Black Combat Arts Institute.
INTERNAL LOGIC
O golpe que nunca teve intenção de acertar
6 MIN DE LEITURA
Através dos estilos, dos mestres e de décadas de imagens, os golpes não são desferidos. O simulacro e o toque são a norma, toda a gente joga a mesma capoeira.
POR QUE ESTE ARTIGO
O debate sobre a capoeira «real» versus «de demonstração» pressupõe que os golpes deveriam acertar. A tese mostra, a partir das imagens dos anos 1950, que o não-golpear é a regra partilhada, e não um abrandamento folclórico.
Uma opção antiga
Tocar o adversário durante um jogo, em vez de tentar nocauteá-lo com golpes, era já uma opção a que os capoeiristas baianos tinham aderido desde o início do século XX. Nas reportagens televisivas produzidas a partir do início dos anos 1950, pode observar-se, além da importância do simulacro, alguns toques leves de pé e de cabeça entre os jogadores.
O mesmo jogo, em toda a parte
Alguns anos mais tarde, a mesma constatação: mesmo quando a velocidade do jogo acelera e os corpos se endireitam, os golpes continuam a não ser acertados. O simulacro e o toque são a norma, verdade em todos os estilos e mestres. Todos jogam a mesma capoeira. Quando, nos anos 1960–70, os mestres cariocas tentaram impor uma capoeira de ringue, a obrigação de controlar os ataques era também uma exigência forte dos baianos.
Por que importa
Não acertar o golpe não é um enfraquecimento folclorizado de um combate «real». É a própria regra do jogo, mantida em comum por estilos que de resto tudo disputam.
FONTES
La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020 (Parte III, sobre o simulacro e o toque como norma partilhada, a partir das imagens dos anos 1950).
NO CORPUS
→ Na capoeira, vence-se quase tocando
→ Cair de propósito: o desequilíbrio positivo
COMO CITAR ESTE ARTIGO
MALO, Olivier. O golpe que nunca teve intenção de acertar. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 62. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/o-golpe-que-nunca-teve-intencao-de-acertar [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.