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HISTÓRIA · ATLANTIC

1903–1909: atletas negros como iguais nas arenas do Rio, e a luta livre que daí nasceu

6 MIN DE LEITURA

Anastastio Anglio, Jean Amalhou, Dierry N'Diage: três lutadores da Martinica e do Senegal, tratados pela imprensa carioca como iguais dos campeões brancos. Os seus retratos apareceram em postais. A sua história desapareceu

POR QUE ESTE ARTIGO

Este artigo restitui um Atlântico desportivo negro apagado da memória coletiva, e documenta, nas mesmas arenas, o nascimento dos primeiros «combates livres» regulados: a primeira hibridação das práticas de combate, décadas antes do vale-tudo e do MMA.

Três nomes nos jornais

Rio de Janeiro, início do século XX. O sucesso do jiu-jitsu e do boxe inglês só é igualado pelo da luta greco-romana. O primeiro «campeonato internacional» realiza-se em 1903: Raoul le Boucher, Dumont, o austríaco Antonisch, o alemão Romanoff, companhias profissionais, cachês, cartazes, um público pagante.

Nestas arenas, aparecem três atletas negros que a imprensa nos permite nomear e datar. Anastastio Anglio, um lutador «negro, da Martinica», mencionado pelo Correio da Manhã já em 1904. Jean Amalhou, também da Martinica, por vezes designado «negro africano», que participa nos campeonatos de 1905 e 1907, ao lado de Paul Pons, detentor do Cinturão de Ouro, ou seja, ao mais alto nível mundial da disciplina. Dierry N'Diage, «o senegalês», inscrito na sexta edição do torneio, em 1909, no Pavilhão Internacional, dois meses depois da proeza de Cyriaco, no mesmo teatro.

Quanto valia a sua presença? Um indício material responde: os retratos fotográficos de N'Diage e Amalhou aparecem, ao lado dos dos grandes lutadores como Pons, no verso de postais publicados pelo jornal L'Auto nos anos 1900, um dos grandes veículos da celebridade desportiva da época.

E a imprensa carioca? «Nenhuma diferença de tratamento para com eles é de notar.» As suas qualidades físicas e técnicas são saudadas em pé de igualdade com as dos outros lutadores. Um traço poderia parecer contradizer a constatação: a referência sistemática à cor da sua pele. As fontes sugerem o contrário: a marcação assinala menos uma rejeição do que a raridade do facto, «a ausência normal de campeões negros nas competições desportivas da capital, e entre brancos ainda por cima. O mundo do desporto no Brasil do início do século XX era ainda segregacionista; as mentalidades e os espaços afrouxavam lentamente.» Estes homens «ajudaram, na capital brasileira, a desbloquear o acesso dos atletas de cor aos mesmos espaços de prática que os seus homólogos brancos».

«O nosso pontapé»

A edição de 1909, organizada no Pavilhão Internacional pelo jornal francês L'Auto, reserva outra surpresa: as fronteiras entre práticas começam a ceder. Certos combates libertam-se do cânone da luta greco-romana, fundada apenas nas preensões. A reportagem de O Paiz de 5 de agosto de 1909 testemunha-o: «3.º combate, Smykal, húngaro, 110 kg, contra Massetti, italiano, 106 kg. Este combate não foi realmente luta greco-romana […] um combate de cabeçadas, quedas, socos […] Este último usou mesmo o nosso pontapé, como arma de defesa.»

O nosso pontapé. O jornalista brasileiro reconhece a capoeiragem no gesto de um lutador italiano. O vocabulário técnico do jogo nacional serve já de grelha universal para ler os corpos em combate.

O combate senegalês

Vem então a peça-mestra: o «combate senegalês», anunciado nestes termos, «neste combate todos os golpes proibidos serão permitidos, mesmo os habitualmente usados nos combates livres do Senegal.» Esta luta africana combinava projeções e golpes de mão aberta.

E o estilo de Dierry N'Diage impressiona os cronistas, que o descrevem com as únicas palavras de que dispõem, as da capoeiragem: «Dierry, na arena, não tinha preço; ora parecia um palhaço, ora um excelente capoeira […] gingando firmemente.» «O público entusiasmava-se quando Dierry acertava algumas bofetadas» (O Paiz, 16 de setembro de 1909).

Gingando: o balanceio característico do jogo brasileiro, a ginga, reconhecido pelos jornalistas do Rio no corpo de um lutador senegalês que nunca a aprendera. Dois traços apontam para o universo da capoeiragem: o deslocamento dançado, e a derrisão do adversário, própria dos capoeiras da «Belle Époque» (a idade de ouro anterior a 1914). Um indício, não uma prova, o parentesco das artes de combate negras seria demonstrado um século mais tarde, pela análise das lógicas internas, não por estas convergências de superfície. Mas um indício precoce, e impressionante: cronistas de 1909 observavam já, com as suas próprias palavras, o que uma tese estabeleceria em 2020.

O nascimento da luta livre

A efervescência teve uma consequência institucional datada. Perante as expectativas do público, Paschoal Segreto oficializa os «combates livres» (luta livre), fundados num regulamento aberto em que todas as técnicas normalmente proibidas são permitidas, «uma novidade na capital». Estes ringues «eram verdadeiros lugares de encontro, de troca, de criação de novas formas».

Nesta mistura de luta greco-romana, capoeiragem, luta senegalesa e jiu-jitsu joga-se a primeira hibridação das práticas de combate, décadas antes do vale-tudo e do MMA, cuja genealogia oficial ignora este capítulo carioca. Essa genealogia deve, portanto, ser prolongada. De volta às arenas do Rio, de volta aos postais de L'Auto, de volta a três nomes que a história do desporto perdera: Anglio, Amalhou, N'Diage.

FONTES

Arquivos de imprensa, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): «Luta romana», Correio da Manhã, 31 jun. 1904 («O negro de Martinica»); «Lucta Romana», Gazeta de Noticias, 30 ago. 1905; «Moulin Rouge», Correio da Manhã, 18 ago. 1907 («Negro africano»); «Lucta romana. Grande campeonato internacional», O Paiz, 4 out. 1909 («O senegalense»); O Paiz, 5 ago. e 16 set. 1909; postais do jornal L'Auto, anos 1900 (documentos 17, 18, 19 e 27 da tese). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.3.

NO CORPUS

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

→ A capoeira não está sozinha no mundo

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. 1903–1909: atletas negros como iguais nas arenas do Rio, e a luta livre que daí nasceu. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 13. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/19031909-atletas-negros-como-iguais-nas-arenas-do-rio-e-a-luta-livre-que-dai-nasceu [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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