Black Combat Arts Institute.
CULTURE · MYTHS
Besouro de Mangangá, Mas Oyama, Ueshiba: por que as artes marciais fabricam deuses
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O capoeira de «corpo fechado» que se transforma em besouro dourado, o karateca que derruba touros, o fundador do aikido que esquiva balas: as artes de combate produzem mitos de estrutura constante, e de função política precisa
POR QUE ESTE ARTIGO
Este é o gesto inaugural de toda a investigação: identificar os mitos do campo marcial, a sua estrutura e a sua função, antes de escrever a história documentada. E dissipar um mal-entendido: desconstruir as lendas não empobrece a capoeira, dá-lhe uma história mais rica do que elas.
Era uma vez
Era uma vez um povo que vivia em paz, em harmonia com os deuses e os elementos naturais. Depois apareceu uma horda de bárbaros sanguinários. Perante este assalto, alguns homens redescobriram técnicas de combate ancestrais e, após lutas titânicas, libertaram-se das suas correntes…
Este conto abre a própria tese. Todos o ouviram sob mil formas. Em crianças, fomos todos embalados por histórias deste tipo, Grimm, Perrault, em que o mundo se cinde entre os bons e os maus e o bem vence no fim. Em adultos também: «grandes fábulas marciais reavivaram a nossa sensibilidade de infância.»
Alinhem-se algumas peças do repertório, e o molde aparece. Em Okinawa, graças ao caraté e a ferramentas agrícolas transformadas em armas temíveis, os camponeses teriam resistido ao invasor japonês. No Vietname, «tesouras voadoras» desmontavam a cavalaria mongol. No Brasil, «os negros escravizados conceberam a capoeira no maior segredo» e «sacudiram o jugo colonial». Três continentes. Uma só história: o fraco que, por uma arte secreta, derruba o forte.
Os homens-deuses
Às fábulas coletivas juntam-se as figuras de poderes quase divinos. Mas Oyama, um jovem franzino escarnecido pelos seus pares, elabora numa gruta «o sistema de combate mais terrível do mundo» e derruba touros com o olhar de Minotauros. Morihei Ueshiba, fundador do aikido, «esquivava as balas de espingarda».
A capoeira tem a sua figura equivalente: Besouro de Mangangá, o capoeira lendário, «tinha o corpo fechado, isto é, insensível aos golpes de faca. E quando cercado por uma dúzia de inimigos, transformava-se num besouro dourado para fugir». Corpo invulnerável, metamorfose animal, fuga milagrosa: Besouro pertence à mesma família narrativa de Oyama e Ueshiba. A família dos deuses fabricados.
Para que servem os contos
Estas histórias não são inocentes. Têm uma função política. Reativam «para fins políticos a divisão do mundo entre o bem e o mal», como os westerns ou os filmes de Stallone a alimentar a propaganda da Guerra Fria após a série Why We Fight. O precedente está documentado: os contos de Grimm acompanharam e depois legitimaram as identidades nacionais que se criavam na Europa do século XIX (Thiesse). E «a narrativa mítica da capoeira não é exceção à regra»: tomou forma sob a pena de intelectuais republicanos e nacionalistas, cujo trabalho outro artigo do corpus documenta com precisão.
Estas narrativas não pertencem ao passado. Três crenças estruturam ainda o campo: uma capoeira que seria uma «tradição imutável desde os primeiros tempos coloniais, originária da Bahia, cuja expressão mais autêntica seria o estilo angola»; nascida «nas plantações esclavagistas, como arma de resistência para se libertar dos senhores»; carregada por praticantes «em perpétua luta contra os sucessivos poderes políticos». A cada uma, a investigação opôs uma refutação: a invenção da capoeira contemporânea nas primeiras décadas do século XX, no contexto da formação da identidade nacional (Pires, 2001); a desconstrução da origem baiana (Reis); «a inanidade da suposta autenticidade da capoeira angola» (Vassallo). O mito resiste à ciência. É precisamente assim que se o reconhece.
O «romance verdadeiro»
Que posição, então, sustentar? A de Paul Veyne, primeiro: a história não é senão um «romance verdadeiro», «uma narrativa puramente verídica», uma narrativa, pois, com as suas personagens e enredos, mas presa a um constrangimento que o mito ignora: a verdade. A de Michel Brousse, depois, para o campo marcial: «A história encontra-se colocada ao serviço do maravilhoso e do esotérico. Encoraja a evocação de lendas e de mitos de origem, e estabelece as crónicas apologéticas que servem o culto dos mestres.» Perante esta história escravizada ao maravilhoso, a tarefa é a de Heródoto: desconstruir «as lendas, as falsas aparências para atingir a realidade dos factos». Para as artes marciais, «o trabalho é imenso».
Um mal-entendido, para terminar. Desconstruir Besouro, será destruir a capoeira? É o contrário. Onde o mito oferece um homem que se transforma num besouro dourado, o arquivo oferece um carregador de café que derruba o campeão do Ministério da Guerra, exige o seu cachê às companhias europeias, e morre de urémia aos quarenta e dois anos. Cyriaco vale mais do que o besouro dourado. Ele existiu.
FONTES
Veyne, P., Comment on écrit l'histoire, Seuil, 1971. Brousse, M., in Bosman, Clastres, Dietschy (orgs.), Le Sport de l'archive à l'histoire, PU Franche-Comté, 2006. Thiesse, A.-M., La création des identités nationales, Seuil, 2001. Pires, A. L. C. S., tese, Unicamp, 2001. Reis, L. V. de S., O mundo de pernas para o ar, 1997. Vassallo, S. P., tese EHESS, 2001. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Introdução geral.
NO CORPUS
→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro
→ Salvar a capoeira condenando os capoeiras
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. Besouro de Mangangá, Mas Oyama, Ueshiba: por que as artes marciais fabricam deuses. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 18. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/besouro-de-manganga-mas-oyama-ueshiba-por-que-as-artes-marciais-fabricam-deuses [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.