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INVESTIGAÇÃO · FUNDAÇÃO

A capoeira não está sozinha no mundo

6 MIN DE LEITURA

Mayolè, bènaden, danmyé, batuque, tolona, manì: da Guadalupe a Madagáscar, uma família de jogos de combate partilha os mesmos fundamentos e princípios de jogo. É a descoberta central da tese, e a certidão de nascimento das artes de combate negras

POR QUE ESTE ARTIGO

Este artigo apresenta o resultado sobre o qual assenta todo o campo: a capoeira pertence a uma família técnica. O ponto decisivo é o fundamento escolhido, a semelhança dos jogos, e não apenas a história partilhada da escravidão. É isso que faz da categoria um instrumento científico, e não um mero agrupamento comemorativo.

Uma pergunta que ninguém fazia

A capoeira é singular, todos concordam. Mas será única no mundo? A pergunta parece incongruente. A tese fá-la, e o estudo comparado responde: não. A capoeira pertence a uma família que inclui o mayolè e o bènaden (Guadalupe), o danmyé (Martinica), o batuque (Brasil), o tolona (Madagáscar) e o manì (Cuba). Essa família tem agora um nome: as artes de combate negras.

O ponto decisivo é o fundamento da categoria. Assenta, «mais do que em semelhanças sócio-históricas (populações negras, escravidão, tráfico), na semelhança técnica dos jogos em questão», «fundamentos e princípios de jogo semelhantes, sem equivalente no campo das artes marciais e dos desportos de combate».

A nuance é capital. Agrupar estas práticas por terem sido criadas por populações deportadas teria sido legítimo, mas frágil: uma história partilhada não garante um parentesco de formas. O critério adotado é mais exigente, a estrutura ludomotora, isto é, a maneira como o jogo organiza os corpos, os papéis e os desfechos. A história partilhada torna-se então a explicação do parentesco. Não o seu critério.

Porque é que este parentesco permaneceu invisível para mais de um século de investigação? Quatro razões conspiram: os observadores especializam-se numa única prática; o corpo é um objeto de estudo recente, abordado sobretudo como superfície de disputas sócio-políticas; no Brasil, a análise técnica da capoeira passa por reducionismo biológico; e os raros estudos técnicos descrevem apenas os gestos visíveis, nunca os princípios que os organizam. Ninguém viu a família, porque cada um olhava apenas para um dos seus membros.

O duelo de bastão e o jogo brasileiro

A tese resume o que está em jogo com uma pergunta deliberadamente provocadora: «o que poderia ser mais diferente da capoeira brasileira do que o duelo de bastão guadalupense (mayolè)?» Tudo os separa na aparência, a arma, o oceano, o século. Quase nada os separa em profundidade.

O mayolè é um duelo secular, de mãos nuas e com o bastão, atestado já em 1683 pelo regulamento colonial que o proíbe. As suas armas eram preparadas semanas antes, a madeira escolhida, endurecida ao fogo, «carregada» com pó de maman-bila. E contra a violência sem limites do sistema escravista, queimaduras, amputações, chicotadas, «os duelos entre negros escravizados eram policiados. A violência era dominada.» O seu próprio nome é um arquivo: mayombo em Moreau de Saint-Méry, «Mayombé que significa deus» nos duelos de bastão observados em Boma, no Congo, mayolè em Guadalupe.

O bènaden, a sua prática irmã guadalupense, é o caso exemplar do método. Pela sua lógica interna, situa-se longe da capoeira, só o polo do toque nele existe. Mas partilha com a capoeira o princípio do convite à ruptura, «o fundamento estrutural profundo sobre o qual assenta a capoeira»: «tal como a sua congénere brasileira, o bènaden está inteiramente construído sobre esta dinâmica.» E a semelhança do seu chamamento à ruptura com a chamada da capoeira é «espantosa».

A fórmula que o resume vale para toda a família: «técnicas simples e princípios de jogo complexos.» O parentesco joga-se ao nível dos princípios, não à superfície das formas.

A volta pela família

O danmyé martinicano apresenta o perfil completo: «lógica interna kaleidoscópica e princípios desportivos». O tambor anuncia o espetáculo; seguem-se improvisações dançadas e acrobacias; depois o ritmo muda, e os lutadores procuram golpes e projeções, «um dos lutadores levanta o adversário e derruba-o no chão, aclamado pela multidão» (Michalon, 1987). Os seus balanceios, filmados por Katherine Dunham em meados dos anos 1930, evocam a ginga.

O batuque brasileiro está atestado desde pelo menos o início do século XIX. Em 1916, o mestre Raphael Lothus descrevia-o como intrinsecamente ligado à capoeiragem, «o jogo das florestas de África transportado para o Brasil».

O manì cubano, hoje extinto, «possuía o conjunto completo dos fundamentos estruturais das artes de combate negras». Combinava socos e pontapés, e pertencia, com a capoeira, o danmyé e o moring da Reunião, ao círculo mais completo da família: os jogos de dupla dimensão, vertical e horizontal.

O tolona malgaxe, por fim, estende a categoria ao oceano Índico. A família epousa a própria geografia das deportações: as Caraíbas, a América do Sul, o oceano Índico.

Uma família em vias de morrer

O inventário fecha-se sobre uma constatação que muda a natureza do projeto. «Estes duelos complexos ou paradoxais, pelo próprio facto dessa complexidade, desapareceram (o manì cubano) ou estão prestes a morrer, como o mayolè e o bènaden guadalupenses. Chegou talvez o momento de inscrever estas artes de combate negras num duplo processo: uma redefinição dos seus fins e técnicas, e uma preservação da sua estrutura ludomotora profunda, extraordinária. Patrimonializar com lucidez e inteligência…»

Fundar a categoria. Documentar os seus membros antes da extinção. Preservar a sua estrutura sem os trair. É, precisamente, a missão do Black Combat Arts Institute.

FONTES

«Règlement de MM. le comte de Blénac et Bégon sur la police […]», 13 de fevereiro de 1683. Moreau de Saint-Méry. Flamme, J., Dans la Belgique africaine, Bruxelas, 1908. Michalon, J., Le ladjia : origine et pratiques, Paris, Éditions Caribéennes, 1987. Lothus, R., A Noite, 9 jan. 1916 (Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro). Ortiz, F. (sobre o manì). Malo, O., Une tradition guadeloupéenne défigurée, dissertação de mestrado em História, Université des Antilles, 2012. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Abertura, secções B.1–B.3.

NO CORPUS

→ Vencer caindo, tocar sem tocar

→ Os escravizados batiam-se por regras, num sistema que não tinha nenhuma

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. A capoeira não está sozinha no mundo. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 08. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/a-capoeira-nao-esta-sozinha-no-mundo [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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