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HISTÓRIA · MYTHS

Terão os capoeiras vencido a Guerra do Paraguai?

4 MIN DE LEITURA

A narrativa quer que a destreza dos capoeiras tenha decidido a guerra que fundou a nação (1864–1870). Um historiador, interrogado já nos anos 1960, respondera, e a sua resposta cabe numa linha que o mito nunca quis ouvir

POR QUE ESTE ARTIGO

O mito do Paraguai é o segundo pilar da narrativa heroica da capoeira, depois do da resistência escrava. Como ele, tem um autor, Luiz Murat, e, como ele, foi verificado e depois refutado. Este artigo restitui o nascimento da narrativa, o seu deslize para a lenda, e o veredito do historiador.

Uma guerra que fez a República

A guerra contra o Paraguai (1864–1870) não é um episódio entre outros: «A Guerra do Paraguai apressou o fim do Império. Foi precisamente em 1870 que o manifesto republicano foi lançado. Sobretudo, a guerra criara um espírito de corpo militar até então inexistente no Brasil» (Bennassar e Marin). Ligar a capoeiragem a esta guerra era, portanto, ligá-la ao ato fundador da nação republicana. Foi exatamente o que Luiz Murat fez.

A versão de Murat: a faca

A sua versão original merece atenção, pois é mais precisa, e mais plausível, do que a lenda que dela derivou. Segundo Murat, a destreza dos capoeiras no manejo da faca dava-lhes uma superioridade manifesta no combate próximo. E, ao contrário de outros, não via na faca ou na navalha qualquer desnaturação da prática: a esgrima era parte integrante da cultura da capoeiragem, tendo as armas sido primeiro introduzidas, segundo ele, «como ferramenta pedagógica para melhorar a mobilidade e as esquivas».

Esta versão foi rejeitada, não por inexatidão, mas por impropriedade: numa sociedade empenhada na eufemização da violência, um herói de navalha não era apresentável. O que se manteve foi a ideia sem as armas: capoeiras desarmados, empenhados num combate desigual contra soldados armados, prevalecendo apenas pela destreza. «De uma história plausível, tal como contada por Luiz Murat, houve um deslize para o conto lendário, o de David contra Golias.» A separação operara mais uma vez: o mito manteve a coragem e cortou a faca.

A pergunta de Rego, a resposta do historiador

O baixo grau de plausibilidade do conto não escapou a ninguém. Nos anos 1960, Waldeloir Rego interrogou Raimundo Magalhães Júnior, o autor de O negro brasileiro na guerra do Paraguai, ou seja, o homem que precisamente estudara a questão, para dissipar as suas dúvidas. A resposta é inequívoca: «É provável que capoeiristas negros tenham participado na Guerra do Paraguai, naturalmente, sem usar esta arte, mas como fuzileiros, atiradores, etc.» Capoeiras na guerra: sim, provavelmente. A capoeira a vencer a guerra: não. Combateram aí como todos os soldados, com a espingarda.

Por que o mito sobreviveu ao veredito

A refutação tem meio século. O mito continua a circular. É que cumpre não uma função de conhecimento mas uma função de pertença: através dele, «a capoeiragem tornou-se o símbolo da luta histórica pela liberdade de todo um povo», e os seus portadores «heróis da nação brasileira, civilizada, moderna e republicana». Não se refuta um brasão com uma nota de rodapé. O trabalho do historiador permanece, no entanto: distinguir o que os capoeiras fizeram, servir, combater, morrer na guerra fundadora, daquilo que a narrativa os fez fazer. Os homens reais bastam para a honra. O conto serviu outros interesses que não os seus.

FONTES

Murat, L., «O jiú-jitzú e a gymnastica brasileira», A Noticia, abril de 1908; A Escola, 1908 (Biblioteca Nacional do Brasil). Magalhães Júnior, R., O negro brasileiro na guerra do Paraguai, interrogado por Waldeloir Rego (anos 1960). Bennassar, B. & Marin, R., Histoire du Brésil : 1500–2013, Fayard, 2014. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. B.1.

NO CORPUS

→ O homem que odiava os escravos e adorava a capoeira

→ Besouro de Mangangá, Mas Oyama, Ueshiba: por que as artes marciais fabricam deuses

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Terão os capoeiras vencido a Guerra do Paraguai?. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 29. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/terao-os-capoeiras-vencido-a-guerra-do-paraguai [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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