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HISTÓRIA · PEDAGOGIA

A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial

6 MIN DE LEITURA

Um instrutor militar anónimo, um higienista, um professor de jiu-jitsu, um antigo delinquente tornado teórico, um caricaturista de imprensa: cinco homens codificaram e ensinaram a capoeiragem muito antes da sua «reabilitação» oficial

POR QUE ESTE ARTIGO

A história atribui a Mestre Bimba, nos anos 1930, o mérito de ter feito da capoeira um método ensinável. Os arquivos contam outra coisa: a metodização começa em 1885, no Rio. E cinco trajetórias independentes que convergem não podem ser cinco exceções.

O manual que ninguém ousou assinar

1885. Cinco anos antes da criminalização da capoeiragem. Um instrutor do exército publica o primeiro manual técnico alguma vez dedicado à prática: O Guia do Capoeira ou Gymnastica Brazileira. Será reeditado em 1907. O autor assina com três iniciais: O.D.C.

Esse anonimato é ele próprio um documento. Um militar julga a capoeiragem digna de um manual, mas demasiado comprometedora para lhe apor o nome. Toda a ambiguidade do estatuto da prática reside neste paradoxo: estimada o bastante para ser codificada, demasiado sulfurosa para ser assumida.

A história material do texto acrescenta uma ironia. A versão de 1907, a única acessível aos investigadores, conservada no Instituto Moreira Salles no Rio e na Biblioteca Nacional de Portugal, não é o original: é uma cópia integral, feita à mão nos anos 1920, entre os muros da Biblioteca Nacional, por um tal Annibal Burlamaqui. O futuro codificador de 1928 a copiar o codificador de 1885: a cadeia escrita de transmissão da capoeiragem, apanhada em flagrante.

Para O.D.C., a tese cabia num título: a capoeiragem era ginástica brasileira em essência.

O exército, viveiro inesperado

O segundo homem avança de rosto descoberto. Ribas Cadaval, um «higienista militar», não destina a sua ginástica brasileira à sociedade civil: quer fazer dos soldados da nação «os émulos dos japoneses, se não mais ágeis e mais fortes». O seu pragmatismo corta as querelas do purismo: combinar a capoeiragem com técnicas de jiu-jitsu, para dotar o país de um método superior ao japonês.

E não estava só. Já em 1905, no prefácio da tradução portuguesa do Japanese Physical Training de Hancock, o tenente Santos Porto encorajava o desenvolvimento da capoeiragem, «uma excelente ocasião para vencer as reticências perante os exercícios de agilidade, que não só fortalecem mas multiplicam os meios de defesa».

A instituição militar, supostamente a encarnação da ordem que reprimia os capoeiras, abrigava os promotores mais metódicos da capoeiragem. No próprio coração do exército encontramos a distinção que toda esta história impõe: os capoeiras perseguidos, a capoeiragem estimada.

O colecionador, o teórico, o caricaturista

O terceiro homem vem do campo oposto. Mario Aleixo considera-se antes de mais professor de jiu-jitsu. Mas a vitória de Cyriaco, em 1909, muda o seu olhar: começa «a colecionar os golpes esquecidos da capoeiragem, em silêncio, sem que ninguém o soubesse». O resultado dessa colheita discreta: a cabeçada, as rasteiras (rasteira, banda), a tesoura, a baiana e o pontapé a meia-altura entram no seu método. Chega a inventar um movimento que batiza «guayamú», em homenagem a uma das mais célebres maltas do Rio. A homenagem de um codificador aos bandos de rua.

O quarto homem, Raphael Lothus, sustenta um discurso inédito entre os mestres, e surpreendentemente próximo das conceções contemporâneas. Para ele, a capoeiragem é «o jogo das florestas de África transportado para o Brasil», enraizado em duas danças africanas praticadas em solo brasileiro: o batuque e a mandinga. O seu artigo de 1916 reabilita a cultura africana, refuta as acusações de magia negra, restitui a dignidade de danças executadas «em honra dos deuses». A sua biografia é ela própria um argumento de método: delinquente notório tornado trabalhador honesto e propagador influente, Lothus é irrecuperável só a partir dos arquivos policiais, que dele teriam retido apenas o delinquente, nunca o teórico.

O quinto, Raul Pederneiras, reúne tudo: jornalista, caricaturista, poeta, delegado de polícia, e ele próprio um capoeira, formado desde a infância a observar um terreiro visível da sua janela. Dá demonstrações públicas com Aleixo nos anos 1920. Aborda Cyriaco, depois de 1909, para metodizar o jogo, projeto que a morte do mestre interrompe em 1912. E publica, ao longo de mais de trinta anos, escritos e desenhos na imprensa carioca. A sua obra-prima, «A defesa nacional» (Revista da Semana, 7 de maio de 1921), é um pequeno manual técnico, o único da sua época a combinar descrições detalhadas e ilustrações.

Cinco exceções não fazem cinco exceções

Façamos as contas. Um soldado anónimo. Um higienista. Um profissional do combate. Um teórico de origens africanas. Um jornalista-caricaturista. Cinco vias, militar, higienista, desportiva, cultural, jornalística, sem concertação atestada, convergindo para a mesma empresa: a capoeiragem escrita, ensinada, desenhada, metodizada, décadas antes da sua «reabilitação» oficial.

Cada caso, isoladamente, poderia passar por exceção. Mas a probabilidade de cinco trajetórias independentes serem cinco exceções é pequena. A sua convergência estabelece um facto social: uma capoeiragem pública, estimada, transmissível existia no Rio da «proibição». É uma das peças-mestras do dossiê.

FONTES

Arquivos e coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): cópia por Burlamaqui do manual de O.D.C.; Lothus, R., «O que é a capoeiragem. Rehabilite-se esse jogo nacional», A Noite, 9 jan. 1916; Pederneiras, R., «A defesa nacional», Revista da Semana, 7 maio 1921; «Pela industria nacional», A Rua, 12 dez. 1915; A Rua, 11 mar. 1920; «O jogo da capoeira», Jornal do Brasil, 28 jun. 1931. O.D.C., O Guia do Capoeira ou Gymnastica Brazileira, Rio de Janeiro, Livraria Nacional, 1907 (Instituto Moreira Salles / BN Portugal). Hancock, H. I., Educação Fisica Japoneza, trad. Santos Porto e Radler d'Aquino, Rio de Janeiro, 1905. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte I, cap. C.1–C.5.

NO CORPUS

→ A proibição que não foi

→ A roda ou o ringue: a escolha oculta de um regulamento de 1928

→ O maní está morto. Serão os campeões de boxe de Cuba os seus herdeiros?

→ O primeiro manual de capoeira foi assinado por um homem sem nome

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. A capoeira teve mestres e manuais muito antes do seu «renascimento» oficial. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 11. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-capoeira-teve-mestres-e-manuais-muito-antes-do-seu-renascimento-oficial [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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