top of page

HISTÓRIA · FIGURAS

O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

7 MIN DE LEITURA

A 1.º de maio de 1909, um carregador de café nocauteia o instrutor de jiu-jitsu da Marinha brasileira. O que o mito omite: a recusa inicial, as exigências do vencedor para ser pago, e a verdadeira identidade do vencido

POR QUE ESTE ARTIGO

O 1.º de maio de 1909 é a data mais célebre da história da capoeira. É também uma das menos conhecidas: citada por toda a parte, quase nunca é documentada para além do seu desfecho. Os arquivos da imprensa permitem restituir o que o mito cortou, duas trajetórias inteiras e uma identificação inédita obtida pelo cruzamento das fontes.

A noite em que o teatro quase explodiu

Rio de Janeiro, teatro Pavilhão Internacional, noite de 1.º de maio de 1909. Há várias semanas, um instrutor japonês de jiu-jitsu desafia a cidade inteira. Cinco libras em ouro a quem resistir às suas projeções durante três minutos. A imprensa chama-lhe Sada Myako. Um francês tentou. Um português também. Ninguém aguentou.

Nessa noite, um homem de trinta e oito ou trinta e nove anos sobe em direção ao palco. Chama-se Francisco Cyriaco da Silva. Chamam-lhe Macaco. É carregador de café, um ofício que desgasta os corpos mas forja a força e a resistência. É um crioulo de Campos, com toda a probabilidade nascido escravo, filho da Lei do Ventre Livre (1871) e da Lei Áurea (1888). Um jovem adepto do jogo brasileiro, que vira o japonês vencer noite após noite, convidou-o a aceitar o desafio.

E então acontece algo inesperado. Myako recusa-se a lutar.

Porquê? As regras do desafio eram universais: todo o homem forte do Rio era convidado, sem exceção. Um único elemento distinguia Cyriaco dos candidatos anteriores, a cor da sua pele. A tese conclui, por eliminação: «Sem dúvida porque este homem era negro. Nenhuma outra razão justificava a sua recusa.»

A plateia, por seu lado, não raciocina. Explode. «Mesas e cadeiras voavam pelo teatro; assobios, gritos e insultos choviam.» Perante a fúria da sala, o japonês inverte a decisão. O combate mais famoso da história da capoeira só teve lugar porque uma plateia de teatro o impôs contra uma recusa discriminatória.

Dois rabos de arraia

O relato do combate chegou até nós através de O Paiz de 2 de maio de 1909, a fonte primária de toda a cena. Ambos os homens vestem o quimono, imposto pela direção do teatro para facilitar as projeções do lutador japonês. Um único assalto. Quase todas as técnicas permitidas. Frente a frente: um profissional de vinte e oito anos, membro da burguesia japonesa com doze anos de ensino atrás de si, e um carregador de café descalço.

«Cyriaco desenvolveu o seu ataque: ora saltava como um gato, ora se abaixava tanto que parecia estar sentado. O japonês esperava o momento do ataque; mas Cyriaco, com uma flexão rápida, desferiu-lhe um pontapé violento, um rabo de arraia na gíria da capoeiragem, que derrubou o japonês de imediato. Houve um delírio de aplausos.»

Myako levanta-se, «disposto a continuar o combate». Um segundo rabo de arraia «quase o matou de novo». Desiste.

A noite teria uma consequência que ninguém, nessa noite, podia medir: depois de 1.º de maio de 1909, este pontapé torna-se o emblema da arte de combate nacional, no lugar da rasteira e da cabeçada que até então ocupavam o coração simbólico do jogo. A capoeira começa a tornar-se o que é hoje, «uma disciplina aérea, espetacular, acrobática». Um único combate reorientou a imagem técnica de toda uma prática.

O que faz um vencedor

O mito costuma parar aqui. Os arquivos continuam.

Nas semanas seguintes, Cyriaco é disputado por todos os lados. Os estudantes de medicina convidam-no «a demonstrar e ensinar as primeiras subtilezas das técnicas da capoeiragem, entre os muros da Academia de Medicina». Um carregador de café, descendente de escravizados, recebido como perito num dos santuários do saber da elite carioca.

