Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · FIGURAS
O primeiro manual de capoeira foi assinado por um homem sem nome
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1885: um «distinto oficial do exército brasileiro, mestre de todas as armas» publica o primeiro manual técnico de capoeiragem, sob três iniciais que não são um nome. O livro descreve uma idade de ouro perdida, quatro golpes, duas guardas, e uma posição medida ao centímetro
POR QUE ESTE ARTIGO
O Guia do Capoeira é o texto fundador de toda a tradição escrita da disciplina. O seu autor, o seu anonimato, a sua receção gélida em 1885, a sua reedição oportuna em 1907, e até a história rocambolesca de como sobreviveu, tudo, neste opúsculo de dez páginas, conta o lugar exato da capoeiragem na sociedade brasileira. E as suas duas datas transformam um único livro num instrumento para datar o olhar de uma sociedade.
Três iniciais que não são um nome
Na capa do primeiro manual técnico alguma vez dedicado à capoeiragem figuram três letras: O.D.C. a fórmula dedicatória Oferecido, Dedicado e Consagrado (à distincta mocidade, «à distinta juventude»). O próprio autor permanece sem nome. Mas descreve-se: um «distinto oficial do exército brasileiro, mestre de todas as armas, instrutor de soldados e habilíssimo na ginástica defensiva ou verdadeira arte do capoeira».
Um instrutor militar, portanto, e o seu mundo pode ser reconstituído: os assaltos de armas da segunda metade do século XIX, aqueles terreiros de treino reservados aos oficiais do exército e da marinha onde a savate, o chausson e a capoeiragem eram por vezes programados lado a lado. É desta cultura do duelo, convenções, igualdade dos adversários, banimento da violência bruta, que procede a sua capoeiragem.
Por que nada assinar: 1885 e as maltas
O anonimato nada tem de recatado. Para o apreender, há que restituir o ano exato. Graças a uma fonte recuperada pela investigação, uma recensão publicada na Gazeta de Noticias de 21 de fevereiro de 1885, a primeira edição pode ser datada com firmeza de 1885, e não de 1907 como durante muito tempo se julgou.
E 1885 muda tudo. Nessa data, as maltas, os bandos armados de capoeiras, são ainda uma realidade viva e violenta nas ruas do Rio; a palavra capoeira é uma marca de infâmia. Propor, nesse clima, uma ginástica nacional construída sobre a capoeiragem era uma ideia quase lunar, desfasada do seu tempo ao ponto de parecer absurda. Defender publicamente a prática quando era sinónimo de bandos criminosos teria sido desonroso. Daí as três iniciais em lugar de um nome: o autor julga a capoeiragem digna de um manual, mas demasiado comprometedora para a assinar. Toda a ambiguidade do estatuto da prática está contida nesse paradoxo: estimada o bastante para ser codificada, demasiado sulfurosa para ser assumida.
«Uma obra curiosíssima»
A receção do livro é ela própria um documento, e a própria recensão que nos permite datá-lo. A Gazeta de Noticias de 21 de fevereiro de 1885 recebe «o primeiro fascículo de uma obra curiosíssima», nota que o autor «conserva o seu anonimato», credita-lhe um domínio profundo da matéria, e relata o seu objetivo declarado: erguer a ginástica brasileira «da abjeção em que jaz», elevando-a, como singularidade da pátria, ao lado do boxe inglês, da savate francesa e da luta alemã. O recensor tem então o cuidado de acrescentar que o título Guia do Capoeira não significa que a obra diga respeito «ao jogo vulgarmente conhecido por capoeiragem, tão em voga entre os desordeiros das ruas».
Está tudo aí: o reconhecimento da competência, a pura incongruência da proposta, «curiosíssima», e a precaução final, cuidadosa em dissociar o livro «do jogo dos desordeiros de rua». Em 1885, a ideia de uma ginástica nacional fundada na capoeiragem era inadmissível.
O mesmo livro, vinte e dois anos depois
Aqui as duas datas tornam-se um só argumento. O que era impublicável em 1885 tornara-se moda em 1907, e o mecanismo dessa reviravolta é precisamente o que as edições gémeas nos deixam ler.
