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HISTÓRIA · MYTHS

Reescrever o 1.º de maio: a contralenda do «moleque Cyrillo»

5 MIN DE LEITURA

Em 1930, a academia Gracie da rua Formosa ataca o combate fundador de 1909: Cyriaco teria golpeado enquanto o japonês saudava o público, embolsado 500$, depois fugido às desforras a 10.000$. Os arquivos refutam-no ponto por ponto, e revelam por que esta reescrita era vital para os recém-chegados

POR QUE ESTE ARTIGO

A batalha da comunicação precede a batalha dos ringues. Antes de esmagar os capoeiras na arena, era preciso destruir a sua prova histórica. Este documento de 1930 é a certidão de nascimento da guerra dos Gracie contra a capoeiragem, e um caso exemplar de fabricação de contralenda.

Uma academia com falta de alunos

A entrada carioca dos Gracie começa com uma confissão comercial. Depois de São Paulo, onde a exibição Carlos Gracie–Omori de 28 de abril de 1929 «teria sido arranjada por iniciativa da família Gracie», um empate combinado «contra uma remuneração importante» (Serrano), Carlos abre uma academia de jiu-jitsu na rua Formosa, dirigida por Donato Pires dos Reis. Algumas semanas depois, a 7 de setembro de 1930, um longo artigo promocional dá a palavra ao diretor: «Devo dizer-lhe, com uma certa amargura, que há ainda hoje muito poucos alunos brasileiros. Os estrangeiros dão muito mais importância a este magnífico meio de defesa pessoal do que nós. Estamos ainda num período em que se crê que a capoeira é a coisa mais bela em matéria de defesa pessoal.»

O inimigo comercial está nomeado. Segue-se o argumento de autoridade: «Sou instrutor de jiu-jitsu da polícia de Belo Horizonte e devo dizer-lhe que os indivíduos mais fortes e mais robustos, em particular os hábeis capoeiras, ficaram completamente desarmados em poucos minutos.»

A «lenda do Moleque Cyrillo»

Mas o obstáculo central continua a ser uma memória: 1.º de maio de 1909, sobre o qual «assentava a totalidade do sistema de provas dos partidários da capoeiragem». O artigo ataca-o frontalmente, num capítulo intitulado «a lenda do Moleque Cyrillo e do japonês»: «O japonês deleitava-se em fazer o Moleque Cyrillo cair agradavelmente. A certo momento, o Moleque Cyrillo aproveitou a oportunidade (porque o japonês estava a agradecer ao público), e nem mais nem menos, lançou um rabo de arraia à cabeça do japonês, que, naturalmente, apanhado de surpresa, ficou no chão… O patriotismo nacional vibrou! Moleque Cyrillo, num gesto inconfessável, venceu o japonês, ganhando 500$. Pois bem, o japonês desafiou então Cyrillo, oferecendo-lhe 1.000$, 2.000$, até 10.000$, para repetir o golpe… Cyrillo, apesar da sua vitória (?), nunca mais procurou o japonês…»

Um golpe traiçoeiro durante a saudação, um prémio confortável, uma fuga à desforra: em três traços, a proeza torna-se uma vigarice.

O desmentido dos arquivos, peça a peça

A tese confronta cada traço com as fontes de 1909. O contexto do combate? O público estava irritado contra o japonês «porque ele começara por recusar combater contra Cyriaco, certamente por causa da cor da sua pele». Uma «atmosfera algo elétrica, portanto certamente não propícia a poses ou a saudar o público a meio do combate», e a fonte de 2 de maio descreve dois rabos de arraia, com um adversário que se levanta entre os dois.

Os 500$? Cyriaco recebeu «18 mil réis», di-lo ele próprio à Gazeta de Noticias, «nomeadamente graças às moedas atiradas pelos espectadores no fim do combate». O homem estava numa situação tão precária que, para financiar o seu regresso a Campos, teve de organizar uma demonstração paga no pátio da faculdade de medicina, com a ajuda dos estudantes. A fuga às desforras? «Na necessidade, se lhe tivessem oferecido um prémio importante para enfrentar de novo Sada Miako, não teria hesitado um segundo.» E os arquivos mostram que, após a sua vitória, Cyriaco havia de combater o senegalês Dierry e o japonês Raku. Um homem que foge não multiplica os desafios.

Veredito: «as acusações de batota e de cobardia supostamente mostradas por Cyriaco, infundadas à luz dos factos, devem entender-se como a vontade dos professores da academia de jiu-jitsu de destruir a imagem positiva de que a capoeiragem gozava.»

Dois essencialismos em espelho

Uma última observação da tese evita o maniqueísmo: os dois campos «sustentavam o mesmo discurso». Para uns, o jiu-jitsu era superior por natureza; para outros, a capoeiragem, cada um brandindo os seus combates-prova, cada um crendo que «o método fazia o homem, independentemente do treino, da experiência ou da condição física». É esta simetria que tornava 1.º de maio tão perigoso para os recém-chegados: enquanto a prova adversa se mantivesse, a sua não bastava. Por isso 1909 tinha de ser reescrito. Os ringues fariam o resto.

FONTES

«O mais admiravel meio de defesa pessoal: - O Jiu-Jitsú», Diario de Noticias, 7 set. 1930; «Jiu-jitsu vencido pela capoeiragem», Gazeta de Noticias, 9 maio 1909; «Cyriaco o homem do ‹rabo de arraia› visita a faculdade de medicina», A Noticia, 17–18 maio 1909, Biblioteca Nacional do Brasil. Serrano, M., Géo Omori. O Guardião Samurai, 2009. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.1–A.2.

NO CORPUS

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

→ O combate que todos citam e ninguém leu

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Reescrever o 1.º de maio: a contralenda do «moleque Cyrillo». In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 46. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/reescrever-o-1-o-de-maio-a-contralenda-do-moleque-cyrillo [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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