Raul Pederneiras, jornalista, caricaturista e ele próprio fino conhecedor do jogo, aborda-o «para metodizar a capoeiragem e abrir escolas de instrução». E Cyriaco faz uma escolha: «fortalecido pela sua ressonante vitória, decidiu continuar pela via do combate desportivo.» Inscreve-se no campeonato internacional de jiu-jitsu anunciado em torno de um novo campeão japonês, Raku. Depois, no campeonato internacional de luta greco-romana organizado no mesmo teatro com uma companhia profissional vinda de França, «com audácia, Cyriaco decidiu numa noite de competição desafiar todos os lutadores presentes» (O Paiz, 8 de outubro de 1909).

O gesto exige interpretação. Desafiar todos os campeões, profissionais europeus pagos para o espetáculo, não é bravata. É reivindicar o seu lugar na economia deles: a das remunerações, dos prémios em libras de ouro, das companhias assalariadas. Cyriaco quer ser pago para participar, como os Hércules que desafia. Longe da imagem do talento ingénuo das ruas, as fontes mostram um profissional consciente do seu valor de mercado. E este dado explica talvez, em parte, o rápido apagamento da sua memória: um capoeira que exige o seu cachê contradiz frontalmente a narrativa de uma capoeiragem folclórica e desinteressada.

Cyriaco morre de urémia em maio de 1912. O projeto de metodização iniciado com Pederneiras morre com ele.

O homem que não existia com esse nome

Restava um enigma que a literatura nunca resolvera: quem era «Sada Myako»?

A lenda deve primeiro ser corrigida. Ao contrário das versões em circulação, o homem não era nem um náufrago da ilha de Wake nem um passageiro do Kasato Maru. Comissionado pela Marinha brasileira, com o seu colega Ume Kakihara, para ensinar «todas as subtilezas do seu método de educação física aos marinheiros aprendizes», embarcara em Yokohama em junho de 1908 e desembarcara em dezembro do navio-escola Benjamin Constant, no auge da voga mundial do jiu-jitsu que se seguiu à vitória do Japão sobre a Rússia.

Depois, a 14 de março de 1931, um decreto do governo brasileiro dá a chave. Ordena a expulsão de um tal Sakuzo Miura, conhecido por «Sack», diretor do jornal paulista Nippak Shimbum, por «declarações subversivas» contra o Brasil. Desenrolando a sua carreira, a imprensa revela que este notável da comunidade japonesa fora, vinte anos antes, instrutor de jiu-jitsu na capital, sob o nome fictício de Sada Miako. O título de A Batalha de 15 de março de 1931 diz tudo: «De professor de jiu-jitsu a jornalista. O notório japonês expulso do Brasil.» A sua derrota de 1909 não quebrara, aliás, nada: ensinou os marinheiros aprendizes durante mais três anos antes de ser substituído, em 1912, por um instrutor brasileiro.

Dois homens, duas trajetórias cruzadas. Um descendente de escravizados que reivindica o seu valor numa economia de espetáculo que não o esperava. Um empreiteiro japonês sob pseudónimo, tornado diretor de jornal, expulso pelo Brasil de Vargas. Consagrados como símbolos numa noite de maio de 1909, e devolvidos, ambos, ao apagamento. É esta dupla história, e não a imagem do triunfo apenas, que os arquivos nos obrigam agora a escrever.

FONTES

Arquivos de imprensa, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): «Jiu-jitsu vencido pela capoeiragem», Gazeta de Noticias, 2 maio 1909; «Os matchs do International», O Paiz, 2 maio 1909; «Sport. Jiut-jutzú», O Paiz, 17 abr. 1909; «Pavilhão Internacional», O Paiz, 19–20 abr. 1909; «Cyriaco, o homem do rabo de arraia visita a faculdade de medicina», A Noticia, 17–18 maio 1909; «Lucta Romana», O Paiz, 8 out. 1909; «O Cyriaco», O Paiz, 19 maio 1912; «O Moleque Cyriaco. Sua morte», Gazeta de Noticias, 19 maio 1912; «O Benjamin Constant», Jornal do Brasil, 17 dez. 1908; «De professor de jiu-jitsu a jornalista», A Batalha, 15 mar. 1931. Pederneiras, R., «O jogo da capoeira», Jornal do Brasil, 28 jun. 1931. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento em História, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.2–A.3.

NO CORPUS

→ 1903–1909: atletas negros como iguais nas arenas do Rio, e a luta livre que daí nasceu

→ Besouro de Mangangá, Mas Oyama, Ueshiba: por que as artes marciais fabricam deuses

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 02. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-campeao-que-se-recusou-a-lutar-contra-um-homem-negro [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

Politique de confidentialité

Mentions légales

Politique de cookies

bottom of page