top of page

HISTÓRIA · ÁFRICA

A defesa em «leque»: quando um mestre de 2013 confirma um livro de 1928

4 MIN DE LEITURA

Acusado de ter apagado as tradições afro-brasileiras, Burlamaqui descreveu no seu livro o batuque, os seus ataques, bahu, rapa, e uma defesa «em leque» que um velho mestre iniciado no batuque executará identicamente, perante as câmaras, oitenta e cinco anos depois

POR QUE ESTE ARTIGO

Esta é a refutação técnica do processo de embranquecimento: o codificador de 1928 é uma das nossas melhores fontes escritas sobre a luta africana do Rio. E o seu testemunho corrige, de passagem, um erro dos folcloristas sobre a geografia do batuque.

Bahu e rapa

Abra-se o livro de 1928 nas suas páginas defensivas. Duas técnicas de ataque são aí tratadas que não vêm da capoeiragem mas do batuque, «luta que consistia em atirar o adversário ao chão por golpes nas pernas». O bahu: levantar o adversário com um impulso da bacia; a defesa recomendada, um pequeno salto de lado ou para trás para esquivar a carga. O rapa: um varrimento da perna do adversário dado de pé; e para se defender: «Defende-se abrindo os pés em forma de ‹leque›, golpe comummente usado nos ‹batuques›.»

Teria um autor que quisesse «apagar as tradições afro-brasileiras» ensinado aos seus leitores como se apara nos batuques?

A prova pela imagem, oitenta e cinco anos depois

O que se segue pertence à história das fontes. Em 2013, o documentário Jogo de corpo. Capoeira e ancestralidade interroga velhos mestres iniciados no batuque. Um deles executa, perante a câmara, a defesa de perna «em leque», «tal como descrita por Zuma, oitenta anos antes». O gesto atravessara o século por dois canais independentes: o corpo dos praticantes, e a página do codificador. A sua concordância valida ambos, e faz do livro de 1928 um documento etnográfico de primeira ordem sobre a luta africana do Rio.

O batuque não era só do Nordeste

Zuma entrega mais um dado, que os arquivos confirmam: os sambas de luta, danças antigas «ainda em uso no Norte», tinham segundo ele desaparecido do Rio ou estavam em vias de extinção. Implicação decisiva: tinham, portanto, existido aí. Os folcloristas, ansiosos por singularizar cada região, distinguem hoje o «batuque da Bahia» e a «pernada carioca», «é claro que esta oposição é recente e produto dos folcloristas».

Os arquivos de imprensa imperiais e republicanos examinados pela tese mostram que o batuque se praticava também no Rio; os residentes que ouviam os escravos divertir-se por baixo das suas janelas «não tinham necessidade de precisar a origem carioca do fenómeno». A urbanização acelerada e uma legislação mais coerciva do que noutros lugares explicam sem dúvida o seu desaparecimento relativo, ou o seu deslocamento para as periferias. As duas antigas capitais partilhavam uma cultura africana comum. É o Rio que a perdeu primeiro, e é um presumível «embranquecedor» que registou os seus últimos rastos técnicos.

FONTES

Burlamaqui, A., Gymnastica nacional (capoeiragem) methodisada e regrada, 1928, p. 45 (bahu, rapa, defesa em leque; sambas). Pakleppa, R., Röhrig Assunção, M. & Peçanha, C., Jogo de corpo. Capoeira e ancestralidade, filme documentário, 87 min, 2013. Arquivos de imprensa imperiais e republicanos, Biblioteca Nacional do Brasil (batuque no Rio). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. D.2.

NO CORPUS

→ O livro de 1928 que o seu autor mal escreveu

→ A roda antes da roda: uma descrição de 1916

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. A defesa em «leque»: quando um mestre de 2013 confirma um livro de 1928. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 41. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-defesa-em-leque-quando-um-mestre-de-2013-confirma-um-livro-de-1928 [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

Politique de confidentialité

Mentions légales

Politique de cookies

bottom of page