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CONCEPTS · TÉCNICA

Vencer caindo, tocar sem tocar

6 MIN DE LEITURA

Um século de querelas não conseguira responder à pergunta mais simples: o que é a capoeira? Eis a primeira definição rigorosa, em cinco componentes

POR QUE ESTE ARTIGO

Este é o artigo de referência do corpus. A definição que apresenta é o instrumento de toda a comparação: sem ela, não há fundamento técnico para a família das artes de combate negras. Assenta na obra do filósofo Bernard Jeu, em vinte anos de prática, na observação de centenas de jogos e na própria história da disciplina.

A pergunta que atormenta há um século

O que é a capoeira? A pergunta parece simples. E, no entanto, dilacerou a disciplina durante um século, sem nunca receber uma resposta rigorosa.

Opõe os capoeiras populares aos alunos de Sinhôzinho nos anos 1920. Bimba aos angoleiros a partir dos anos 1930. Os capoeiras aos professores de jiu-jitsu durante a epopeia desportiva (1928–1953). Os partidários da capoeira-combate aos partidários da capoeira-folclore nos simpósios de 1968 e 1969. Assume mesmo formas explicitamente raciais e sociais. No Rio, no início dos anos 1930, certos jornalistas exigem a proibição de passos de dança julgados «símios». Em Salvador, a querela incide sobre o próprio conteúdo do jogo: fazem parte dele os golpes e as projeções? Sem bofetadas, sem cabeçadas, sem a contagem das quedas, será ainda capoeira? O que é jogar? Como se vence?

Um século de prática mundial não bastara para o resolver. A resposta existe agora. Cabe numa frase: a capoeira é uma arte de combate extraordinária, de lógica interna kaleidoscópica e princípios de jogo paradoxais, «um combate vertical (a queda e o voo) e um combate horizontal (o simulacro e o toque/quase-toque), assentes em princípios de jogo paradoxais». Cada palavra merece o seu lugar. Componente a componente.

A queda e o voo

Primeira componente: o desequilíbrio negativo, fazer cair o adversário. Rasteiras, cabeçadas, tesouras. É a componente de maior carga simbólica: «O adversário pode ser o mais fino dos acrobatas, pode roçar os céus em reversões aéreas, uma rasteira consumada significará a derrota.» Uma morte simbólica.

Toda a história o confirma. As velhas técnicas de percussão visavam o desequilíbrio definitivo, assim foi o rabo de arraia de Cyriaco em 1909. A pontuação de Bimba dava o máximo de pontos às ações de desequilíbrio. As regras de Burlamaqui declaravam vencido aquele que mais tivesse caído.

Segunda componente: o desequilíbrio positivo, o voo. Aqui o jogador derruba-se a si próprio: acrobacias em que «torções, dissociações segmentares, saltos, rotações e apoios precários se entrelaçam com fins estéticos», para roçar a queda e atingir «a impossível e perigosa ascensão do céu».

Detenhamo-nos um instante na estranheza da coisa. Todo o sistema de combate do mundo procura preservar o equilíbrio. A capoeira é o único a fazer da derrubada voluntária de si mesmo uma via para a vitória.

A arte de não golpear

Terceira componente: o simulacro, «o polo mais importante do jogo, e o menos formalizado». O seu princípio desconcerta: tocar não é jogar. O ataque de ampla amplitude, quase sem incerteza, equivale a «oferecer ao outro a possibilidade de nos tocar ou desequilibrar, impedindo-o ao mesmo tempo de atingir esse objetivo». Um convite à ruptura, que inverte a conceção ordinária do combate: «A capoeira é saber jogar contra e jogar com: o outro é ao mesmo tempo adversário e parceiro.»

O Mestre João Grande deu-lhe a sua mais bela formulação, através de uma memória de infância: «Ia para a floresta e observava os insetos […] Os pássaros em voo não se batiam uns nos outros; desviavam-se […] Na minha mente despertou esta pergunta: como conseguiam não se tocar? Eu tinha dez anos.»

Quarta componente: o toque, ou quase-toque. Tocar o tronco ou o rosto do adversário produz nele «movimentos involuntários, desordenados, assíncronos». Mas, a diferença decisiva em relação ao boxe, o nocaute não é o objetivo: «a sua liberdade de movimento deve cessar, e a harmonia entre os seus deslocamentos e a música ser quebrada.» O toque demonstra a ausência de mandinga, a inteligência astuta do jogador consumado.

Quinta componente: o ritmo no deslocamento. A ginga, essa sucessão de balanceios que identifica a capoeira entre mil, é ao mesmo tempo defesa, preparação ofensiva e ligação com a música: «o jogador deve mover-se sempre em conformidade com o ritmo musical e as convenções técnicas que este impõe, sob pena de perder o jogo.» Perder o ritmo é já perder.

Por que «kaleidoscópica»

Estes cinco polos não operam um após o outro. Operam ao mesmo tempo, por meio de princípios de jogo complexos: dissimetria das forças, oposição e inversão dos papéis, chamamento à ruptura, o continuum cooperação–oposição. É esse o sentido exato da palavra kaleidoscópica: «tudo e o seu contrário coexistem num só e mesmo quadro regulador e espácio-temporal, tocar e não tocar, alçar voo e cair.» Enquanto os outros desportos de combate hierarquizam os seus fins, a capoeira sobrepõe-nos.

E esta definição não é um exercício de classificação. É um instrumento, o primeiro que permite comparar rigorosamente a capoeira com outras práticas, componente a componente, princípio a princípio. Essa comparação, uma vez levada a cabo, conduz à descoberta central da tese: a capoeira não está sozinha no mundo.

FONTES

Jeu, B., Le sport, l'émotion, l'espace, Paris, Vigot, 1977. Parlebas, P., Jeux, sports et sociétés. Lexique de praxéologie motrice, Paris, INSEP, 1999. Pereira da Costa, L., Capoeira sem mestre, anos 1960. Castro, M. de B., Mestre João Grande na roda do mundo, Rio de Janeiro, Garamond, 2010. Gravina, H., Vibrant, 6/1, 2009. Coleções da Biblioteca Nacional do Brasil (Rio de Janeiro): manuais de O.D.C. (1907) e Burlamaqui (1928), imprensa desportiva carioca. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Abertura, secções A.1–A.6.

NO CORPUS

→ A capoeira não está sozinha no mundo

→ Uma memória sem pensamento?

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Vencer caindo, tocar sem tocar. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 07. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/vencer-caindo-tocar-sem-tocar [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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