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CARIBE · GUADELOUPE

Os escravizados batiam-se por regras, num sistema que não tinha nenhuma

6 MIN DE LEITURA

Proibido já em 1683, ritualizado até à preparação dos bastões, regulado onde a violência do sistema esclavagista não conhecia regra: o mayolè guadalupense subverte tudo o que julgamos saber sobre os combates dos escravizados

POR QUE ESTE ARTIGO

O primeiro retrato científico do duelo guadalupense. Refuta o estereótipo da brutalidade por uma comparação documentada, e traça a genealogia africana da prática até ao seu próprio nome, mayombo, mayombé, mayolè. É a primeira urgência do programa do BCAI: o mayolè caminha para a extinção.

Atestado pelo texto que o proíbe

O que sabemos dos combates que os escravizados travavam entre si nas Caraíbas? O imaginário comum oscila entre duas imagens: a rixa brutal de corpos estupefactos pela servidão, ou o folclore pitoresco das velórias. As fontes, submetidas à crítica, refutam ambas.

Comece-se pela atestação, pertence a um paradoxo documental que se encontra ao longo de toda a história das práticas dominadas: o primeiro rasto escrito é uma proibição. O regulamento do Conde de Blénac e do Intendente Bégon, datado de 13 de fevereiro de 1683, prevê: «Que aos ditos escravos seja proibido realizar qualquer assembleia de dia ou de noite sob pretexto de casamentos ou de outro modo, quer em casa do seu senhor quer noutro lugar, e menos ainda nas estradas principais, nos caminhos ou nos lugares afastados onde travam combates de desafio.»

Leia-se este texto pelo que revela apesar de si: combates de desafio, em lugares afastados, frequentes e organizados o bastante para que a administração colonial legisle. A prática precede o seu primeiro rasto escrito, e esse rasto é uma proibição. O padrão é familiar. É o que a capoeira brasileira conheceria dois séculos mais tarde. A proibição como certidão de nascimento documental: o primeiro parentesco entre os membros da família das artes de combate negras.

Um artesanato do duelo

Ultrapassado o limiar da proibição, o que revelam os arquivos? Uma arte de pleno direito, códigos, simbologia, técnicas. Nada que se assemelhe a uma rixa improvisada.

A prova mais eloquente reside na preparação das armas: um verdadeiro artesanato ritual, repartido por várias semanas. A madeira era escolhida pela sua rigidez e pela sua flexibilidade. Um ritual fixava o momento do corte, o endurecimento pelo fogo, o repouso do bastão antes do duelo. O último terço era coberto por um pedaço de couro no qual se cravavam tachas; na outra extremidade, uma correia de couro impedia o combatente de perder a arma durante o assalto. E os bastões eram «carregados»: pó de maman-bila, inserido no interior com um verrumão, graças ao qual, segundo as crenças, as hipóteses de vencer eram quase certas. A arma do mayolè não era um pau apanhado do chão. Era um objeto técnico e mágico, preparado, carregado, personalizado.

O ritual envolvia também os corpos. Antes do combate, os combatentes tocavam a terra com um dedo, batiam no peito e olhavam para o céu, outros tantos sinais de um apelo às forças divinas. A terra, si mesmo, o céu. O duelo abria-se sobre uma liturgia.

A violência estava do lado dos senhores

Resta o preconceito mais tenaz: o da brutalidade. Há primeiro que interrogar as testemunhas. «Recorde-se que, nesta época, os negros eram considerados uma raça inferior próxima da animalidade. A descrição dos seus costumes sofria, por conseguinte, destes preconceitos.» Ler essas descrições ao pé da letra é renovar o seu olhar.

No termo desta crítica, a constatação: «estes duelos eram de facto sem perigo e, mais geralmente, a expressão de uma cultura de combate elaborada.» Vem então a comparação que resolve a questão, e que vira do avesso a acusação de barbárie: «comparados com a violência exercida no interior da colónia pelos senhores, queimaduras, amputações, esquartejamentos, chicotadas, os duelos entre negros escravizados eram policiados. A violência era dominada. O sangue não pode mascarar a ausência de traumatismo real nos corpos dos combatentes. E quando os ânimos se inflamavam, antes que o combate degenerasse em rixa, os combatentes eram separados.»

Tudo reside no ponto de comparação. O duelo de bastão, com as suas regras e os seus limites, até à separação dos combatentes quando os ânimos se inflamavam, desenrolava-se dentro de um sistema cuja violência não conhecia nem regra nem limite. O duelo civilizado estava do lado dos escravizados. A barbárie, do lado do sistema que os retinha.

Um deus no nome de um bastão

Resta a questão das origens. Resolve-se por uma investigação que é tanto filologia como história. Segundo Moreau de Saint-Méry, os duelistas usavam «bastões chamados mayombo». E na outra ponta da cadeia, uma fonte do fim do século XIX descreve, no Congo, em Boma, durante cerimónias em honra de um morto «para que obtivesse o paraíso», duelos de bastão entre «palmas, danças estranhas acompanhadas de cantos que terminam sempre com a palavra ‹Mayombé› […] Mayombé que significa deus».

Mayombo. Mayombé. Mayolè. «A proximidade dos termos, a África como ponte entre os dois, o número muito elevado de escravizados» deportados para Guadalupe traçam a genealogia: uma palavra que viaja de Boma a Basse-Terre, um gesto que atravessa o Atlântico nos corpos, um deus alojado no nome de um bastão.

O mayolè não é um folclore local. É um arquivo vivo da deportação, e um dos membros fundadores da família das artes de combate negras. É também, hoje, uma prática «prestes a morrer». A primeira urgência do programa.

FONTES

«Règlement de MM. le comte de Blénac et Bégon sur la police et autres matières concernant les esclaves des îles d'Amérique», 13 de fevereiro de 1683. Moreau de Saint-Méry. Flamme, J., Dans la Belgique africaine : notes de voyage, Bruxelas, A. Lesigne, 1908. Malo, O., Une tradition guadeloupéenne défigurée : le Mayolè comme « corps-mémoration » de l'esclavage à la fin du XXe siècle, dissertação de mestrado em História, Université des Antilles, 2012. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Abertura, secção B.1.

NO CORPUS

→ A capoeira não está sozinha no mundo

→ Como salvar uma arte moribunda sem matar o que a mantém viva

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Os escravizados batiam-se por regras, num sistema que não tinha nenhuma. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 17. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/os-escravizados-batiam-se-por-regras-num-sistema-que-nao-tinha-nenhuma [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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