Black Combat Arts Institute.
HISTÓRIA · POLÍTICA
«A escravidão não terá sobrevivido?»
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Entre 1970 e 1984, a capoeira deixa de ser um mero desporto nacional para se tornar um lugar de memória da escravatura e uma luta pela igualdade real. O relato de uma bifurcação, desencadeada por um paradoxo que ninguém podia já ignorar
POR QUE ESTE ARTIGO
Como é que uma prática corporal se torna uma causa política? A década 1970–1984 permite uma resposta precisa, e explica tudo o que se seguiu: a inscrição na UNESCO, as academias nos cinco continentes, e a via agora aberta ao mayolè, ao bènaden e ao danmyé.
O que a ditadura conseguiu
Comecemos por uma constatação incómoda. No fim dos anos 1960, o Estado militar brasileiro impõe uma desportivização em marcha forçada da capoeira. Os regulamentos adotados no início dos anos 1970 obrigam à sua objetivação: critérios mensuráveis, pontos, categorias. E resulta: «Graças a uma política coerciva, o Estado conseguiu onde Burlamaqui, Sinhôzinho, Bimba, os seus contemporâneos e os seus seguidores tinham falhado.» Meio século de projetos de codificação levados por entusiastas nada dera. A coação estatal consegue-o em poucos anos.
A adesão é geral: os velhos mestres baianos da regional e da angola, a nova geração, os professores da Senzala, encorajados pelo Conselho Nacional de Desportos e pelas federações de boxe que então governavam a disciplina. O espírito global da época faz o resto: «Os professores e capoeiristas, levados por um incrível Bruce Lee e pelo sucesso das artes marciais asiáticas, transformaram a capoeira na arte marcial brasileira.»
No fim dos anos 1970, a capoeira contemporânea, um híbrido dos estilos carioca e baiano, moldado pelas artes de combate asiáticas, reina. Dois grupos, Olodum e Senzala, levam este «duplo e oposto movimento de espetacularização e de reforço da dimensão combativa». Mas estes dois grupos são também outra coisa: «o reflexo do questionamento, no fim dos anos 1970, de uma sociedade brasileira apresentada como democracia racial, mas que na verdade discriminava os negros social, política e culturalmente.» Essa contradição está prestes a fazer bascular tudo.
O paradoxo que já ninguém podia ignorar
O contexto, primeiro. A ditadura fica sem fôlego; muitos mestres rejeitam o modelo federal, «tanto mais rejeitado quanto fora imposto pela ditadura militar». E o mundo inteiro se move: «a descolonização generalizada então em conclusão em África e nas Caraíbas, o movimento dos direitos cívicos dos negros americanos, a criação do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978, a emergência de uma reflexão crítica sobre o passado esclavagista das nações europeias e americanas.» No Brasil, a constatação social é brutal: os negros permanecem «vítimas de desigualdades gritantes na habitação, na saúde, no trabalho e na educação. A escravidão não terá sobrevivido?»
É então que irrompe um paradoxo documentado. No início dos anos 1980, a Senzala e o Olodum, fervorosos promotores da cultura negra, são compostos maioritariamente por membros brancos das classes abastadas do Rio e de Salvador. «Os negros, conscientemente ou não, eram excluídos da capoeira, definida, no entanto, como uma das expressões mais autênticas da cultura brasileira originária de África. Aí residia o paradoxo.»
O investigador Alejandro Frigerio formula-o sem rodeios, a propósito de um manual ilustrado da época: «A mensagem é muito clara: a Capoeira como cultura pertence aos negros (e aqui apenas os movimentos de base, e outros já obsoletos) e a Capoeira como desporto (com técnicas mais complexas) pertence aos brancos.»
Cultura para os negros. Desporto para os brancos. A democracia racial brasileira, resumida na paginação de um manual.
Uma conceção que domina todas as outras
A resposta a este paradoxo foi o nascimento de uma nova conceção da capoeira. E a sua natureza exata merece atenção. A conceção política que aparece no início dos anos 1980 «não se acrescenta às conceções desenvolvimentista, desportiva e cultural. Domina-as e transforma o seu sentido profundo, a partir de uma crítica radical e racializada do mundo, de inspiração marxista.»
A distinção é essencial. As conceções anteriores tinham-se empilhado, cada uma acrescentando a sua camada de sentido. A conceção política redefine retroativamente cada camada: o desporto, a cultura, o desenvolvimento do corpo tornam-se os terrenos de uma só e mesma luta pela igualdade.
A sua ambição é explícita: «permitir que os afrodescendentes, e a cultura de que são os garantes, sejam tratados em pé de igualdade. Este projeto passa por uma revisão completa da escola, o lugar considerado a ferramenta mais poderosa de reprodução da desigualdade.» A capoeira entra na escola como «luta pós-colonial ao serviço de uma revalorização da cultura negra», transformada «num lugar de memória do tráfico e da escravidão: um livro aberto sobre as atrocidades sofridas pelos negros e sobre o seu valor».
1984, o ponto sem retorno
A tese detém a sua investigação em 1984. A escolha é ela própria uma declaração: nessa data, a transformação está consumada, irreversível. Tudo o que se segue desenrola-se na esteira dessa década, a inscrição da capoeira na lista do património da UNESCO em 2014, as academias nos cinco continentes, até às leis de quotas universitárias de 2012. A capoeira deixou de ser meramente brasileira para se tornar uma arte da diáspora negra mundial.
E esta bifurcação esboça, para os outros membros da família, um horizonte agora praticável: a via política e teórica que o mayolè, o bènaden e o danmyé podem tomar por sua vez.
FONTES
Frigerio, A., «Capoeira: de arte negra a esporte branco». Areias, Frigerio, Tavares (produções dos anos 1980). IBGE, «Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil», Estudos e Pesquisas, n.º 41, nov. 2019. Lei n.º 12.711, 29 ago. 2012. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte III, cap. B–C e Conclusão geral.
NO CORPUS
→ «Quem tinha medo da capoeira?»
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. «A escravidão não terá sobrevivido?». In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 09. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-escravidao-nao-tera-sobrevivido [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.