Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · FIGURAS
Jayme Martins Ferreira, o campeão que desqualificou o seu próprio protegido
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Campeão de luta greco-romana do Rio em 1910, recordista de halterofilismo, instrutor da polícia da Bahia, diretor de uma academia de capoeiragem: o percurso de Jayme Martins Ferreira liga todos os fios desta história, até ao gesto de fair play de 3 de julho de 1931
POR QUE ESTE ARTIGO
Ferreira é a instituição viva da capoeiragem carioca do entreguerras: a sua academia forma os lutadores de 1931 e acolherá, vinte anos mais tarde, a chegada do berimbau ao Rio. A sua biografia desportiva, exumada dos arquivos, refuta mais uma vez o «desaparecimento» do jogo nacional.
Um recorde de homem forte
O homem que treina os capoeiras de 3 de julho de 1931 é «um dos maiores campeões do desporto carioca das primeiras décadas do século XX». O seu palmarés, reconstituído pela tese: campeão de luta greco-romana do Rio de Janeiro em 1910; recordista do «arremesso» a dois braços, do «arranque» a dois braços e do braço direito apenas; vencedor de muitos combates de luta greco-romana no Recife e na Bahia; campeão de pesos e halteres de 1914 a 1916; instrutor de cultura física da Guarda Civil e da Polícia Civil da cidade da Bahia, onde foi o iniciador da ginástica no Estado.
Note-se a geografia: um campeão carioca a treinar a polícia baiana, mais um fio «entrelaçado» entre as duas capitais do jogo, anos antes de a Bahia se tornar o centro oficial da narrativa. E este campeão das disciplinas de força dirige, no Rio, uma academia de capoeiragem, aquela onde treinam o Mané, o Coronel, Oséas e o Careca, marinheiros da Armada de «músculos educados».
O gesto de 3 de julho
No primeiro combate da noite, George Gracie golpeia o Coronel no rosto, um golpe proibido pelo regulamento. O juiz que pronuncia a desqualificação é o próprio Jayme Martins Ferreira: «com fair play, pelo próprio diretor da academia de capoeira, que julgou ilícito o golpe dado.»
Releia-se: o diretor da academia de capoeiragem desqualifica… o lutador de jiu-jitsu, dando assim a vitória ao seu próprio protegido, e a historiografia viu nisso apenas a debandada dos capoeiras. Mas o gesto diz outra coisa: num dispositivo viciado pelos «contratos manhosos», o único oficial que aplica a regra à letra, contra o interesse do espetáculo, é o homem da capoeiragem. A ética desportiva que Netto inventara para as maltas, Ferreira praticava-a, de verdade, num ringue.
A academia que atravessou as épocas
A sua academia é mais do que um lugar de treino: é uma ponte entre as idades. É nela que, nos anos 1950, Manoel e Coronel, o mesmo Coronel, introduzirão o berimbau na capital, «os únicos que sabiam tocá-lo»: o instrumento baiano a entrar no Rio pela porta da mais carioca das instituições. De um campeonato greco-romano em 1910 à chegada do arco musical quarenta anos depois, a trajetória de Jayme Martins Ferreira abrange todo o período supostamente vazio da história do jogo.
Homens como ele são a refutação viva do «desaparecimento»: enquanto a narrativa oficial se calava, alguém mantinha a sala aberta.
FONTES
Biblioteca Nacional do Brasil: imprensa carioca 1910–1931 (palmarés); «Os espectaculos de hontem no campo do Botafogo F.C.», Diario de Noticias, 4 jul. 1931. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.2 e Parte III, cap. A.
NO CORPUS
→ 3 de julho de 1931: o regulamento que proibia vencer
→ O berimbau: uma «tradição imemorial» mais recente do que pensamos
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. Jayme Martins Ferreira, o campeão que desqualificou o seu próprio protegido. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 50. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/jayme-martins-ferreira-o-campeao-que-desqualificou-o-seu-proprio-protegido [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.