Black Combat Arts Institute.
CONCEPTS · BODY
Uma memória sem pensamento?
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A capoeira é celebrada como a memória encarnada da resistência negra. Mas entre os seus defensores mais empenhados, um paradoxo: ao proibir a análise do gesto, acaba-se por reduzir a cultura negra a um invólucro carnal que transmite sem pensar
POR QUE ESTE ARTIGO
Este artigo funda o direito de analisar. Contra a homenagem que atribui, estabelece que o gesto negro pensa, a condição teórica da definição em cinco componentes, e de todo o campo das artes de combate negras. A fórmula que o resume: o arquivo é armado porque pensa.
Pode uma homenagem atribuir?
Desde o fim do século XX, a capoeira tornou-se um lugar de memória da escravidão e uma luta pós-colonial. Preserva uma cultura especificamente negra ameaçada nas Américas. Para alguns autores de influência marxista é mais ainda: «a antítese do autoritarismo materializado nas sociedades modernas pelo domínio do capitalismo sobre os indivíduos e os seus corpos.» A pedagogia histórico-crítica brasileira «toma claramente o partido da classe trabalhadora defendendo a apropriação, por cada indivíduo, do que há de mais desenvolvido no conjunto da produção cultural.» Nesta visão, a capoeira seria «a expressão mais consumada da solidariedade», unindo «num todo indivisível o corpo e o espírito, o cultural, o político e o lúdico».
Uma visão generosa. Ninguém a contesta. Mas comporta uma cláusula cujo custo é elevado: é monista, recusando qualquer distinção de aspetos dentro do todo que celebra. E «esta visão vem geralmente com uma proibição de analisar a capoeira a partir do biológico ou do motor, para não a reduzir a um arranjo orgânico e mecânico». Estudar a ginga como coordenação motora, analisar uma rasteira como técnica: outros tantos gestos científicos atingidos por proibição, porque pareceriam desmembrar a totalidade viva do jogo. A intenção é protetora. O efeito é bem outro.
O paradoxo do «arquivo armado»
Ei-lo, enunciado sem rodeios: «esta crítica da biologização do corpo pelo capitalismo e pelo pensamento ocidental acompanha-se muitas vezes de uma redução da cultura negra a um mero invólucro carnal. Com efeito, o corpo do capoeirista seria um arquivo armado, transmitido de geração em geração por gestos na ausência de pensamento consciente.»
A expressão é de Julio César Tavares, e é bela: o corpo como arquivo armado. Que dignidade mais alta conferir ao corpo do capoeirista do que fazer dele o repositório vivo da memória de um povo? Mas tomada à letra, gestos transmitidos de geração em geração na ausência de pensamento consciente, a fórmula opera uma partição temível. Mistura «dualismo cartesiano e estereótipos raciais»: o pensamento de um lado, o corpo do outro, e o corpo negro do lado do corpo apenas, transmissor inconsciente de uma memória que carrega sem pensar. Reconhece-se a velha atribuição colonial, a uns o espírito, a outros a carne, reconduzida no vocabulário da homenagem. A homenagem transforma-se em atribuição.
A saída: a técnica corporal
Como sair desta contradição sem renunciar nem à dignidade memorial do corpo nem à sua análise? «Para superar esta contradição, parece interessante interrogar este corpo. Fá-lo-emos a partir da técnica corporal: a maneira particular de coordenar os seus movimentos motores, de se deslocar no espaço de jogo, de interagir com o adversário, de perder ou de vencer, o que faz da capoeira uma atividade singular, facilmente reconhecível entre mil, e sem dúvida a razão da sua ascensão internacional.»
Meça-se o desvio. Estudar a ginga, o rabo de arraia, o simulacro, o quase-toque, não é reduzir a capoeira à mecânica. É conceder ao gesto o estatuto de uma decisão, ao simulacro o de um raciocínio, ao convite à ruptura o de uma estratégia. No quadro de Bernard Jeu, o desporto estruturado pela emoção e pelo espaço, a provação que dá «acesso ao domínio do maravilhoso» onde nos «banhamos na atmosfera do conto, a da morte roçada e ameaçadora», o jogo não é a execução muda de um programa herdado. É um pensamento em atos.
Ler o que o arquivo escreveu
Esta reviravolta é o gesto teórico fundador de todo o campo das artes de combate negras: recusar a escolha entre o corpo mudo e o espírito desencarnado. Comanda mesmo a definição técnica da capoeira, pois analisar as cinco componentes do jogo é precisamente levar a sério a inteligência alojada no gesto. E reconcilia Tavares consigo mesmo. O arquivo é armado porque pensa. Analisá-lo tecnicamente é, enfim, ler o que ele escreveu.
FONTES
Tavares, J. C. (sobre o «arquivo armado»). Silva Tomaz, A., Paiva Reis, A. de, Alves Landim, R. A., Nuances: estudos sobre Educação, 27, 1, 2016. Jeu, B., Le sport, l'émotion, l'espace, Vigot, 1977. Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Abertura, «Apresentação e definição preliminar».
NO CORPUS
→ Vencer caindo, tocar sem tocar
→ «A escravidão não terá sobrevivido?»
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. Uma memória sem pensamento?. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 19. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/uma-memoria-sem-pensamento [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.