Entre as duas datas, o mundo virara. As maltas tinham sido desmanteladas pela repressão dos anos 1890; em 1907 não passavam de uma má memória. E sobretudo, o primeiro campeonato público de capoeiragem tivera lugar em 1905–1906, seguido do triunfo de Cyriaco sobre o instrutor de jiu-jitsu da marinha em 1909. A capoeiragem deixava de ser a marca de criminosos notórios para se tornar um desporto de pleno direito. Assim, um editor reeditou o manual em 1907, o mesmo texto, inalterado, que a recensão de 1885 cita palavra por palavra, e é assim que sabemos que as duas edições são uma só obra. O livro não mudara. A sociedade sim.
É isto que faz do Guia mais do que um texto fundador: uma só obra, presa a duas datas, torna-se um instrumento para datar o olhar social sobre a capoeira, a sua passagem do infame ao respeitável. O que uma sociedade se recusa a imprimir, e o que consente em reeditar, mede a distância que percorreu.
Uma ironia da preservação completa a história. O original de 1885 está perdido. A versão sobrevivente, conservada no Instituto Moreira Salles no Rio e na Biblioteca Nacional de Portugal, não é de todo o original: é uma cópia integral, feita à mão nos anos 1920, entre os muros da Biblioteca Nacional, por um tal Annibal Burlamaqui. O autor do segundo manual (1928) a copiar o autor do primeiro: a cadeia escrita de transmissão da capoeiragem, apanhada em flagrante.
Uma idade de ouro perdida
O conteúdo do opúsculo surpreende pela sua melancolia. O.D.C. não descreve a capoeiragem do seu tempo: chora a que veio antes. «O capoeira de outrora, famoso pela riqueza dos seus movimentos variados, ofensivos e defensivos, era prudente e amigo da ordem. […] Uma degenerescência lenta e sucessiva começa a destruir as belezas desta Ginástica patriótica pela ausência dos últimos mestres notáveis. […] Hoje, o capoeira é representado pela desgraça vagabunda.»
Uma idade de ouro situada antes dos anos 1850, um declínio pelo desaparecimento dos mestres, um presente indigno: desde o primeiro manual, a capoeiragem é escrita no registo do passado saudoso. A investigação confirma o essencial: uma capoeiragem lúdica existiu de facto na primeira metade do século XIX, cronistas europeus atestam-no, antes de ser suplantada, no imaginário coletivo, pelo combate à faca das ruas.
Quatro golpes, duas guardas, cinquenta centímetros
A técnica do manual é de uma sobriedade militar: quatro movimentos ofensivos, um soco, uma bofetada, um pontapé às «partes viris», e uma rasteira em duas versões, antiga e moderna; duas posições de guarda; quatro modos de deslocamento; estratégias para atingir os olhos e a garganta. Até ao espaçamento da posição em primeira: entre 40 e 50 centímetros.
Esta capoeiragem básica e pragmática é a que Rugendas pintou e Thomas Ender esboçou no século XIX. Os movimentos de ampla amplitude em equilíbrio sobre as mãos, o futuro rabo de arraia, não aparecem: «surgiram provavelmente no seio das maltas», entre os jovens que consagravam o seu tempo ao jogo de rua. O manual destinava este método à «distinta juventude», para que se defendesse «sem o auxílio de armas e com os recursos naturais dos braços, da cabeça e dos pés», contra quem? Contra os capoeiras armados das ruas. O paradoxo fundador fecha-se já em 1885: capoeiragem ensinada a pessoas respeitáveis para que se protejam dos capoeiras.
FONTES
ODC, O Guia do Capoeira ou Gymnastica Brazileira, Rio de Janeiro, Livraria Nacional, 1907 [1885] (Instituto Moreira Salles; Biblioteca Nacional de Portugal), citações pp. 1–4 e capa. Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, 21 fev. 1885, p. 1 (Biblioteca Nacional do Brasil), datação da primeira edição. Rugendas; Ender, Th. (iconografia do séc. XIX). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.1.
NO CORPUS
→ A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. O primeiro manual de capoeira foi assinado por um homem sem nome. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 32. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-primeiro-manual-de-capoeira-foi-assinado-por-um-homem-sem-nome [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.