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EPISTEMOLOGIA · TEORIA

A capoeira não foi «inventada», foi reescrita, uma e outra vez

6 MIN DE LEITURA

O conceito mais famoso de Hobsbawm revolucionou o estudo das tradições. Aplicado às práticas dos povos outrora colonizados, produz um efeito perverso documentado. Impõe-se um deslocamento, proposto por um investigador que ele próprio usara o conceito

POR QUE ESTE ARTIGO

Este artigo fornece o vocabulário teórico do corpus: como estudar as tradições dos povos outrora colonizados sem as congelar no imutável, ou fazê-las passar por «falsas»? A resposta cabe numa palavra: redefinida, em vez de inventada. E num conceito destinado a desenvolvimento: as tradições da inovação.

Um conceito que tudo mudou

O que faz um conceito aos objetos que descreve? A pergunta merece ser colocada a um dos conceitos mais férteis das ciências sociais: a «tradição inventada» de Eric Hobsbawm.

Recorde-se a sua força. Hobsbawm mostrou que muitos objetos culturais que reivindicam uma filiação direta com o passado são, na realidade, construídos a partir de disputas contemporâneas: «As tradições inventadas opõem-se às tradições autênticas não por serem fabricadas […] mas por a sua continuidade com o passado ser apenas fictícia, e por perseguirem objetivos que já não são de todo tradicionais.» Nesta aceção, a capoeira é de facto uma tradição inventada: dotada de uma base secular, foi incessantemente redefinida para responder às exigências do seu tempo.

O conceito irrigou todo o campo: os estudos fundadores de Pires, Soares, Reis e Vassallo sobre a capoeira; o moring da Reunião (Combeau-Mari); o gouren bretão (Epron); os barcos tradicionais das Antilhas (Pruneau, Dumont); as danças marfinenses cuja «modernidade e criatividade» Yaya Koné sublinhava contra «a imagem ainda prevalecente de uma imutabilidade das culturas africanas». A tese vai ao ponto de nele ver «uma verdadeira revolução no sentido de Thomas Kuhn».

E há que dizê-lo, pois dá ao que se segue o seu peso particular: o autor da tese pertencia ele próprio a essa escola. O seu trabalho sobre a capoeira (2008), depois sobre o mayolè (2012), mobilizava o paradigma da invenção. O deslocamento que se segue não é a acusação de um adversário. É o acerto de contas de um praticante com o seu próprio conceito.

O efeito perverso da palavra «invenção»

Dentro do campo científico, a ideia de que tudo é construído não choca ninguém, mesmo os factos científicos o são, como Latour e Woolgar mostraram. Aí, a palavra «invenção» nada desqualifica. Fora desse campo, as coisas são diferentes. «É infelizmente possível, ao apor o termo invenção a um objeto cultural, enfraquecer a sua importância ou o seu alcance. Uma prática cultural inventada ou secular é uma realidade social que assenta em mulheres e homens investidos na sua preservação ou desenvolvimento.»

E o efeito é máximo precisamente onde as práticas reparam: «o estudo das tradições abraçadas pelas populações dominadas através do paradigma da invenção pode conduzir, indiretamente, a uma desvalorização dessas práticas no próprio momento em que ajudam a devolver um enraizamento cultural, uma história e um orgulho a pessoas ainda estigmatizadas ou marginalizadas.» Dizer «inventado» do gwoka, do mayolè ou da capoeira é arriscar ser entendido como dizendo «falso».

O risco não é especulativo. Avanza e Laferté mostraram que as fórmulas construtivistas «depressa fazem passar por falsas as identidades, tradições e memórias analisadas pelo investigador», tendo os seus proponentes sido «acusados de estender a dominação dos brancos e de minar a legitimidade cultural das elites indígenas». O vocabulário forjado para emancipar o olhar pode restabelecer a própria hierarquia que devia desfazer.

Redefinir não é inventar

O deslocamento apoia-se em Benedict Anderson, que localizara o erro: assimilar «invenção» a «fabricação e falsidade, em vez de a imaginar e criar». Pois «não há comunidade que não seja imaginada. As comunidades distinguem-se, não pela sua falsidade ou autenticidade, mas pelo estilo em que são imaginadas.» Se toda a comunidade é imaginada, a imaginação já nada desqualifica. É a própria matéria da vida cultural.

Donde a fórmula: «A capoeira é uma tradição secular de origem africana, incessantemente redefinida, preferimos este termo ao de invenção, ao longo do século XX. O passado foi repensado, remodelado, até transformado, para responder a exigências contemporâneas.»

Meça-se o que a substituição muda. «Inventada» sugere fabricação, ficção, uma rutura mascarada. «Redefinida» reconhece três coisas ao mesmo tempo: uma continuidade real com a herança africana, algo se transmite, que é redefinido; a agência dos atores, cada redefinição responde racionalmente a condições históricas precisas; e a criatividade como forma de fidelidade, «as múltiplas redefinições da capoeira exprimem a inventividade, a criatividade dos atores». A história fornece a prova pelo exemplo: a codificação de Burlamaqui de 1928, moderna de fio a pavio, e fiel no seu centro.

Nem celebração nem suspeita

O deslocamento não autoriza qualquer relaxamento crítico. A dupla exigência mantém-se: «não renunciar a desvelar certos mecanismos de reconstrução ou de reescrita da história», e «evitar cair no excesso oposto, de simplificar a realidade pensando os objetos culturais apenas à luz da sua rutura com o passado». Nem celebração ingénua do imutável. Nem suspeita sistemática de fabricação.

Esta terceira via receberá, no trabalho posterior do BCAI, um nome: as tradições da inovação. A inovação permanente não como traição da tradição, mas como a sua forma mais elevada.

FONTES

Hobsbawm, E. & Ranger, T. (orgs.), The Invention of Tradition (ed. fr. Amsterdam, 2012). Babadzan, A., Journal de la Société des océanistes, 109, 1999. Anderson, B., Imagined Communities (ed. fr. La Découverte, 2014). Latour, B. & Woolgar, S., Laboratory Life (ed. fr. La Découverte, 1996). Avanza, M. & Laferté, G., Genèses, 61, 2005. Combeau-Mari, É. & Ratsimbazafy, E. (2006); Epron, A. & Robène, L. (2006); Pruneau, J., Dumont, J., Célimène, N., Ethnologie française, 2006; Koné, Y., Staps, 101, 2013. Malo, O., Mestrado STAPS 2008 e Mestrado em História 2012, Université des Antilles. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Introdução geral.

NO CORPUS

→ A roda ou o ringue: a escolha oculta de um regulamento de 1928

→ O berimbau: uma «tradição imemorial» mais recente do que pensamos

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. A capoeira não foi «inventada», foi reescrita, uma e outra vez. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 10. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-capoeira-nao-foi-inventada-foi-reescrita-uma-e-outra-vez [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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