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INVESTIGAÇÃO · PROGRAM

Como salvar uma arte moribunda sem matar o que a mantém viva

6 MIN DE LEITURA

As últimas páginas da tese não concluem, abrem. Duelos onde tudo e o seu contrário coexistem, práticas à beira da morte, um apelo a uma patrimonialização inteligente: o programa do Black Combat Arts Institute está já aí escrito

POR QUE ESTE ARTIGO

Este artigo mostra como uma tese se torna uma instituição: um balanço dos ganhos, uma elevação filosófica, um programa operatório, e limites assumidos, até à crítica dos seus próprios arquivos. Essa última operação não é uma fraqueza: é um critério de cientificidade.

O que a investigação estabeleceu

O que faz uma conclusão de tese quando não conclui? A conclusão de 2020 realiza três operações. A primeira é o balanço, que sustenta todo o arco da investigação. No fim do século XIX, a criminalização da capoeiragem «teve por efeito contingente a sua apropriação pelas elites, pelo povo e pelos pedagogos sob a sua forma lúdica». A prática deixou as ruelas malfamadas, tornou-se espetáculo e combate competitivo nos teatros, «dois campeonatos foram organizados em 1905 e 1913, provas da vitalidade desta capoeiragem pública». O teatro desta história foi o Rio, «o epicentro político, intelectual e cultural do país onde o mundo inteiro se encontrava: africanos, europeus e asiáticos», onde os negros brasileiros, através da sua perícia de combate, podiam transcender a sua condição social «e entrar de pleno direito numa sociedade brasileira positivista».

O que os duelos nos dão a pensar

A segunda operação eleva este balanço ao plano filosófico. Aqui a conclusão deixa de ser um resumo e torna-se um pensamento. As artes de combate negras carregam «uma complexidade raramente vista no campo das artes marciais e dos desportos de combate. Nos duelos kaleidoscópicos, tudo e o seu oposto coexistem num só e mesmo quadro regulador e espácio-temporal: tocar e não tocar, alçar voo e cair. Têm sentidos diferentes mas um valor comum. São a expressão desse entrelaçamento das culturas africanas com as culturas europeias e asiáticas.»

Vem então a pergunta que sustenta toda a conclusão, e a resposta que há que citar por inteiro, pois são talvez as linhas mais profundas da tese: «Como compreender os princípios de jogo paradoxais assentes numa desigualdade de partida e no reforço voluntário do risco de perder? Há sem dúvida que ver neles a história do forte contra o fraco. Traduzem a aceitação de uma relação de força altamente desequilibrada, a sua acentuação, e a sua superação pelo jogo, pela fantasia. Perante a morte, viver aceitando o seu destino e ao mesmo tempo recusando-o no último momento. O risco de perder não é nem ocultado nem sequer evitado: é aceite e magnificado. As artes de combate negras levam-nos a pensar um mundo multidimensional, feito de contradições e de paradoxos aparentes que se entrelaçam para devolver vida à complexidade da existência. Jogar com o destino para se libertar dele.»

As propriedades técnicas do jogo, a desigualdade assumida, o risco voluntariamente aumentado, revelam-se ser a transposição lúdica de uma condição histórica: a de homens e mulheres que, perante uma relação de força sem esperança, fizeram do próprio desequilíbrio a matéria da sua arte. Aceitar o destino. E recusá-lo no último momento.

O programa

A terceira operação é o programa, e nasce de um diagnóstico de urgência: «Estes duelos complexos ou paradoxais, por essa mesma complexidade, desapareceram (o manì cubano) ou estão prestes a morrer, como o mayolè e o bènaden guadalupenses.» A frase contém uma explicação: é a complexidade destes jogos, a sua riqueza paradoxal, difícil de transmitir e de institucionalizar, que os torna mortais. As práticas simples normalizam-se e sobrevivem. Os duelos kaleidoscópicos morrem daquilo que faz o seu valor.

Donde o programa: «Chegou talvez o momento de inscrever estas artes de combate negras num duplo processo de redefinição das suas finalidades e técnicas e de preservação da sua estrutura ludomotora profunda e extraordinária. Patrimonializar com lucidez e inteligência, para que, mesmo num futuro distante, o estudo etnográfico possa sempre substituir-se à história…» Cada termo se apoia num ganho da investigação. Redefinir e preservar: a lição de Burlamaqui, a redefinição fiel. Patrimonializar com lucidez: conhecer as armadilhas documentadas uma a uma, a folclorização que congela, o apagamento das versões concorrentes, o espetáculo sem estrutura.

Uma tese que critica os seus próprios arquivos

Resta a última operação, a mais reveladora: os limites assumidos, «outras tantas vias para investigações posteriores». O foco carioca, «contra a investigação centrada na Bahia», mas permite esta inversão superar uma história regional? A pergunta fica em aberto. Os próprios arquivos de imprensa, apesar da sua profusão: «estas fontes só refletem parcialmente a realidade. A vitalidade cultural, no seio dos estratos sociais mais baixos, não recebe atenção particular. […] Que dizer da capoeira praticada nas favelas, entre pessoas da mesma condição social cujas finalidades não são nem políticas nem económicas? Não sabemos nada, ou quase nada, dela.» E o agrupamento das práticas sob a rubrica das artes de combate negras, que «resta consolidar, prática a prática, terreno a terreno».

Meça-se a simetria: a tese aplica às suas próprias fontes a crítica que opôs às fontes policiais da historiografia. Também a imprensa tem os seus pontos cegos, e dizê-lo faz parte da demonstração. Uma abordagem que expusesse apenas o viés dos arquivos adversos seria uma polémica. Uma que expõe ambos é uma ciência.

Historicizar as práticas vivas. Documentar as lógicas internas antes da extinção. Consolidar a categoria comparativa. Patrimonializar sem trair. Este programa é o roteiro do Black Combat Arts Institute, sendo a sua primeira urgência o estaleiro guadalupense do mayolè. A tese não concluiu. Transformou-se numa instituição.

FONTES

Coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): avaliação crítica dos arquivos de imprensa mobilizados (1884–1955). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Conclusão geral.

NO CORPUS

→ Os escravizados batiam-se por regras, num sistema que não tinha nenhuma

→ A capoeira não está sozinha no mundo

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Como salvar uma arte moribunda sem matar o que a mantém viva. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 22. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/como-salvar-uma-arte-moribunda-sem-matar-o-que-a-mantem-viva [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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