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CARIBE · CUBA

O maní está morto. Serão os campeões de boxe de Cuba os seus herdeiros?

4 MIN DE LEITURA

A luta afro-cubana possuía todos os fundamentos estruturais das artes de combate negras. Desapareceu, sem decreto, sem repressão, vencida pelo sucesso da «arte nobre». Resta uma hipótese vertiginosa, que a tese enuncia com a cautela exigida

POR QUE ESTE ARTIGO

O manì revela um terceiro regime de apagamento das práticas negras, nem perseguição nem silêncio: a concorrência vitoriosa de uma prática vizinha. E ilustra a disciplina epistémica do campo: uma hipótese é aqui apresentada como tal, com o seu estatuto exato.

O que era o manì

Quem fez desaparecer o manì, e o que dele resta? Antes de responder, há que estabelecer o que era. E a sua pretensão de pertencer à família é completa: a luta cubana hoje desaparecida «possuía o conjunto dos fundamentos estruturais das artes de combate negras: dissimetria da relação de força, convite à ruptura, fluxo contínuo dos lutadores, continuum cooperação-oposição (em menor grau), e as dimensões vertical (desequilíbrio negativo) e horizontal (toque) do duelo». Tecnicamente, o manì «associava socos e pontapés». A sua psicologia de jogo era a de toda a família: como na capoeira, «os protagonistas estão permanentemente num duplo estado psicológico de descontração e de tensão», aguardando o momento em que o jogo «basculará sem dúvida para o duelo».

Um traço distinguia-o no seio da própria família. Ao contrário do bènaden, do tolona e do batuque, o manì assentava, como a capoeira, «tanto na horizontalidade como na verticalidade»: o golpe desferido e a queda provocada. Só dois outros membros partilham esta dupla dimensão: o danmyé martinicano e o moring da Reunião. O manì pertencia assim ao círculo mais completo da família.

Uma precaução crítica impõe-se sobre a fonte principal: a descrição de Fernando Ortiz «dizia respeito à antiga maneira de praticar este jogo. No seu tempo, os golpes já não eram realmente desferidos e os lutadores usavam luvas.» Ortiz descrevia já um manì suavizado, em vias de transformação. O apagamento estava em curso antes mesmo de a ciência se debruçar sobre ele.

Morte sem perseguição

Quem matou o manì? Nenhum decreto colonial. Nenhuma campanha de repressão. Nenhuma polícia. «O sucesso do boxe inglês levou sem dúvida a melhor sobre a forma tradicional do manì. E foi certamente uma das razões do seu desaparecimento. Pois a proximidade da arte nobre com o pugilismo cubano levou muitos deles a voltarem-se para o punho inglês, mais atraente e mais moderno.»

A própria proximidade das duas práticas revelou-se fatal à mais antiga. Corpos formados no manì encontraram no boxe um terreno familiar, globalizado, institucionalizado, dotado de títulos e carreiras. Passaram para o outro lado. Este mecanismo merece um nome, pois completa a tipologia dos apagamentos que o corpus trouxe à luz. A capoeiragem carioca foi apagada pela perseguição, depois por sobreposição. O mayolè morre no silêncio da indiferença. O manì morreu de concorrência vitoriosa, desaparecimento por substituição, em que a prática vizinha absorve os corpos e as vocações sem que qualquer violência seja necessária. É o terceiro regime de apagamento das artes de combate negras. E sem dúvida o mais insidioso: não deixa nem mártires nem culpados.

A hipótese

Vem então a hipótese, e há que apresentá-la com o rigor que as próprias fontes lhe aplicam. «Esta velha cultura do combate de punhos explica talvez por que o país conta, no boxe inglês, um tão grande número de campeões mundiais e de medalhados olímpicos.»

O «talvez» não é uma precaução estilística. Fixa o estatuto exato do enunciado: uma pista de investigação, não um resultado. O título interrogativo deste artigo toma nota disso. Mas meça-se o que a hipótese, se fosse verificada, implicaria. A potência pugilística cubana, esse enigma de uma ilha a dominar os pódios mundiais da arte nobre, teria por substrato a cultura secular do punho forjada no manì. A prática estaria morta; a competência corporal, a cultura do combate de punhos, a inteligência do duelo teriam migrado para o próprio desporto que a matou. O arquivo armado teria mudado de suporte.

Se a hipótese estiver certa, então as medalhas de ouro de Havana são, sem o saberem, troféus do manì. E o estudo das artes de combate negras desaparecidas não é uma arqueologia. É a genealogia do presente.

FONTES

Ortiz, F. (descrição do manì). Malo, O., La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020, Abertura, secções B.2–B.3.

NO CORPUS

→ A capoeira não está sozinha no mundo

→ Como salvar uma arte moribunda sem matar o que a mantém viva

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. O maní está morto. Serão os campeões de boxe de Cuba os seus herdeiros?. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 21. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-mani-esta-morto-serao-os-campeoes-de-boxe-de-cuba-os-seus-herdeiros [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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