na rua», e cuja principal motivação, na necessidade, «era certamente o dinheiro». E um regulamento contra a natureza: o quimono obrigatório, já imposto a Cyriaco em 1909. Os amadores do jogo nacional indignaram-se numa frase que serve de definição técnica: «Um quimono, pesado e fácil de agarrar pelo adversário… Ora vejamos, um capoeira agarrado perde eficácia, pois a sua vantagem é combater à distância.» Agarrada, a capoeiragem morre; à distância, reina.

Nos debates do pós-derrota, a especificidade do jogo foi enunciada publicamente, enquanto Vasques, esse, recaía no anonimato. Um último rasto: março de 1930, «o malandro» Caetano Vasques, ferido por uma bala no joelho esquerdo após uma agressão gratuita. Os jornais que lhe tinham exigido que «representasse uma nacionalidade» dedicaram-lhe uma notícia breve.

FONTES

Biblioteca Nacional do Brasil: «Um capoeira brasileiro vae enfrentar Omori», Diario Nacional, 13 out. 1928; «Jiu-jitsu x capoeiragem», Diario Carioca, 12 out. 1928; «Capoeira, recurso de defesa incomparavel», Diario Nacional, 19 out. 1928; «Constitue uma indecorosa mystificação as lutas no Circo Queirolo», Diario Nacional, 21 out. 1928; «Para burlar a policia canivetou o proprio braço», Gazeta de Noticias, 1 maio 1928; «Ferido a bala», O Jornal, 2 mar. 1930. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.1.

NO CORPUS

→ O «gigante japonês» media um metro e cinquenta e cinco

→ Revistados pela polícia, aplaudidos pela cidade

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. 19 de outubro de 1928: saído do reformatório cinco dias antes do combate. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 43. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/19-de-outubro-de-1928-saido-do-reformatorio-cinco-dias-antes-do-combate [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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