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HISTÓRIA · EVENTS

3 de julho de 1931: o regulamento que proibia vencer

5 MIN DE LEITURA

Quedas não contadas, golpes ao rosto proibidos, um ringue de seis metros em parquet nu: no campo do Botafogo F.C., três capoeiras da Marinha enfrentam os professores de jiu-jitsu sob regras em que nenhuma vitória lhes é possível. O público, enganado, acaba em tumulto

POR QUE ESTE ARTIGO

O combate triplo de julho de 1931 passa pela prova da superioridade do jiu-jitsu. A análise do regulamento demonstra o contrário: uma configuração em que, estruturalmente, o capoeira não pode vencer. É a peça central do dossiê das «derrotas», e uma lição sobre o que as regras fazem às verdades desportivas.

Os «melhores dos melhores»

Anunciados já em maio, disputados a 3 de julho de 1931 no campo do Botafogo F.C., os três combates desencadeiam a imprensa: os capoeiras são «os melhores e mais perfeitos dos mais perfeitos e melhores que já existiram em todos os tempos no Brasil.» O ênfase vende bilhetes, mas a qualidade dos homens é real. Membros da Marinha nacional, formados na academia de Jayme Martins Ferreira, são saudados pelo melhor perito da época, Raul Pederneiras: «Manuel Tito Fereira, o Mané, de músculos educados e destreza invejável; Eduardo José de Sant'Anna, o Coronel, bem proporcionado de corpo e muito ágil; Oséas, muito calmo e sorridente […]; Antonio Fereira de Menezes, o Careca, flexível e leve, hábil, os quatro rivalizando em leveza de golpes e prontidão de defesas.»

O regulamento, artigo a artigo

Leiam-se agora as regras sob as quais estes homens subiram: As quedas não contam, «o capoeira podia fazer o adversário cair as vezes que quisesse, este não era declarado vencido a menos que permanecesse no chão mais de dez segundos.» Os golpes ao rosto são proibidos. O espaço: «um ringue de seis metros quadrados, com parquet no chão, portanto sem colchão para amortecer as quedas.» O trajo: quimono para os professores de jiu-jitsu, vestes de linho reforçado para os capoeiras, mas «se as roupas usadas por um dos capoeiras se rasgassem, previa-se que fossem imediatamente substituídas por um quimono, como os professores de jiu-jitsu tinham exigido.»

Faça-se o cálculo com a tese: para vencer, era preciso submeter ou nocautear. Ora «a capoeira não possuía, nem possui hoje, técnicas de submissão», e o nocaute passava pelo rosto, proibido. Quanto à arma rainha do jogo, a queda provocada, era regulamentarmente nula. «Mesmo que o capoeira fizesse o adversário cair dez, vinte ou trinta vezes, este não era declarado vencido.» Restava uma única opção: «esperar que aplicassem os seus ataques contra eles.» Um amador escreveu ao jornal A Noite três dias depois, com o bom senso do praticante: «Para a capoeira, desde que não seja armada, não há golpes proibidos: o capoeira sobressai antes de mais em não se deixar apanhar, usando para isso apenas a sua destreza e procurando, com um passo de capoeiragem, desequilibrar e fazer cair o adversário! Pergunte a si mesmo: pode haver um regulamento para isso?»

Três combates, um tumulto

Os resultados conformaram-se à estrutura. George Gracie contra o Coronel: o Gracie dá um soco no rosto, proibido, e é… ele quem é declarado vencido por desqualificação, pronunciada com fair play pelo próprio Jayme Martins Ferreira, diretor da academia de capoeira, contra o seu próprio campo. Mané, tesourado nos rins pelas pernas de Oswaldo Gracie, bate três vezes. Reynaldo, submetido por uma chave de braço, «o único capoeira apresentado que ofereceu alguma resistência», handicapado por um ferimento na cabeça desde o início. Três veredictos no primeiro assalto, quando a imprensa prometera combates «reais, ferozes e violentos». «O espetáculo terminou no tumulto dos espectadores mais exaltados, que não se conformaram com a decisão final.» Menos do que a derrota, «foi o sentimento de ter assistido a não-combates que provocou a raiva.»

Terão sequer lido o contrato?

A tese coloca a pergunta que ninguém colocara: teriam os capoeiras aceitado estas regras com conhecimento de causa? «Os capoeiras faziam certamente parte dessa maioria de brasileiros analfabetos, estimada em quase 80% da população total durante as três primeiras décadas do século XX. Talvez só tenham compreendido o regulamento uma vez no ringue, de outro modo, por que teria um deles golpeado o adversário no rosto sabendo esta técnica proibida?» Um contrato escrito oposto a homens que não o sabiam ler: a derrota de 3 de julho de 1931 começa aí, muito antes do primeiro assalto.

FONTES

Biblioteca Nacional do Brasil: «Entre a capoeiragem e o jiu-jitzu», A Batalha, 30 maio 1931; «Jiu-jitsu contra capoeiras», Correio da Manhã, 30 jun. 1931; «Os espectaculos de hontem no campo do Botafogo F.C.», Diario de Noticias, 4 jul. 1931; «Os lutadores de jiu-jitsu venceram os capoeiras», Correio da Manhã, 4 jul. 1931; «Jiu-jitsu x capoeira», A Noite, 6 jul. 1931. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Parte II, cap. A.2.

NO CORPUS

→ Reescrever o 1.º de maio: a contralenda do «moleque Cyrillo»

→ «Continuo sem estar convencido»: a resposta do coronel

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. 3 de julho de 1931: o regulamento que proibia vencer. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 47. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/3-de-julho-de-1931-o-regulamento-que-proibia-vencer [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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