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HISTÓRIA · FIGURAS

O «gigante japonês» media um metro e cinquenta e cinco

4 MIN DE LEITURA

Formado no Kodokan pelo próprio Jigoro Kano, invicto em mais de cem combates profissionais nos Estados Unidos, Géo Omori desembarca em São Paulo em 1928 com trezentos combates atrás de si. É contra ele que a capoeiragem desportiva travará, e perderá, a sua primeira grande batalha

POR QUE ESTE ARTIGO

A história das derrotas de 1928–1929 não se compreende sem medir o adversário. Omori não era um professor de passagem: era um dos maiores lutadores profissionais do seu tempo. Restituir a sua estatura é dar o seu justo peso aos reveses brasileiros, e a sua dignidade à geração que ousou desafiá-lo.

De Kano a Queirolo

Géo Omori nasceu em Tóquio em 1895. Aos oito anos, entra no Kodokan, a instituição-mãe do judo, «sob a tutela do próprio Jigoro Kano e do professor Ito». Campeão escolar do Japão dois anos seguidos, 1911 e 1912. Faixa preta em 1915, aos vinte anos. Professor na Universidade Imperial de Tóquio. Depois a estrada: como muitos dos seus condiscípulos, parte para promover o jiu-jitsu Kano pelo mundo. Nos Estados Unidos torna-se lutador profissional e combate «mais de cem vezes, das quais saiu sempre vencedor».

Quando desembarca em São Paulo em 1928, o seu contador mostra «cerca de trezentos combates». O Circo Queirolo contrata-o de imediato contra os lutadores nacionais, vence-os a todos. A sua ficha física cabe em dois números que fazem sorrir os cronistas: 1,55 m, 66 quilos. A imprensa apelidá-lo-á, no entanto, o gigante japonês. Na arena, o tamanho media-se de outro modo.

A invencibilidade como fundo de comércio

Uma precaução crítica impõe-se, que a tese formula: «A invencibilidade, suposta ou real, era uma virtude que se transacionava nos teatros da cidade e atraía espectadores impacientes por ver o campeão cair.» Omori foi vencido pelo menos duas vezes no Brasil, e «recusava-se a reconhecer os seus combates perdidos». O cadastro perfeito pertencia ao marketing tanto quanto ao desporto; é o mesmo mecanismo comercial que o papel de Hércules desempenhado vinte anos antes por Miura e Kakihara. Contudo, «as suas poucas derrotas parecem hoje insignificantes ao lado das centenas de combates que venceu durante a sua carreira excecional». A máquina era real. É contra ela que Vasques, depois Feitósa, subiriam.

Um fim fulminante

Dez anos após a sua chegada, em 1938, Omori morre em condições que gelaram o país: «uma degradação tão súbita quanto fulgurante das suas faculdades cerebrais. Em poucos dias, o gigante japonês perdeu a vista, a fala e a razão antes de sucumbir.» Os médicos dividiram-se, intoxicação alimentar para uns, sequelas «dos combates violentos travados durante a sua prestigiosa e longa carreira internacional» para outros. A sua morte fez as manchetes, «Morreu Géo Omori», na primeira página do Jornal dos Sports de 3 de março de 1938, e a Federação Brasileira de Pugilismo prestou homenagem, dois dias depois, a «um dos maiores mestres de jiu-jitsu do mundo».

O Brasil enterrou com honras o homem que viera vencer os seus capoeiras. É talvez o sinal mais seguro de que, naqueles anos de arena, o adversário não era o inimigo: era a bitola.

FONTES

«Morreu Géo Omori», Jornal dos Sports, 3 mar. 1938; «A F.B. de Pugilismo a Géo Omori», Jornal dos Sports, 5 mar. 1938; Diario Nacional, São Paulo, out. 1928, Biblioteca Nacional do Brasil. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.1.

NO CORPUS

→ Sem os Gracie, não há roda moderna

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O «gigante japonês» media um metro e cinquenta e cinco. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 42. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-gigante-japones-media-um-metro-e-cinquenta-e-cinco [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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