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HISTÓRIA · FIGURAS

O homem que venceu Carlos Gracie, e foi agredido por três irmãos

4 MIN DE LEITURA

Manoel Rufino dos Santos subiu ao ringue na noite de 3 de julho de 1931 para desafiar os Gracie ali mesmo; a polícia teve de intervir. Venceu depois Carlos Gracie por duplo abandono. A 18 de outubro de 1932, três irmãos Gracie agrediram-no, e foram condenados pelos tribunais

POR QUE ESTE ARTIGO

O dossiê Rufino Santos é duplamente precioso: documenta uma vitória sobre Carlos Gracie que a lenda familiar não conta, e a resposta extradesportiva que suscitou. E o seu autor nem sequer era um capoeira, apenas um homem que se recusou a que as provas fossem viciadas.

O desafio de 3 de julho

Na noite do triplo combate, enquanto o público ruge, um homem surge no ringue: «desafiando os irmãos Gracie, para um combate de luta livre americana contra jiu-jitsu. Um desafio completamente deslocado naquele momento porque assumia o carácter de uma provocação que podia degenerar em rixa. A polícia teve de intervir, pondo termo ao tumulto que ameaçava.»

O homem é Manoel Rufino dos Santos, especialista de luta livre, animado nessa noite por «um grande ardor patriótico». Não é um capoeira, mas admira «esta disciplina essencialmente brasileira, que era necessário transmitir à juventude»: foi ele quem, em 1927, prefaciara o livro de Annibal Burlamaqui. E na imprensa, denunciava incansavelmente «o regulamento em manifesto desfavor dos professores do jogo nacional».

A vitória que a lenda ignora

A provocação de 3 de julho «foi o início das hostilidades entre o campo Gracie e o campeão de luta livre». Seguiu-se um combate, contra Carlos Gracie em pessoa. Resultado, registado pela tese: Carlos Gracie «foi declarado vencido após abandonar o ringue por duas vezes». O pai fundador do jiu-jitsu brasileiro, a deixar o ringue duas vezes perante um lutador de luta livre: a cena não pertence a nenhuma hagiografia. Pertence aos arquivos.

18 de outubro de 1932

O que se seguiu excede o desporto. «A 18 de outubro de 1932, Rufino Santos foi vítima de uma agressão perpetrada por três membros da família Gracie. Ficou gravemente ferido e os seus agressores foram condenados pelos tribunais por estes atos.» A primeira página do Diario de Noticias de 20 de outubro nomeia todos: «Prof. Manoel Rufino dos Santos, do Tijuca Tennis Club e da A.C.M., gravemente ferido. Os seus agressores foram os irmãos Helio, Carlos e Jorge Gracie.» O motivo, segundo a tese: «Os professores de jiu-jitsu não toleravam o questionamento da sua hegemonia expresso por Santos em muitas ocasiões nos jornais cariocas.»

Quanto pesa um processo judicial

Na economia da prova, o caso Rufino Santos ocupa um lugar à parte: uma condenação judicial não é um relatório desportivo contestável, é um facto estabelecido contraditoriamente. Ilumina retrospetivamente toda a sequência de 1930–1932: a contralenda de 1909, os contratos manhosos, os não-combates de 3 de julho, e por fim os punhos três contra um quando as palavras já não bastavam. A hegemonia nascente não tolerava a contestação, nem no ringue, nem nas colunas, nem na rua. O homem que melhor o compreendera não era nem capoeira nem teórico: um prefaciador de Burlamaqui, subido uma noite a um ringue para dizer não.

FONTES

«Os lutadores de jiu-jitsu venceram os capoeiras», Correio da Manhã, 4 jul. 1931; «O prof. Manoel Rufino dos Santos […] sériamente ferido. Foram seus aggressores os irmãos, Helio, Carlos e Jorge Gracie», Diario de Noticias, 20 out. 1932, Biblioteca Nacional do Brasil. Burlamaqui, A., 1928 (prefácio de M. Rufino Santos). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.2.

NO CORPUS

→ 3 de julho de 1931: o regulamento que proibia vencer

→ Sem os Gracie, não há roda moderna

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O homem que venceu Carlos Gracie, e foi agredido por três irmãos. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 49. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-homem-que-venceu-carlos-gracie-e-foi-agredido-por-tres-irmaos [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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