Black Combat Arts Institute.
THE ARCHIVE · TÉCNICA
«Um contra meia dúzia»: o manual ilustrado de 1921
5 MIN DE LEITURA
Rasteira, quengo, calço, pé de panjuca, pantana, pulo de sapo: em «A defesa nacional», Pederneiras descreve e desenha os golpes dos mais velhos, e revela, de passagem, a verdadeira especificidade técnica da capoeiragem, que a sabedoria recebida coloca no lugar errado
POR QUE ESTE ARTIGO
Um documento, uma história: o artigo da Revista da Semana de 7 de maio de 1921 é o único manual da sua época a juntar o desenho à descrição. A sua leitura técnica permite seguir uma técnica ao longo de um século, de Rugendas à queda de quatro, e corrigir uma ideia recebida fundamental.
O apelo inicial
O artigo abre numa fanfarra patriótica: «um exercício desportivo […] exclusivamente brasileiro, insuperável como defesa pessoal […] o jogo nacional por excelência, a capoeiragem, tão ignorada hoje, pode muito bem ser sistematizada […] e é incontestavelmente superior a todos os outros desportos em matéria de autodefesa, porque, a par de outras qualidades, fornece uma defesa segura de um contra meia dúzia de adversários.» Um contra seis: a hipérbole vem de Murat e fará a sua fortuna. Segue-se o elogio do «sistema de defesa pessoal digno de referências honrosas» do seu amigo Aleixo, para Pederneiras, o nacionalismo não é purismo: «a novidade e a evolução não eram julgadas antinómicas com a promoção da luta nacional, muito pelo contrário».
Vem então a parte que faz do documento um tesouro: as técnicas dos mais velhos, nomeadas, descritas, desenhadas, rasteira, quengo (cabeçada), calço, pé de panjuca, pantana, pulo de sapo. «Todos estes golpes ainda existem hoje, mesmo que alguns nomes sejam diferentes.»
A rasteira, e a arte de «pentear»
«O capoeira abaixa-se rapidamente, apoia as mãos no chão, e varre horizontalmente uma das pernas, tendo primeiro tido o cuidado de pentear, isto é, de fazer passos disfarçados, ameaças enganadoras, para que o parceiro não descubra o movimento.»
Dois tesouros numa só frase. Primeiro uma palavra desaparecida: pentear (peneirar), a finta preparatória, atestada já em 1906 na revista Kosmos e ainda em Burlamaqui em 1928: «jogar os braços em todos os sentidos na ginga, de modo a perturbar a atenção do adversário e preparar o melhor golpe». O simulacro tem o seu verbo há mais de um século. Depois uma genealogia técnica completa: esta velha rasteira, mãos no chão, é a que O.D.C. já distinguia da forma «moderna» de pé; a posição de joelhos, mãos ao chão, foi esboçada pelo desenhador austríaco Thomas Ender no século XIX; sobrevive hoje sob o nome de queda de quatro. Um gesto seguido passo a passo do Império aos nossos dias.
E a tese daí retira a correção capital: «ao contrário da ideia comummente aceite, a especificidade da luta nacional não é a existência de pontapés, mas o uso das mãos como apoios para golpear com o pé, para se deslocar ou esquivar.» Jogo de pernas, todas as escolas do mundo têm. Mãos que se tornam pés, é aí que começa a capoeiragem.
O quengo, «como o golpe dos carneiros»
«A cabeçada ou cocada exige muito exercício para ser dada com eficácia: o quengo (a cabeça) era jogado como uma bola, pelo impulso do corpo, a uma distância de um metro mais ou menos, como o golpe dos carneiros; aqui se verificava a agilidade do executante e o domínio seguro que fazia evitar falhar o alvo…» Faltando o qual, adverte o autor com a sua veia de caricaturista, arriscava-se a «bater com a caixa dos pensamentos na parede mais próxima».
Esta cabeçada lançada à distância, «como os carneiros», tem também o seu pedigree: é exatamente o Jogar capoera descrito por Rugendas um século antes, «dois campeões lançam-se um contra o outro, e procuram golpear com a cabeça o peito do adversário […] precipitando-se um contra o outro, grosso modo como fazem os bodes». Os capoeiras que Pederneiras observava da sua varanda praticavam a cabeçada à maneira dos escravos do período colonial, antes de a variante moderna, o combate próximo, se impor.
Um artigo de revista, seis nomes de golpes, dois desenhos de época em apoio, e a continuidade técnica entre o Império e a República, estabelecida gesto a gesto. Os arquivos do corpo existem. Basta saber lê-los.
FONTES
Pederneiras, R., «A defesa nacional», Revista da Semana, 7 maio 1921; Kosmos, 1906; Cordeiro, C., Kosmos, 1906, Biblioteca Nacional do Brasil. O.D.C. (1907); Burlamaqui (1928), p. 42. Rugendas; Ender, Th. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.5.
NO CORPUS
→ O caricaturista que aprendeu capoeira da sua janela
→ Vencer caindo, tocar sem tocar
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. «Um contra meia dúzia»: o manual ilustrado de 1921. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 38. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/um-contra-meia-duzia-o-manual-ilustrado-de-1921 [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.