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HISTORIOGRAFIA

Condenado antes de ser lido

5 MIN DE LEITURA

Jair Moura acusa-o de ter «desnaturado» a capoeira; Assunção de ter «apagado as tradições afro-brasileiras». O dossiê Burlamaqui revela um mecanismo que excede o seu caso: o juízo pela cor da pele, o eixo Rio–Bahia, e fontes primárias que quase ninguém relê

POR QUE ESTE ARTIGO

Antes de expor a obra de Burlamaqui, há que instruir o seu processo, pois é o processo, não a obra, que domina a literatura. Desmontá-lo peça por peça é também expor os três vieses que ainda governam a historiografia da capoeira.

Os motivos de acusação

«Em 1928, Aníbal Burlamaqui (sob o pseudónimo Zuma) publicou um opúsculo […] uma série de golpes e contragolpes de luta estrangeira, desnaturando-a […] A adoção destas orientações foi desastrosa para a capoeira dos nossos dias, que perdeu o seu carácter específico», Jair Moura, antigo aluno de Bimba, 1992. «A sua proposta apagou completamente as tradições afro-brasileiras da capoeira […] Tudo indica que a sua abordagem devia mais ao pensamento nacionalista dos militares, convictos da inferioridade cultural dos negros e dos africanos», Matthias Röhrig Assunção, 2014.

A constatação da tese: «nenhuma informação contida no livro permite tirar estas conclusões, pelo contrário.» E uma peça embaraçosa entra no dossiê: o mesmo Assunção escrevia em 2009 que se devia «dar a Burlamaqui o crédito de ter forjado o poderoso mito dos quilombolas a inventar a capoeira a partir de dentro». De um artigo para o outro, o apagador das tradições afro-brasileiras torna-se o seu mitógrafo. A flutuação trai o juízo a priori. Um pormenor saboroso: os reparos de Moura a Burlamaqui, desnaturação, golpes estrangeiros, são palavra por palavra os que os anos 1930 dirigiam a… mestre Bimba, o seu próprio mestre. «Houve uma transferência do estigma para a capoeiragem carioca.»

Primeiro viés: a cor da pele como veredito

Annibal Burlamaqui era branco. Numa visão do mundo que alinha negro-tradição-autenticidade de um lado e branco-modernidade-desnaturação do outro, este único dado basta para a condenação. A tese não nega que a desafricanização tenha existido, Lima Campos, por exemplo, recusava à capoeiragem qualquer origem africana em favor do «espírito inventivo do mestiço», saído diretamente das teorias racistas importadas da Europa. Mas estabelece a regra de método: «não é possível designar um homem como vetor desta ideologia apenas a partir da sua cor de pele. Elementos, seja no discurso seja nos atos, devem permitir confirmar ou refutar tais conclusões.»

E administra o teste pelo absurdo: os três maiores grupos de capoeira do mundo, Senzala, Abadá, Capoeira Brasil, foram fundados no Rio por brancos. «Dever-se-á concluir da sua pigmentação que estes propagadores da capoeira aos quatro cantos do mundo são racistas? As suas ações e os seus discursos supõem o contrário.» Simone Vassallo já advertia, desde 2001, contra estas análises dicotómicas.

Segundo viés: o eixo Rio–Bahia

Desde os anos 1960, a Bahia foi redefinida como «o lugar de preservação de uma identidade africana pura», o Rio como «o símbolo da modernidade, da deculturação». Tudo o que vem do Rio é julgado de antemão. A isto acrescenta-se uma sociologia da produção erudita: a maioria dos trabalhos vem da Bahia, escritos por mestres que foram alunos de Bimba, «muitas vezes portadores de um discurso apologético a seu respeito», que minimizam Burlamaqui «para manter intacto o culto de mestre Bimba, que eles próprios em parte criaram».

Daí o esquecimento de tudo o que precede a «revolução» baiana: os campeonatos de 1905 e 1913, Cyriaco, as academias de Lothus e Aleixo, Cadaval, a capoeiragem militar, as academias de Jayme Martins Ferreira e de Sinhôzinho, e as derrotas pungentes dos alunos de Bimba no Rio, no fim dos anos 1940. Até à própria «descriminalização», cuja data flutua consoante o autor, 1934, 1937, 1941: «prova da dificuldade de identificar o rasto escrito, sob a forma de um decreto ou de uma lei, do fim da proibição, que, no fim de contas, sem dúvida não existe!»

Terceiro viés: a ausência de regresso às fontes

O último mecanismo é o mais banal e o mais corrosivo: «muitas investigações não assentam no estudo das fontes primárias mas retomam o discurso já produzido sobre o tema.» O processo recopia-se de livro em livro. O quadro não é uniforme: Lácé Lopes documentou a vitalidade carioca dos anos 1940; antigos alunos de Bimba produziram obras objetivistas, a biografia por Muniz Sodré, o estudo de Abreu sobre as rodas baianas, a própria história carioca de Jair Moura; e Ana Paula Höfling (2012) mostra que uma superação é possível. Mas o a priori persiste até publicações de 2019.

A lição vale para lá do Brasil: quando os presumíveis fundadores de um campo controlam também a sua historiografia, a primeira tarefa do investigador é reler as peças que a narrativa oficial arquivou sem seguimento. O livro de 1928 foi uma delas. Os artigos seguintes abrem-no.

FONTES

Moura, J., in Capoeira, N., Capoeira: os fundamentos…, pp. 86–87. Assunção, M. R., História, Ciências, Saúde-Manguinhos, 21, 1, 2014; Antropolítica, 24, 2009, p. 32. Vassallo, S. P., tese EHESS, 2001. Lácé Lopes, A., A capoeiragem no Rio de Janeiro, 2002. Sodré, M., Mestre Bimba, 2002. Abreu, F. J. de, Bimba é Bamba, 1999. Höfling, A. P., dissertação UCLA, 2012. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. D.1.

NO CORPUS

→ A roda ou o ringue: a escolha oculta de um regulamento de 1928

→ «Quem tinha medo da capoeira?»

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Condenado antes de ser lido. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 39. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/condenado-antes-de-ser-lido [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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