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HISTÓRIA · IDEAS

O homem que odiava os escravos e adorava a capoeira

5 MIN DE LEITURA

Luiz Murat, fundador da Academia Brasileira de Letras, inventou o mito da capoeira-resistência, no próprio artigo em que verteu um racismo biológico de violência inaudita. Compreender este paradoxo é ter em mãos a certidão de nascimento da narrativa dominante

POR QUE ESTE ARTIGO

O paradigma hegemónico da capoeira como ferramenta de resistência escrava tem um autor, uma data e um texto: Luiz Murat, 1908. Lê-lo por inteiro, incluindo as suas páginas insuportáveis, é compreender sobre que solo ideológico o mito foi construído, e por que teve de ser desconstruído.

Um académico que travava duelos de capoeira

Luiz Murat (1861–1929) não é um cronista obscuro: escritor, político, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. E praticava. Um episódio, ausente da literatura contemporânea, mostra-o: Murat travou um duelo de capoeira contra Sampaio Ferraz, ele próprio um capoeira, e chefe de polícia encarregado de erradicar a capoeiragem crapulosa das ruas nos primeiros anos da República. A aposta do duelo: as suas divergências sobre a política a seguir contra as maltas. Murat venceu.

Retenha-se a cena: o académico e o chefe de polícia anti-capoeira a resolver a sua disputa política… na capoeira. A disciplina oficialmente proscrita servia de arena às elites da República.

O texto-matriz: 1908

Em 1908, ao saber que a Marinha adota o jiu-jitsu japonês, Murat escreve ao Ministro da Guerra, que conhece pessoalmente, um apelo publicado em A Noticia (24 e 30 de abril), retomado por A Escola, depois republicado quinze anos mais tarde no Jornal do Brasil. «O ilustre Almirante, Ministro da Marinha […] pretende banir da sua pátria a ginástica brasileira, na qual se unem vantajosamente todos os outros exercícios, o jiú-jitzú, a savate, o punho, o bastão […] Quem o induziu neste erro; quem lhe mostrou as vantagens do jogo japonês sobre o nosso?» Para Murat, a importação do jiu-jitsu manifesta «a degenerescência da nação», essa propensão mórbida para imitar o estrangeiro em vez de fundar a grandeza nacional em coisas próprias.

Até aqui, um apelo nacionalista. O que se segue é de outra natureza.

As páginas insuportáveis

Pois o mesmo texto contém isto, que há que citar para compreender a época, e o solo do mito: «Os porões lúgubres e nauseabundos dos navios lançaram nas nossas costas o vómito africano, composto de elementos que influenciariam perniciosamente a nossa constituição étnica […] A raça africana: subalternizou-se […] Aceitou o jugo sem revolta; despojou-se de toda a dignidade […] Ajoelhou-se perante o senhor e trabalhou para o enriquecer. Era uma besta…»

O racismo biológico do fim do século XIX fala aqui sem disfarce, o mesmo racismo que, no Brasil, preconizava a imigração europeia para «embranquecer» a população. Murat era abolicionista, precisa a tese, «menos por filantropia do que por modernismo»: não se constrói uma nação moderna sobre o trabalho servil. E, no entanto, não é para a Europa que Murat se volta para regenerar a nação. É para o coração da própria população negra.

Os Minas, Palmares, e o nascimento do mito

No meio «desta raça estúpida», escreve, «destaca-se outra de valor, forte, intrépida, destemida, os Minas. Esses, sim, são valorosos: fundaram no século XVII em Pernambuco a república de Palmares, que, durante trinta anos, resistiu às invasões, aos ataques tenazes e incríveis dos brancos.» E a arma dessa resistência? «Uma das forças criadoras do aparelho de defesa da senzala contra o direito de vida e de morte que o chefe da fazenda detinha sobre o escravo era a capoeira, o instrumento que transformava o terreiro numa arena…»

A constatação da tese é decisiva: «O discurso de Luiz Murat parece ter sido escrito hoje, tão semelhante é à narrativa histórica sobre a capoeiragem, ensinada pelos mestres aos seus alunos.» O paradigma da capoeira-resistência «nasceu há mais de um século sob a pena de Luiz Murat», retomado palavra por palavra por Lothus e Aleixo em 1916, por Burlamaqui em 1928, por Pereira da Costa em 1962, até aos manuais de 2013.

O reconhecimento por amputação

O mito fundador da capoeira-resistência nasceu, assim, num texto que conjuga um culto dos Minas com o desprezo pela «massa servil», homenagem a uns escorada no insulto a outros. Não é um pormenor desajeitado: é a própria estrutura da operação. Para erguer a capoeira como símbolo da nação moderna, Murat teve de separar, antepassados nobres de um lado, um «vómito africano» do outro. O reconhecimento, desde o seu nascimento, procedeu por amputação. Um século mais tarde, a narrativa da resistência circula, órfã do seu contexto. Restituí-lo não é sujá-la: é devolver ao campo a possibilidade de construir sobre algo que não seja essa separação.

FONTES

Murat, L., «O jiú-jitzú e a gymnastica brasileira», A Noticia, 24 e 30 de abril de 1908; A Escola, Coritiba, jul.–set. 1908; «Gymnastica brasileira. Taverna e o cortiço» e «Camaradagem e solidariedade», Jornal do Brasil, 16 e 23 ago. 1924, Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. B.1.

NO CORPUS

→ Salvar a capoeira condenando os capoeiras

→ Besouro de Mangangá, Mas Oyama, Ueshiba: por que as artes marciais fabricam deuses

→ Terão os capoeiras vencido a Guerra do Paraguai?

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O homem que odiava os escravos e adorava a capoeira. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 28. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-homem-que-odiava-os-escravos-e-adorava-a-capoeira [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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