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HISTÓRIA · IDEAS

Salvar a capoeira condenando os capoeiras

5 MIN DE LEITURA

No fim do século XIX, dois homens de letras republicanos transformam uma prática marginalizada num símbolo nacional. O preço da consagração: a condenação dos seus praticantes e a reescrita do seu passado

POR QUE ESTE ARTIGO

Os mitos não têm autor, gostamos de crer. O da capoeira tem autores, nomes, datas, jornais. Segui-lo até à sua fonte é identificar um mecanismo que se repetirá ao longo de toda a história das artes de combate negras, até às patrimonializações de hoje: o reconhecimento que transforma, e amputa, aquilo que celebra.

Um ministro, alguns instrutores japoneses e a cólera de um poeta

Em 1908, a Marinha brasileira recruta instrutores japoneses de jiu-jitsu para treinar os seus marinheiros aprendizes. Na imprensa, um homem de letras indigna-se. Luiz Murat escreve: «O ilustre Almirante, Ministro da Marinha, parece desejar introduzir o jiu-jitsu como instrumento de destreza na educação física do nosso marinheiro […] e pretende banir da sua pátria a ginástica brasileira, na qual todos os outros exercícios se combinam vantajosamente, jiu-jitsu, savate, pugilato, o bastão […] Quem lhe induziu este erro; quem lhe mostrou as vantagens do jogo japonês sobre o nosso?»

Para Murat, a importação do jiu-jitsu é o sintoma de uma «degeneração da nação»: essa propensão doentia para se submeter ao estrangeiro em vez de valorizar o que pertence ao nacional. E o campo de batalha não é escolhido ao acaso: as instituições militares, guardiãs da nação, dos seus valores e da sua cultura. Defender a capoeiragem na Marinha é defender o próprio corpo do país.

Eis a defesa. Mas esta defesa tem uma contrapartida, e é a contrapartida que torna o caso tão instrutivo.

A taberna e o cortiço

Pois, segundo Murat, a própria capoeiragem está a degenerar. Onde? Em dois espaços «depravados e insalubres»: os cortiços, as habitações precárias que alojavam os trabalhadores pobres do Rio, e as tabernas, «lugares de alienação mental» onde as virtudes da prática cedem à imoralidade. A sua sentença cai: «A taberna e o cortiço. Eis os símbolos da decadência da capoeiragem.»

O raciocínio higienista fecha-se como uma armadilha. Para ser salva, a capoeiragem deve ser purificada, isto é, extraída dos espaços populares onde efetivamente vive, arrancada aos homens que efetivamente a praticam. A defesa da prática procede pela condenação dos seus praticantes.

Retenha-se este mecanismo. Não faz senão começar.

Reescrever o passado das maltas

O segundo autor do mito trabalha noutro registo: já não o espaço, mas o tempo. Coelho Netto empreende reescrever a história das maltas, os bandos de capoeiristas que tinham dominado as ruas do Rio no século XIX, e cujo próprio nome evocava o terror urbano.

Sob a sua pena, tornam-se micro-sociedades bem reguladas, dotadas de tribunais internos: «Nos bairros de Vintém e de Nhéco reuniam-se por vezes conselhos em que os crimes e as faltas imputados a certos desordeiros eram severamente julgados. Os ladrões confessos eram imediatamente expulsos, e os assassinos que não podiam justificar por legítima defesa o crime de que eram denunciados eram expulsos, e por vezes até entregues à polícia pelos seus próprios chefes.»

Netto convoca também a história recente: a «Guarda Negra» da Princesa Isabel, composta por capoeiras confirmados, defendeu a abolição e a monarquia vacilante. Traça um retrato moral: «o dinheiro não era o nervo da guerra; os valores cívicos é que eram.»

Sejamos justos. Netto contrabalançava uma imagem de barbárie que duas décadas de repressão tinham gravado nos espíritos. O corretivo tinha o seu valor. Mas a sua narrativa omitia um dado mais duro, que as fontes restituem: muitos capoeiras alugavam os seus serviços aos partidos políticos como capangas, homens de mão encarregados de agredir opositores e de intimidar eleitores, numa época em que o voto não era nem aberto aos analfabetos nem secreto. A violência das maltas não era apenas uma lenda negra a corrigir. Era um facto político, embutido no próprio funcionamento do sistema eleitoral do Império e da Primeira República.

O mito não mentiu por invenção. Mentiu por subtração.

Quanto custa uma consagração

Façamos as contas. Nos escritos de Murat e de Netto, os capoeiras negros tornam-se modelos de virtude moral e física sobre os quais fundar uma nação forte. O ganho simbólico é real, uma prática marginalizada acede ao estatuto de património. Mas algo desaparece na operação: as origens africanas, a cultura das ruas, os homens reais, as suas tabernas, os seus cortiços, os seus contratos de capanga, o seu mundo.

Elevação simbólica e amputação documental caminham juntas. Esta é a primeira ocorrência de um mecanismo destinado a repetir-se, que voltaremos a encontrar, sob outras formas, cada vez que uma prática negra é celebrada por aqueles que não a vivem.

FONTES

Arquivos de imprensa, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): Murat, L., Jornal do Brasil, 24 abr. 1908; «Gymnastica brasileira. Taverna e o cortiço», Jornal do Brasil, 16 ago. 1924; «Gymnastica brasileira. Camaradagem e solidariedade», Jornal do Brasil, 23 ago. 1924; Coelho Netto, imprensa carioca. Soares, C. E. L., «A guarda negra: a capoeira no palco da política», Textos do Brasil, 14, 2008. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. B.1–B.2.

NO CORPUS

→ Besouro de Mangangá, Mas Oyama, Ueshiba: por que as artes marciais fabricam deuses

→ «Quem tinha medo da capoeira?»

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Salvar a capoeira condenando os capoeiras. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 04. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/salvar-a-capoeira-condenando-os-capoeiras [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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