Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · MEDIA
«Dirija-se diretamente ao japonês»
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Após as derrotas de 1928–1929, um terceiro capoeira oferece-se, gratuitamente, num campo de futebol, «para que o povo não pague entrada». O jornal recusa mesmo transmitir a sua mensagem. Em duas frases de editorial, a capoeiragem desportiva perde o seu último apoiante
POR QUE ESTE ARTIGO
Os desaparecimentos nem sempre são decretados: por vezes são escritos numa coluna de leitores. Este artigo documenta o mecanismo exato do abandono mediático, e o escândalo Queirolo que, em paralelo, já envenenara a confiança pública.
O voluntário de Campinas
Três dias após a derrota de Feitósa, um lutador da região de Campinas, Antonio Gomes, escreve ao Diario Nacional. A sua carta merece ser lida por inteiro, pois é o último ato de fé da capoeiragem desportiva paulista: «Venho pela presente desafiar o lutador japonês para um combate gratuito, num campo de futebol, mas que o povo não pague entrada para assistir. […] Fiquei estupefacto ao saber que o japonês anda a vencer jogadores de capoeira, como Argemiro Feitósa, que foi um verdadeiro fiasco. Mas este homem não conhece capoeira, pois se a conhecesse não seria vencido, um capoeira vence sempre quando não se trata de uma combinação.»
Gratuito, ao ar livre, sem organizador suspeito: Gomes radicalizava as condições de Feitósa até à sua forma mais pura. E a sua fé, «um capoeira vence sempre», era exatamente a que vinte anos de narrativa nacional, de Cyriaco aos intelectuais, tinham forjado.
A resposta editorial
Cabe em duas frases, e é glacial: «Estamos entre os que já não acreditam no que dizem os campeões da capoeira, visto que até agora aqueles que se afirmaram intrépidos falharam lamentavelmente. […] Como já não desejamos fazer prognósticos sobre combates de capoeiragem, e menos ainda envolver-nos neles, lembramos ao Sr. Antonio Gomes que é preferível dirigir-se diretamente ao japonês Omori, no Circo Queirolo, rua Formosa, nesta capital.»
Dirija-se diretamente ao japonês. O jornal que fizera um ídolo de Vasques e um novo Cyriaco de Feitósa já nem sequer desejava servir de caixa de correio. «Sem apoio material, financeiro, relacional e publicitário, os capoeiras foram empurrados para a margem de um movimento desportivo em plena expansão.» Em São Paulo, a luta nacional «desapareceu do espaço público», não por decreto, mas por desassinatura.
O veneno Queirolo
O abandono tinha um pano de fundo: a confiança estava morta antes dos capoeiras. Já em setembro de 1928, o combate Omori–Rogerio Archimedes se transformara em escândalo: trinta minutos de domínio do brasileiro, um público a aguardar a proclamação, e a empresa Queirolo a decretar um prolongamento de dez minutos, depois um empate «contra a opinião geral do público e a dos jornalistas presentes». Acusações de resultados adulterados «para manter intacta a invencibilidade do seu campeão», suspeitas de duelos combinados, jornalistas «a convocar a polícia para esclarecer estas práticas fraudulentas», um público a desertar as bancadas.
Quando tudo se consumou, um público desconfiado, uma imprensa desencantada, um reservatório de desafiantes esgotado, o próprio Omori virou a página: menos de uma semana após a sua vitória sobre Feitósa, o seu representante apresentou-se ao Diario Carioca para anunciar que «o célebre lutador japonês deseja vir ao Rio e procura, para isso, um empresário». No Rio, um jovem professor formado pelo Conde Koma procurava precisamente fazer um nome. Chamava-se Carlos Gracie. O que se seguiu mudaria o nome das artes marciais do mundo.
FONTES
Biblioteca Nacional do Brasil: «Apparece outro capoeira. Este não quer o prejuizo do publico», Diario Nacional, 16 jan. 1929 (carta e resposta); «Géo Omori vae lutar no Rio», Diario Nacional, 18 jan. 1929; «As lutas no Circo Queirolo. Rogerio dominou o japonez mas não foi considerado vencedor», Diario Nacional, 26 set. 1928. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.1.
NO CORPUS
→ O homem que recusou o ringue, o quimono e o dinheiro
→ Sem os Gracie, não há roda moderna
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. «Dirija-se diretamente ao japonês». In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 45. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/dirija-se-diretamente-ao-japones [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.