top of page

HISTÓRIA · ATLANTIC

A noite em que todos os golpes foram permitidos

5 MIN DE LEITURA

6 de outubro de 1909: pela primeira vez na capital, um combate de regras abertas, «todos os golpes proibidos, mesmo os habituais nos combates livres do Senegal». O «combate senegalês» Smykal–Dierry inaugura a <i>luta livre</i>, o antepassado carioca do combate livre moderno

POR QUE ESTE ARTIGO

A genealogia oficial do combate livre, vale-tudo, MMA, ignora o seu primeiro capítulo. Tem uma data, um lugar, dois nomes e um regulamento publicado na imprensa. Este artigo restitui-o peça a peça, com a hibridação de estilos que os cronistas de 1909 já descreviam nos termos da capoeiragem.

Um húngaro impopular, um senegalês irresistível

A edição de 1909 do campeonato internacional de luta greco-romana tem lugar poucas semanas após a proeza de Cyriaco, no próprio teatro que o consagrou. E algo transborda o quadro. Certos combates libertam-se da forma canónica fundada apenas nas preensões. A 5 de agosto, O Paiz nota-o: «3.º combate, Smykal, húngaro, 110 kg contra Massetti, italiano de 106 kg. Este combate não foi realmente uma luta greco-romana […] um combate de cabeçadas, quedas, socos […] Este último usou mesmo o nosso pontapé, como arma defensiva.»

Smykal é o homem de quem o público não gosta: violento, contrário às regras e à ética desportiva, mas a sua maneira de combater, notam os jornalistas, evoca a capoeiragem. Dierry N'Diage, por seu lado, é o homem que o público adora: «o público entusiasmava-se quando Dierry aplicava algumas bofetadas» (16 de setembro). Dois lutadores que o regulamento greco-romano já não contém. O empresário Paschoal Segreto tira daí as consequências.

O regulamento aberto

Por razões de organização e para responder às expectativas do público, Segreto oficializa os combates livres, luta livre, com um regulamento aberto: todas as técnicas normalmente proibidas são permitidas. «Foi uma novidade na capital.» Os dois combatentes escolhidos para inaugurar o género: Smykal e Dierry, «conhecidos pela sua inclinação para este tipo de exercício». O aviso de imprensa de 1 de outubro fixa a regra em toda a letra: «neste combate entrarão todos os golpes proibidos, mesmo os habituais nos combates livres do Senegal.» O combate é batizado o «combate senegalês». A luta senegalesa associava então projeções e golpes de mão aberta, precisamente os que, na viragem dos anos 1970, seriam suplantados pelas técnicas do boxe inglês. Em 1909, no coração do Rio, entra no campeonato.

«Ninguém sabia bem se era uma tourada»

O relato do duelo é um documento para antologia: «Dierry, na arena, não tinha preço; ora parecia um palhaço, ora um excelente capoeira […] gingando firmemente, e outras vezes saltando, defendendo-se com rara galhardia […] Smykal, sempre a dançar como um velho urso, lançando-se contra Dierry, sempre a fugir da maneira mais cómica possível […] Ninguém sabia bem se era uma tourada, uma rinha de galos, um jogo de boxe, ou uma alta capoeiragem tal como era mesmo empregada por Dierry.»

Dois traços apontam diretamente para o universo do jogo brasileiro: o gingando, a ginga, esse balanceio de vaivém e de um lado para o outro, reconhecido pelos cronistas no corpo de um lutador senegalês, e a derrisão do adversário, a marca dos capoeiras da «Belle Époque» (a idade de ouro anterior a 1914). Outro relato enumera o arsenal: «Os primeiros golpes foram bofetadas ao estilo brasileiro, pontapés e cabeçadas infernais.»

A França também entra na arena

A luta livre nascente absorve tudo o que passa. Um combate é anunciado sob o título «savate francesa», entre Raymond Caseaux e Aimable de la Calmette. E o cronista do duelo dos dois franceses nota isto, que vale o seu peso em ouro: «Pontapés, cabeçadas e um simulacro de rasteira foram os golpes empregados no combate.» O simulacro e a rasteira, duas palavras do léxico da capoeiragem, servem agora para descrever dois campeões franceses. O anúncio de outro combate resume a mistura numa frase: «sendo permitidos todos os tipos de preensão, da capoeiragem desta terra ao boxe e às armadilhas japonesas.»

Japão, Brasil, Europa, Senegal: nestas tábuas nasce uma prática híbrida, e ainda tem futuro: a 14 de março de 1917, um torneio anuncia um «combate livre, com o direito de usar os golpes da luta brasileira, a capoeira», entre o francês «Le Marin» e o campeão brasileiro «Silva». A luta livre não nasceu nos anos 1930. Nasceu em outubro de 1909, de um combate senegalês, perante um público que nele reconhecia a sua própria capoeiragem.

FONTES

Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): «Luta Romana», Gazeta de Noticias, 1 out. 1909; «Luta romana», A Imprensa, 6 out. 1909 («Match senegalense»); Jornal do Brasil, 6 e 8 out. 1909; O Paiz, 5 ago., 16 set. e 8 out. 1909. Charlemont, J., La boxe française [1877]. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. A.3.

NO CORPUS

→ 1903–1909: atletas negros como iguais nas arenas do Rio, e a luta livre que daí nasceu

→ O campeão que se recusou a lutar contra um homem negro

→ «Irmãos de raça»: o combate que nunca aconteceu

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. A noite em que todos os golpes foram permitidos. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 26. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-noite-em-que-todos-os-golpes-foram-permitidos [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

Politique de confidentialité

Mentions légales

Politique de cookies

bottom of page