top of page

HISTÓRIA · FIGURAS

O caricaturista que aprendeu capoeira da sua janela

4 MIN DE LEITURA

Jornalista, poeta, caricaturista, e delegado de polícia: Raul Pederneiras observou os capoeiras do Rio durante trinta anos, exibiu-se com Aleixo, e quase fundou com Cyriaco a primeira escola metódica do jogo. A morte do campeão decidiu de outro modo

POR QUE ESTE ARTIGO

Pederneiras é o quinto pedagogo do dossiê, e o mais singular: reúne todos os pontos de observação possíveis (a janela de infância, a esquadra, o palco, a imprensa). O seu projeto abortado com Cyriaco é um dos grandes «e se» da história da disciplina.

Todos os pontos de observação

Poucos homens terão visto a capoeiragem de tantas janelas, literal e figuradamente. Em criança, a sua dava para um terreiro dos capoeiras populares: aprendeu a observar. Em adulto, Raul Pederneiras tornou-se jornalista, caricaturista e poeta da Primeira República, e delegado de polícia no Rio, uma função que o fazia conviver, por dentro, com o meio criminoso onde a luta nacional se desenvolvia. Era, aliás, ele próprio um capoeira, «fino conhecedor das suas subtilezas técnicas».

O observador não ficou atrás do vidro. Nos anos 1920, deu demonstrações públicas para promover a disciplina ao lado do seu amigo Mario Aleixo, assim no festival desportivo de beneficência do campo do Villa Isabel F.C., a 13 de março de 1920.

O projeto Cyriaco

A sua tentativa mais ambiciosa ficou letra morta, e é um dos grandes encontros falhados desta história. Após a vitória de 1909, Pederneiras encontrou Cyriaco «a fim de sistematizar a capoeiragem e de montar aulas». O mestre «aceitou o projeto e trabalhava na sua realização quando a sua morte prematura pôs fim à iniciativa», é o próprio Pederneiras quem o relata, em 1931. Imagine-se por um segundo o que quase existiu: uma escola metódica fundada já nos anos 1910, com o próprio herói nacional como mestre, duas décadas antes de Bimba. A sistematização da capoeiragem não careceu de vontades. Careceu de tempo.

Trinta anos de escritos e desenhos

O seu maior contributo reside noutro lugar: «os seus escritos e desenhos publicados em vários jornais cariocas ao longo de um período de mais de trinta anos». Num país maioritariamente analfabeto, os seus desenhos, inéditos e realistas, foram o principal vetor popular de difusão da técnica. A peça central: «A defesa nacional» (Revista da Semana, 7 de maio de 1921), um verdadeiro pequeno manual técnico, o único da sua época a associar descrições detalhadas e ilustrações, e o terceiro elo da tradição escrita depois de O.D.C. (1885/1907) e antes de Burlamaqui (1928).

Um erudito que subiu ao palco, um polícia que defendeu os «foras-da-lei», um caricaturista que arquivou gestos: Pederneiras fecha o círculo dos cinco pedagogos, e prova, uma vez mais, que a capoeiragem da «proibição» se transmitia à luz do dia.

FONTES

Pederneiras, R., «O jogo da capoeira», Jornal do Brasil, 28 jun. 1931; «A defesa nacional», Revista da Semana, 7 maio 1921; A Rua, 11 mar. 1920, Biblioteca Nacional do Brasil. Dias, L. S., Quem tem medo da capoeira?, 2001 (sobre a função de delegado). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.5.

NO CORPUS

→ A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial

→ «Um contra meia dúzia»: o manual ilustrado de 1921

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O caricaturista que aprendeu capoeira da sua janela. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 37. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-caricaturista-que-aprendeu-capoeira-da-sua-janela [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

Politique de confidentialité

Mentions légales

Politique de cookies

bottom of page