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INTERNAL LOGIC

Na capoeira, vence-se quase tocando

6 MIN DE LEITURA

O toque congela o jogo do adversário, e um quase-toque, um pé a roçar o rosto por centímetros, faz exatamente o mesmo trabalho.

POR QUE ESTE ARTIGO

A capoeira é lida ora como uma dança, ora como um combate de golpes contidos. A tese identifica o verdadeiro ato de vitória: o toque, ou mesmo o simples quase-toque, que desorganiza a motricidade do outro.

O toque que encerra o jogo

O toque congela o jogo do adversário. A destreza que ele mostrava nos seus deslocamentos e reversões, a harmonia encantadora que ligava as suas ações às dos músicos, quebra-se: perdeu. Para o conseguir, nem sequer é necessário tocá-lo, um quase-toque basta.

O quase-toque

O quase-toque produz as mesmas perturbações que um toque: o pé não atinge o alvo mas roça-o por centímetros, por vezes menos. O jogador não consegue perceber a subtileza; é forçado a reorganizar-se, a aparar ou esquivar um movimento que julga capaz de o atingir. Atrasado sobre o ataque, como quando o movimento verdadeiramente o toca, o capoeirista vê a sua motricidade desorganizada. O adversário impôs-lhe um estado corporal que ele não queria: arritmia, desequilíbrio, um corpo congelado, outros tantos sinais da sua derrota.

Por que importa

O ato decisivo da capoeira não é o golpe acertado, mas a desordem imposta. Para apreender o jogo, há que olhar não para o contacto mas para a quebra do ritmo, visível apenas para quem sabe o que observar.

FONTES

La capoeira et les arts de combat noirs : histoire effacée, techniques invisibles (1905–1984), tese de doutoramento, Université des Antilles, 2020 (Parte III, sobre o toque e o quase-toque na lógica interna da capoeira).

NO CORPUS

→ O golpe que nunca teve intenção de acertar

→ Cair de propósito: o desequilíbrio positivo

COMO CITAR ESTE ARTIGO

MALO, Olivier. Na capoeira, vence-se quase tocando. In: Black Combat Arts Institute, Artigos [online]. N.º 61. 2026. Disponível em: https://www.blackcombatarts.com/artigos-pt/na-capoeira-vence-se-quase-tocando [acesso em data]. Adaptado da tese de doutoramento do autor, Université des Antilles, 2020.

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