top of page

HISTÓRIA · VOICES

«Continuo sem estar convencido»: a resposta do coronel

4 MIN DE LEITURA

Cinco meses após a sua desqualificação, Eduardo José de Sant'Anna toma de novo a palavra na primeira página do <i>Diario de Noticias</i>: contratos «manhosos», golpes principais anulados, o quimono injustificável, o ringue demasiado estreito. A sua entrevista de novembro de 1931 é a crítica mais lúcida jamais formulada do dispositivo Gracie, por um homem que aí deixou a sua reputação

POR QUE ESTE ARTIGO

A história dos vencidos raramente é contada nas suas palavras. As do Coronel, preservadas por inteiro, formulam já em 1931 a análise que a investigação validaria: sem regras comuns e equitativas, nenhum combate prova a supremacia de um método.

O homem que recusou a sua derrota

A 3 de julho de 1931, o Coronel não perdeu o seu combate: foi George Gracie quem foi desqualificado por um golpe no rosto. Mas no relato ambiente, toda a noite contou como uma debandada dos capoeiras. A 20 de novembro, obtém a primeira página do Diario de Noticias, título: «A ressurreição da capoeiragem», e restabelece os termos: «Quero combater George Gracie de novo. Ainda não estou convencido da supremacia da luta japonesa sobre a luta brasileira.»

A análise dos «contratos manhosos»

Segue-se o coração do argumento, que nenhum teórico do desporto poderia ter formulado melhor: «É preciso que a imprensa brasileira analise a situação dos lutadores que combatem contra os Gracie. Fazem tantas restrições que, no fim, os seus adversários só podem fazer uma coisa: esperar que apliquem os seus golpes contra eles […] Cada sistema de luta possui os seus golpes particulares, a sua maneira característica de dominar e de se impor. Ora, uma vez que os golpes principais deste ou daquele são anulados por um contrato manhoso, é impossível afirmar que há supremacia de um sobre o outro.»

O contrato manhoso: a expressão merece permanecer. Designa exatamente o mecanismo de 3 de julho, neutralizar por escrito as armas do adversário antes de o enfrentar. E a sua própria desqualificação? «Fui desqualificado no meu combate contra George apenas porque apliquei uma ‹chulipa›, embora não houvesse no contrato assinado nada que proibisse o uso deste golpe, que tem apenas a função de uma finta.» Desqualificado por uma finta, por um regulamento que não a mencionava: o contrato manhoso até à sua aplicação.

Renegociar o espaço, recusar o quimono

O Coronel não se limita a contestar: fixa as suas condições para a desforra, e cada uma é um tratado sobre a especificidade do jogo. O espaço: «A capoeiragem é uma luta muito diferente do boxe, da luta greco-romana, da luta livre e do jiu-jitsu. Não pode ser praticada com eficácia num ringue comum. Os combates devem fazer-se na relva, num bom espaço amplo, ou então num ringue de 10 por 10 metros.» O ringue de seis metros de 3 de julho estrangulou o combate à distância, Feitósa dissera-o em São Paulo, Burlamaqui escrevera-o em 1928 com o seu campo de futebol.

O quimono: «Os irmãos Gracie têm o costume de exigir que os seus adversários se apresentem no ringue de quimono, alegando que o jiu-jitsu foi criado para o ataque e a defesa na rua, onde todos andamos vestidos. Isto parece uma criancice. A capoeira também não se pratica entre homens nus. Por isso o meu combate com George deve ser bem claro neste ponto: apresentar-me-ei com camisa, calças e sapatos comuns.» O argumento da rua, virado do avesso numa frase: se o combate simula a rua, então cada um vem a ele vestido como na rua, não fantasiado para as preensões do outro.

Uma lucidez sem posteridade

De Cyriaco a exigir a sua garantia em 1909, a Feitósa a fixar as suas três condições em 1928, ao Coronel de novembro de 1931: três gerações de capoeiras formularam, com precisão crescente, a crítica dos dispositivos que os faziam perder. Nada faltou, nem a análise do regulamento, nem a do espaço, nem a do trajo, nem a conclusão epistemológica: tais combates nada provam. Esta lucidez não teve posteridade: a história reteve as derrotas, não as análises. Torná-las públicas, noventa e cinco anos depois, não é reabilitar vencidos. É restituir a estes homens o que também foram: os primeiros teóricos críticos do combate-espetáculo.

FONTES

Coronel (Eduardo José de Sant'Anna), in «A resurreição da capoeiragem», Diario de Noticias, Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1931 (citações integrais), Biblioteca Nacional do Brasil. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.2.

NO CORPUS

→ 3 de julho de 1931: o regulamento que proibia vencer

→ O homem que recusou o ringue, o quimono e o dinheiro

→ O homem que venceu Carlos Gracie, e foi agredido por três irmãos

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. «Continuo sem estar convencido»: a resposta do coronel. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 48. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/continuo-sem-estar-convencido-a-resposta-do-coronel [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

bottom of page