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HISTÓRIA · FIGURAS

O outro mestre japonês, aquele que a história esqueceu

4 MIN DE LEITURA

Dois professores de jiu-jitsu desembarcaram no Rio em dezembro de 1908, mandatados pelo Ministro da Guerra. A história guardou apenas o que perdeu para Cyriaco. O outro chamava-se Ume Kakihara, e a sua desistência precoce dos desafios diz muito sobre o que se tornara o comércio do invencível

POR QUE ESTE ARTIGO

Restituir as figuras secundárias é uma exigência de método: o mito simplifica ao guardar apenas um duelo e dois nomes. Kakihara, o seu embarque em Yokohama, as suas demonstrações, o seu abandono dos desafios, este é o contexto exato em que 1.º de maio de 1909 se torna possível.

Yokohama–Rio, junho–dezembro de 1908

A chegada do jiu-jitsu ao Brasil tem uma data, um navio e um contexto, que a tese restitui contra as lendas de náufragos. O contexto: a vitória militar do Japão sobre a Rússia (1904–1905). Uma das explicações avançadas para a supremacia japonesa era a eficácia do seu método de combate; o jiu-jitsu difundiu-se então pela Europa, França, Inglaterra, até aos Estados Unidos e à América do Sul: Bolívia, Argentina, Brasil.

No mesmo ano de 1908, em junho, o Kasato Maru abriu oficialmente a imigração japonesa para o Brasil, 781 migrantes contratados nas fazendas de café de São Paulo para colmatar a falta de mão de obra nascida da abolição de 1888. Os dois professores, contudo, não viajam com os migrantes. Contratados pelo Ministro da Guerra «para ensinar todas as subtilezas do seu método de educação física aos marinheiros aprendizes», Sakuzo Miura, o futuro «Sada Miako», e Ume Kakihara embarcam em Yokohama em junho de 1908 a bordo do navio-escola da Marinha brasileira, o Benjamin Constant, e desembarcam em dezembro. Dois funcionários do combate, chegados pela via oficial, num clima que a polémica de Luiz Murat contra o «jiú-jitzú» do ministro já tornava hostil.

Do Tir do Leme ao papel de Hércules

Desde a sua chegada, a par da sua missão na Marinha, os dois homens mostram-se: em janeiro de 1909, dão demonstrações de jiu-jitsu para os membros do Tir do Leme. Depois, em abril de 1909, Paschoal Segreto contrata-os no Pavilhão Internacional. Aí assumem um papel com história: o de Hércules, desempenhado no fim do século XIX pelos especialistas da luta greco-romana, e por eles desde então abandonado. O princípio: enfrentar amadores todas as noites, cinco libras de ouro a quem resistisse três minutos às projeções. Os combates sucedem-se. Um francês tenta a sua sorte, um português também. Nenhum prevalece.

O homem que se retirou

Aqui a trajetória de Kakihara torna-se um documento. «Após um combate difícil, o primeiro deixou de participar nestes desafios. Só Myako continuou a combater contra os homens fortes do Rio de Janeiro.» Um combate difícil, a fonte não diz mais. Mas a consequência institucional está registada: após a retirada de Kakihara, a regra muda. Os amadores devem agora aguentar não três mas dez minutos de pé para embolsar a soma. O ofício do invencível acabava de revelar a sua natureza: um dispositivo comercial, ajustável quando o risco aumentava.

Kakihara, ao retirar-se, deixou o colega sozinho perante os homens fortes do Rio, e perante aquele que, na noite de 1.º de maio, subiria descalço ao palco. O resto pertence ao artigo vizinho. Kakihara regressou à sua missão original: os marinheiros aprendizes da Marinha nacional, a razão por que dois professores japoneses tinham, um dia de junho de 1908, embarcado em Yokohama.

FONTES

«O ‹Benjamin Constant›», Jornal do Brasil, 17 dez. 1908; «Instrucção militar», Correio da Manhã, 14 jan. 1909; Jornal do Brasil, 17 abr. 1909; «Pavilhão Internacional», O Paiz, 19–20 abr. 1909, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro). Schpun, M. R., «L'immigration japonaise au Brésil», Cahiers du Brésil Contemporain, 71/72, 2008. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.2.

NO CORPUS

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

→ O combate que todos citam e ninguém leu

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O outro mestre japonês, aquele que a história esqueceu. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 25. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-outro-mestre-japones-aquele-que-a-historia-esqueceu [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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