top of page

THE ARCHIVE · HISTÓRIA

O combate que todos citam e ninguém leu

5 MIN DE LEITURA

O combate mais famoso da história da capoeira cabe inteiro num artigo de <i>O Paiz</i> publicado no dia seguinte. Lido por inteiro, revela pormenores que o mito alisou: o quimono imposto, os pés descalços, o parietal direito, e a combatividade do vencido

POR QUE ESTE ARTIGO

A secção Arquivo do corpus assenta num princípio: um documento, uma história. Este é o documento fundacional da disciplina, a fonte primária da cena de 1.º de maio de 1909. Lê-lo linha a linha é ver o que os relatos em segunda mão perderam.

Um regulamento feito para o japonês

Antes do primeiro segundo do combate, tudo já estava escrito, contra Cyriaco. Ambos os homens vestem o quimono: a direção do teatro impõe-no, «de modo a permitir ao japonês projetar, imobilizar ou estrangular o adversário mais facilmente». O combate está marcado para um único assalto. Quase todas as técnicas são permitidas: pontapés, projeções, chaves articulares, estrangulamentos, todo o repertório do jiu-jitsu. Um carregador de café de trinta e oito ou trinta e nove anos, vestido com o trajo do adversário, sob as regras do adversário, perante um profissional de vinte e oito anos que ensina há doze. E um pormenor que a fonte preserva: «Cyriaco estava descalço.»

«Ora saltava como um gato»

Eis a cena, tal como O Paiz a descreve a 2 de maio, a fonte primária de que deriva tudo o que sabemos: «Cyriaco […] desenvolveu o seu ataque: ora saltava como um gato, ora se abaixava tanto que parecia estar sentado. O japonês esperava o momento do ataque; contudo, Cyriaco, fazendo uma flexão rápida, desferiu-lhe um pontapé violento, um rabo de arraia na gíria da capoeiragem […] que provocou a queda imediata do japonês. Cyriaco estava descalço. Foi um delírio de aplausos. O mestre japonês ficou imóvel alguns segundos, e o seu adversário pronto para a defesa ou o ataque. Sada Miako levantou-se, por fim, disposto a continuar o combate. Cyriaco renovou o golpe, que quase matou de novo o japonês […]. Então, Sada Miako deu-se por vencido e abandonou a arena.»

O texto original especifica o que as traduções omitem: o golpe atinge «de encontro ao parietal direito». O rabo de arraia, equilibrar-se sobre as mãos e golpear com ambos os pés o rosto ou o corpo, alcança o crânio do professor.

Por que Myako nunca o viu chegar

A fonte permite uma análise técnica que o mito nunca faz. O japonês, nota a tese, «ficou sem dúvida desconcertado, apanhado de surpresa. Foi incapaz de detetar, nos movimentos do adversário, o mínimo indício das suas intenções ofensivas.» Um soco no rosto, um pontapé no corpo, esses um professor de jiu-jitsu sabe antecipar. Mas um homem que salta como um gato, quase se senta, depois bascula sobre as mãos para golpear com ambos os pés: nada, na gramática do jiu-jitsu, prepara para ler esses sinais. A vitória de Cyriaco não é um milagre. É o efeito de uma linguagem gestual ilegível para o adversário, a primeira demonstração pública do que a tese nomearia, um século depois, a lógica interna do jogo.

A honra do vencido

O documento preserva também o que o relato patriótico apagou: a combatividade de Myako. Primeiro rabo de arraia: queda imediata, alguns segundos de imobilidade, depois o professor levanta-se, «disposto a continuar o combate». Ainda grogue, «determinado a inverter a relação de força». É preciso um segundo golpe, que «quase matou de novo o japonês», para que admita a derrota e deixe a arena. Dois rabos de arraia no crânio. Um adversário que se levanta entre eles. O 1.º de maio de 1909 não foi uma execução: foi um combate, e o vencido mostrou uma coragem que a fonte regista sem reservas.

O rabo de arraia torna-se o emblema do jogo

As consequências cabem em duas linhas da tese. Depois de 1.º de maio de 1909, «o rabo de arraia tornou-se o golpe emblemático da luta nacional no lugar da rasteira e da cabeçada. A capoeira tornava-se, a partir de então, uma disciplina aérea, espetacular e acrobática.» E esta espetacularização teve uma repercussão inesperada: movimentos tão difíceis de executar não se aprendem sozinho. «Jovens de boas famílias que desejavam obter a mesma destreza que o herói nacional Cyriaco tinham necessariamente de tomar aulas.» A proeza de um carregador de café descalço criou, numa noite, a necessidade social do professor de capoeira.

Uma noite de maio de 1909. Dois golpes desferidos no crânio de um professor. E a trajetória técnica de toda uma disciplina, reorientada.

FONTES

«Os matchs do International. Jiu-Jitsu versus capoeiragem. Victoria do sport nacional», O Paiz, Rio de Janeiro, 2 maio 1909, p. 2 (português original citado na tese); «Jiu-jitsu vencido pela capoeiragem», Gazeta de Noticias, 2 maio 1909, p. 6, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.2.

NO CORPUS

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

→ Vencer caindo, tocar sem tocar

→ O outro mestre japonês, aquele que a história esqueceu

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O combate que todos citam e ninguém leu. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 24. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-combate-que-todos-citam-e-ninguem-leu [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

bottom of page